A escalada do conflito no Oriente Médio começou a prejudicar a logística das exportações brasileiras de carne de frango, mas ainda sem cancelamento de embarques já programados ou impacto financeiro mensurável.Segundo o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, a restrição ocorre na abertura de novas reservas de espaço nos navios. “O que temos hoje é que não estão aceitando bookings novos para a região”, disse, à reportagem. “Os que estavam feitos não estão sendo cancelados”, acrescentou.Na prática, as companhias marítimas suspenderam temporariamente novas reservas de contêineres para embarques de frango com destino ao Oriente Médio, por cautela diante dos riscos nas rotas da região. Já as cargas que tinham reserva confirmada seguem embarcando normalmente, e os navios que já deixaram o Brasil continuam viagem.Parte dessas cargas, porém, ainda está em trânsito e pode enfrentar atrasos ou redirecionamentos. “Tem o que já foi produzido em fevereiro, que está no navio, que saiu sexta-feira, que saiu quinta-feira. Não vai voltar, está indo. Vai ter que achar um porto de transbordo, um porto de parada para armazenamento”, explicou.Mais de 25% das exportações brasileiras de frango têm como destino o Oriente Médio, considerando mercados como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, este último o maior comprador do Brasil no ano passado, com 470 mil toneladas. Apenas em janeiro, foram 44 mil toneladas embarcadas ao país.O prazo médio de trânsito é de cerca de 40 dias, o que dificulta a mensuração do volume atualmente no mar, segundo Santin, observando que parte das cargas realiza transbordo em diferentes portos antes de chegar ao destino final. O dirigente citou ainda incertezas nas principais rotas marítimas. “Está fechado o Estreito de Ormuz, mas também está fechado o Canal de Suez”, afirmou.Hoje, o Brasil exporta, em média, 31 mil toneladas por dia de proteína animal ao mundo, incluindo frango, suínos e ovos. Santin avalia que, no curto prazo, a situação é “manejável”, já que não houve embargo comercial e as vendas contratadas continuam sendo atendidas. A ABPA ativou seu gabinete de crise e intensificou o diálogo com armadores e empresas associadas.Apesar da gravidade do conflito, Santin acredita que o fluxo de alimentos tende a ser preservado. “Além do cara sofrer com uma guerra, nós não queremos que ele sofra por falta de comida. Vamos fazer o nosso melhor para tentar continuar a fazer o fluxo de comércio andando bem”, afirmou.Ele lembrou que o Oriente Médio é parceiro histórico do setor. “A exportação brasileira de frango começou por lá”, disse. Com cerca de 38% de participação no mercado global, o Brasil ocupa posição estratégica no abastecimento da região. “Se não vem do Brasil, não vem de outro lugar. Não tem”, concluiu.O Oriente Médio representou US$ 12,572 bilhões em embarques do agronegócio brasileiro em 2025, com 25,121 milhões de toneladas de produtos agropecuários exportados. O principal produto exportado pelo País à região no último ano foi a carne de frango (US$ 3,082 bilhões).