O avanço da inteligência artificial e a corrida por novos data centers reacenderam um debate nos Estados Unidos: o crescimento acelerado dessas estruturas pode pressionar a rede elétrica (o sistema que envolve geração, transmissão e distribuição de energia) e, em alguns casos, impactar tarifas. O movimento ocorre em meio à expansão de infraestrutura dedicada a modelos de IA generativa, que exigem grande capacidade computacional e consumo contínuo de energia.Relatórios recentes da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam que o consumo elétrico associado a data centers, criptomoedas e IA pode mais que dobrar até o fim da década. Segundo a entidade, centros de dados já respondem por algo próximo de 1% a 1,5% da demanda global de eletricidade, com tendência de alta puxada principalmente por aplicações de IA.Nos Estados Unidos, onde há concentração significativa dessas instalações, o crescimento regional da carga elétrica, ou seja, o volume de energia demandado em determinado ponto da rede, tem exigido reforços em geração e transmissão. O debate não se limita ao volume consumido. Envolve qualidade de energia, estabilidade de tensão, critérios de contingência — parâmetros que garantem operação mesmo em caso de falhas — e, em alguns casos, a possibilidade de repasse de custos à tarifa. Diante desse cenário, surge a questão: o sistema elétrico brasileiro está preparado para uma expansão semelhante?Aplicações de inteligência artificial elevam a demanda por capacidade computacional e consumo contínuo de energia (Imagem: Gorodenkoff / Shutterstock.com)Governo dos EUA quer que big techs banquem energia de data centersNos Estados Unidos, o debate sobre o impacto energético dos data centers ganhou dimensão política ao longo dos últimos meses. Em diferentes manifestações públicas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a defender que as grandes empresas de tecnologia assumam diretamente os custos da energia necessária para sustentar a expansão da infraestrutura de inteligência artificial.Durante discurso realizado em fevereiro, o presidente afirmou ter determinado que as principais companhias do setor construam suas próprias usinas de geração para abastecer centros de dados. A medida, segundo ele, busca proteger consumidores de possíveis aumentos na conta de luz em um cenário de alta no custo de vida e crescente oposição local a novos projetos.A posição da Casa Branca não surgiu de forma isolada. Desde janeiro, o governo vinha pressionando empresas para firmar compromissos formais que evitassem o repasse de custos energéticos aos consumidores residenciais. A Microsoft foi a primeira a anunciar ajustes operacionais com esse objetivo, enquanto outras companhias passaram a discutir alternativas como autoprodução e contratos dedicados de fornecimento.Governo dos Estados Unidos mantém discurso de reforçar corrida tecnológica contra a China, mas afirma que big techs terão que arcar com custos energéticos (Imagem: Joshua Sukoff / Shutterstock.com)Segundo informações divulgadas pela agência Reuters, a Casa Branca agendou para 4 de março uma reunião com executivos de empresas como Microsoft, Meta e Anthropic para formalizar um compromisso voltado à contenção do impacto dos data centers nos preços da eletricidade. A proposta envolve a assinatura de um “Compromisso de Proteção ao Consumidor de Energia Elétrica”, embora o formato final das exigências e eventuais obrigações adicionais ainda não tenha sido detalhado publicamente.No mês anterior, a operadora PJM Interconnection já havia apresentado alternativas para grandes consumidores reduzirem o impacto sobre a rede, como conectar geração própria ou limitar consumo em momentos de sobrecarga. Empresas como Anthropic e Microsoft anunciaram iniciativas voluntárias para mitigar efeitos dos centros de dados nos preços de energia ao consumidor. Comparações exigem escala e maturidade de mercadoPara o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja, a análise precisa considerar diferenças estruturais entre os dois países, especialmente o tamanho da base instalada. Assim, é um comparativo que necessita de cuidado ao ser feito.“Em relação ao número de data centers que já tem nos Estados Unidos e ao número que está sendo instalado. Tudo tem que ser colocado em perspectiva”, explica ele. “Um aumento de 10% do que tem nos Estados Unidos é um aumento massivo. Já 10% do que tem no Brasil não é”.Segundo ele, variáveis energéticas são monitoráveis e historicamente vinculadas ao crescimento econômico. O Brasil já viveu períodos em que a expansão do PIB esbarrou na limitação de oferta de energia. Hoje, porém, o cenário é distinto, com fontes como solar e eólica permitindo acréscimos mais rápidos de capacidade instalada, diferentemente das grandes hidrelétricas que demandam anos de construção.Igreja também destaca que o país conta com mercado livre de energia (ambiente em que grandes consumidores negociam energia diretamente com geradores) estruturado e geração distribuída consolidada, instrumentos que ampliam alternativas contratuais para grandes consumidores. Ainda assim, alerta para o ritmo projetado de crescimento da IA no consumo global.Estima-se que a IA vai caminhar para ser de 5% a 7% do consumo de energia global muito rapidamente. O Brasil tem que ter uma agenda para isso para não ser pego de surpresa, mas, mais uma vez, a comparação com os Estados Unidos tem que ser colocada em perspectiva.Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovaçãoA dinâmica técnica da pressão energéticaSe o debate macroeconômico exige cautela, no plano técnico os impactos são objetivos. A instalação de um grande data center introduz uma carga de elevada potência concentrada — grande consumo de energia conectado em um único ponto físico —, com exigências rigorosas de confiabilidade.A conexão de grandes data centers à rede pode exigir ampliações em subestações, novos transformadores e reforços nos sistemas de proteção e contingência (Imagem: Bohbeh creations / Shutterstock.com)Segundo Rudolf Bühler, coordenador dos cursos de Ciência da Computação, Sistemas de Informação, Inteligência Artificial e Ciência de Dados do Instituto Mauá de Tecnologia, a alteração começa no próprio desenho da rede local.“A mudança na dinâmica da rede elétrica local ocorre principalmente por introduzir uma carga de elevada potência concentrada em um único ponto de conexão e com exigências rigorosas de confiabilidade e qualidade de energia”, explica ele.Na prática, isso implica transformadores operando continuamente próximos da plena carga, necessidade de cumprimento de critérios de contingência mais exigentes e revisão de sistemas de proteção. A conexão de centenas de megawatts não exige apenas geração adicional, mas adequações na malha de transmissão — rede de linhas de alta tensão que transporta energia entre regiões —, na transformação e na estabilidade de tensão.Outro ponto relevante é o perfil eletrônico dessas instalações. A presença massiva de retificadores, UPS e sistemas de conversão pode gerar harmônicos (distorções na forma de onda da corrente elétrica causadas por equipamentos eletrônicos), variações no fator de potência (indicador da eficiência com que a energia é efetivamente utilizada) e oscilações de tensão. O professor Bühler explica que esses efeitos precisam ser monitorados e compensados para evitar impactos na rede local e em consumidores vizinhos.Equipamentos de alimentação ininterrupta (UPS) e sistemas de conversão eletrônica influenciam qualidade de energia, fator de potência e estabilidade de tensão na rede local (Imagem: pavlinec / iStock)Carga base elevada e degraus de expansãoDiferentemente de consumidores industriais que podem reduzir operação em horários de pico, data centers operam com utilização elevada e relativamente constante ao longo do dia, atendendo demanda global ininterrupta.“A demanda elétrica em um data center tende a ser relativamente contínua e previsível”, afirma Bühler. “No entanto, existem variações decorrentes da expansão das instalações, com a entrada em operação de novos clusters e mudanças operacionais, como momentos em que ocorrem treinamentos intensivos de novos modelos de IA.”Esses eventos podem produzir degraus de carga significativos — aumentos abruptos no consumo de energia em curtos intervalos de tempo. Por isso, a infraestrutura não pode ser dimensionada apenas pela média de consumo, mas pela demanda contratada máxima, ou seja, o pico de consumo previamente reservado junto à concessionária, e pelas condições de contingência previstas no planejamento da rede.Nos centros dedicados à IA, explica Bühler, a diferença em relação a data centers tradicionais também é significativa. Há maior densidade de potência por rack (mais energia consumida em menos espaço físico), maior geração de calor e adoção crescente de refrigeração líquida. Esse conjunto eleva a carga total da instalação e pode introduzir maior variabilidade diária, dependendo da estratégia operacional do operador.Gargalos: geração não é o único fatorAté em países com matriz energética ampla, o risco de sobrecarga regional permanece. A disponibilidade nacional de geração não elimina restrições locais de rede.Mesmo em países com matriz energética ampla, existe risco de sobrecarga regional. A disponibilidade nacional de geração não elimina restrições locais de rede, como capacidade de transformação, corredores de transmissão saturados ou limitações impostas por critérios de estabilidade.Rudolf Bühler, professor do Instituto Mauá de TecnologiaSegundo Bühler, na maior parte das vezes, o primeiro gargalo aparece na distribuição, sobretudo em áreas urbanas onde subestações e alimentadores já operam próximos ao limite. Em projetos de maior porte, conectados em alta tensão, passam a ser necessários reforços em linhas de transmissão e ampliações de subestações.Em matrizes diversificadas como a brasileira, a geração tende a não ser o principal problema quando se observa o consumo anual agregado. No entanto, podem surgir dificuldades em momentos pontuais de maior demanda ou em regiões específicas com alta concentração de cargas.Planejamento estruturado e riscos de expansão reativaNo Brasil, a expansão da rede elétrica é conduzida de forma estruturada, com base nos estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e na análise técnica do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A integração de novas cargas ao Sistema Interligado Nacional — rede que conecta a maior parte da geração e do consumo de energia do país — depende da verificação de impactos elétricos e do atendimento a critérios de segurança e contingência.Esse desenho institucional tende a reduzir improvisações. Ainda assim, o crescimento acelerado e concentrado de grandes cargas pode introduzir caráter parcialmente reativo ao processo.Obras de transmissão e ampliação de subestações exigem anos para licenciamento e construção. Quando múltiplos empreendimentos buscam conexão em um mesmo corredor elétrico ou região metropolitana, pode ser necessário realizar reforços que não estavam detalhados no planejamento original.Além disso, Bühler ressalta a importância de mecanismos de garantias financeiras para grandes cargas. Sem esses instrumentos, existe o risco de investimentos em infraestrutura serem realizados para projetos que eventualmente não se concretizam, gerando ineficiências sistêmicas.É nesse contexto — de necessidade de coordenação entre expansão digital e planejamento elétrico — que surgem propostas de política pública voltadas especificamente ao setor de data centers, como o Redata.Redata: incentivo a data centers e exigências energéticasA criação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, surgiu em um momento de pressão crescente sobre a infraestrutura elétrica, tanto no Brasil quanto no exterior. A Medida Provisória nº 1.318/2025 instituiu o programa com foco em reduzir o custo de instalação e expansão de data centers, mas vinculou os benefícios a compromissos diretos relacionados ao suprimento e ao perfil de consumo de energia dessas operações.O texto alterou a Lei nº 11.196/2005 para incluir o novo regime e estabeleceu regras específicas para empresas interessadas em implantar ou ampliar serviços de datacenter no país. Entre as contrapartidas, estão obrigações ligadas à matriz energética utilizada pelas operações.Redata foi instituído com MP, mas prazo para votação no Senado se encerrou sem aprovação (Imagem: Reprodução/CanalGov)Uso de fontes limpas e atendimento integral da demandaPara aderir ao Redata, as empresas precisam cumprir critérios de sustentabilidade definidos em regulamento e atender integralmente sua demanda de energia elétrica por meio de contratos de suprimento ou autoprodução a partir de fontes limpas ou renováveis. O texto também prevê metas relacionadas à eficiência hídrica, como limite de consumo de água por quilowatt-hora processado.Além disso, o regime condiciona os incentivos fiscais à realização de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação na cadeia da economia digital. Na prática, a política combina desoneração tributária com exigências ambientais e energéticas, em um cenário no qual o consumo intensivo de eletricidade por data centers se tornou ponto central do debate público.MP caducou e projeto depende do SenadoEmbora a Câmara dos Deputados tenha avançado na análise do tema por meio de projeto de lei que incorporou o conteúdo da medida provisória, a MP 1.318/2025 não foi votada a tempo pelo Senado e perdeu validade. Com isso, o regime especial deixou de ter eficácia automática.O futuro do Redata passa agora por nova articulação legislativa. Em um contexto de expansão da inteligência artificial e aumento da demanda por energia, a definição sobre incentivos fiscais atrelados a compromissos energéticos se tornou parte da discussão mais ampla sobre como financiar e estruturar a infraestrutura elétrica necessária para sustentar o crescimento dos data centers no Brasil.Independentemente do formato final do Redata, a discussão sobre incentivos fiscais não elimina a questão central do debate energético: quem arca com os investimentos necessários para adaptar a rede elétrica à chegada de grandes cargas?O custo pode chegar à conta de luz?O eventual impacto tarifário depende do tipo de investimento necessário.Reforços ou ampliações de caráter sistêmico (obras que beneficiam o funcionamento geral da rede), quando aprovados pela ANEEL, podem ser incorporados às tarifas e repassados aos usuários da rede. Já obras diretamente atribuíveis ao novo empreendimento — como instalações dedicadas de conexão — tendem a ser custeadas pelo próprio responsável pelo data center, conforme as regras de acesso vigentes.Isolar não, mas mitigar sim. É possível estruturar contratos e modelos de fornecimento por meio de contratação no mercado livre, acordos de compra de energia de longo prazo e autoprodução associada.Rudolf Bühler, professor do Instituto Mauá de TecnologiaO eventual repasse de investimentos em infraestrutura elétrica depende do tipo de reforço e das regras regulatórias aplicáveis a cada projeto (Imagem: Andrzej Rostek/iStock)Esses mecanismos permitem mitigar risco de preço e garantir suprimento energético, mas não eliminam completamente os impactos. Mesmo na autoprodução (quando o consumidor investe ou participa de usinas para garantir seu próprio suprimento), permanece a utilização da rede de transmissão e a incidência de custos sistêmicos regulados, salvo quando geração e consumo estão fisicamente no mesmo local.Em larga escala, também entram em jogo limites de disponibilidade de área, licenciamento ambiental e capacidade de conexão à rede existente.Leia mais:Quais os 5 maiores data centers do mundo?O que é um Data Center?O que é a energia geotérmica e como ela é gerada?O sistema brasileiro está preparado?Para Rudolf Bühler, não é possível afirmar categoricamente que sim ou que não. A resposta depende de fatores técnicos e regionais.O Brasil possui matriz diversificada e majoritariamente renovável, além de estrutura regulatória consolidada para planejamento e controle da expansão. No entanto, a prontidão varia conforme a região específica, o nível de tensão de conexão e a margem disponível em subestações e linhas locais. Em áreas com alta densidade de pedidos de conexão, redes menos malhadas ou subestações operando próximas da plena carga, podem ser necessários reforços significativos antes da implantação de projetos de grande porte.Arthur Igreja acrescenta que o país dispõe de instrumentos de monitoramento que reduzem o risco de surpresas estruturais. “Essas variáveis são monitoráveis. Por exemplo, no Brasil que se tem o operador do sistema, sabemos quanto tem de carga instalada, o consumo médio e isso está muito atrelado ao crescimento econômico.” Segundo ele, esse acompanhamento permite antecipar tendências de expansão da demanda.Fontes como solar e eólica permitem expansão mais rápida da capacidade instalada, fator apontado como diferencial da matriz elétrica brasileira (Imagem: Soft grass / Shutterstock.com)Igreja também observa que o contexto atual é diferente de ciclos anteriores, quando o crescimento econômico esbarrava na limitação de oferta. “Hoje tem formas mais rápidas de se adicionar a carga, com fotovoltaico, com eólica, não são aquelas obras que levam 5, 10 anos, como grandes hidrelétricas.” Para ele, a combinação de matriz limpa, mercado livre estruturado e geração distribuída madura cria condições para absorver parte do crescimento, desde que haja coordenação.Ainda assim, Bühler ressalta que a expansão precisa ser tecnicamente planejada. Ele considera razoável discutir contrapartidas energéticas específicas para novos data centers, desde que contribuam para mitigar riscos sistêmicos e alinhar incentivos, como compromissos firmes de demanda, padrões rigorosos de qualidade de energia e eventual integração com soluções de armazenamento ou autoprodução.O objetivo, segundo ele, não deve ser criar barreiras artificiais, mas garantir que a expansão ocorra de forma coordenada com o planejamento da rede, preservando segurança elétrica, previsibilidade regulatória e equilíbrio tarifário para os demais consumidores.O post IA deixa conta de luz mais cara nos EUA. Brasil deve estar de olho? apareceu primeiro em Olhar Digital.