A descoberta, em 2010, de que os primeiros humanos e os neandertais se encontraram e tiveram descendentes foi uma bomba científica que revolucionou o campo das origens humanas.Agora, geneticistas da Universidade da Pensilvânia afirmam ter uma melhor compreensão da natureza desses encontros pré-históricos, sugerindo que os relacionamentos amorosos ocorriam principalmente entre neandertais do sexo masculino e mulheres humanas.A descoberta intrigante, publicada na revista Science, pode ajudar a explicar por que a ancestralidade neandertal presente nos humanos atuais está distribuída de forma desigual pelo genoma. No entanto, ainda não está claro por que os cruzamentos pré-históricos entre nossa espécie, Homo sapiens, e os neandertais — que foram extintos há cerca de 40.000 anos — seguiram, em grande parte, esse padrão. Leia Mais Homem começou a escrever há 40 mil anos: artefato na Alemanha muda tudo Elefante antigo era utilizado como máquina de guerra para trucidar humanos Homem que testemunhou poder do Sol como ninguém em megaexplosão é revelado “Essa é uma hipótese fascinante e instigante”, disse Joshua Akey, professor do Instituto Lewis-Sigler de Genômica Integrativa da Universidade de Princeton, que não participou da pesquisa. “Acho extraordinário que possamos usar sequências genômicas para inferir aspectos da dinâmica social e dos padrões de acasalamento que ocorreram dezenas ou centenas de milhares de anos atrás.”Os pesquisadores não sabem exatamente com que frequência os neandertais e membros da nossa espécie se encontraram, mas um estudo publicado em 2024 sugeriu que os dois grupos trocaram DNA em vários momentos ao longo dos últimos 250.000 anos, enquanto migravam pelo mundo. Sabe-se também que neandertais e Homo sapiens se cruzaram com uma terceira espécie: os denisovanos.A maioria dos seres humanos possui uma pequena porcentagem de DNA neandertal, uma herança genética resultante dessas interações sexuais. Em certos casos, esses genes ainda podem influenciar a saúde humana. Foi constatado que o DNA neandertal afeta os ritmos circadianos , o funcionamento do sistema imunológico e a forma como algumas pessoas sentem dor.Misteriosamente, porém, o cromossomo X humano atual parece ser o que os geneticistas chamam de “deserto arcaico”, ou seja, praticamente não possui DNA neandertal. (As mulheres têm dois cromossomos X, enquanto os homens têm apenas um, além de um cromossomo Y.)Veja dinossauros e descobertas arqueológicas de 2026 Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 1 de 24 Descobertas 2026 (1) - Nova pesquisa aponta que Tyrannosaurus rex (T.rex) leva cerca de 35 anos para atingir o tamanho máximo, com até oito toneladas • ROGER HARRIS/SPL - Getty Images Trocar imagemTrocar imagem 2 de 24 Descobertas 2026 (2) - Através de restos no intestino de um filhote de lobo siberiano, de 14 mil anos, cientistas encontraram vestígios de uma "refeição" que permitiram sequenciar o genoma do rinoceronte-lanudo, da era glacial • Mietje Germonpré Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 3 de 24 Descobertas 2026 (3) - Cerâmica Halafiana de uma escavação em Arpachiyah, Iraque. Imagens de plantas pintadas em cerâmica feitas há até 8.000 anos podem ser o exemplo mais antigo do pensamento matemático humano • Yosef Garfinkel Trocar imagemTrocar imagem Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 4 de 24 Descobertas 2026 (4) - Cientistas analisam múmia de guepardo com cerca de 2 mil anos que foi encontrada em cavernas no norte da Arábia Saudita. A descoberta permitiu coletar o DNA do animal • Communications Earth and Environment/Ahamed Boug/Divulgação Trocar imagemTrocar imagem 5 de 24 Descobertas 2026 (5) - Pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências Sociais encontraram fossas de 3.000 anos com restos mortais de grandes felinos, que sugerem a existência de um "zoológico" antigo na China • Chinese Academy of Social Sciences Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 6 de 24 Descobertas 2026 (6) - O contorno de uma mão feita com pigmento vermelho na parede de uma caverna na Indonésia, há pelo menos 67.800 anos, pode ser a arte rupestre mais antiga do mundo, segundo um novo estudo Universidade Griffith. • Maxime Aubert/Griffith University Trocar imagemTrocar imagem Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 7 de 24 Descobertas 2026 (7) - Estudo arqueológico em obras antigas mostra práticas incomuns de tratamento durante a Renascença: uma delas era esfregar fezes humanas na cabeça para tentar reverter a calvície • Instituto de Pesquisa e Biblioteca John Rylands/Universidade de Manchester Trocar imagemTrocar imagem 8 de 24 Descobertas 2026 (8) - Piscinas monumentais, um santuário possivelmente dedicado ao culto de Hércules e dois túmulos da época republicana foram descobertos durante escavações arqueológicas preventivas em Roma. • Superintendência Especial do Ministério da Cultura de Roma Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 9 de 24 Descobertas 2026 (9) - A zooarqueóloga do Museu Arqueológico Nacional da Academia Búlgara de Ciências, Stella Nikolova, encontrou dezenas de esqueletos de cães com marcas de cortes na Bulgária. A descoberta releva que pessoas comiam carne canina há 2,5 mil anos • Stella Nikolova / BNSF Trocar imagemTrocar imagem Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 10 de 24 Descobertas 2026 (10) - Pesquisadores descobriram em uma pedreira no sul da China, uma coleção de fósseis com cerca de 512 milhões de anos. A descoberta contém 153 espécies, de 16 grupos diferentes, pelo menos 59% dos novos animais são de origem desconhecidas e, não eram catalogados por seres humanos até o momento • Han Zeng Trocar imagemTrocar imagem 11 de 24 Descobertas 2026 (11) - Um grupo de paleontólogos da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) publicou um estudo sobre a descoberta de uma nova espécie réptil a partir de um fóssil de 240 milhões de anos. O fóssil de crânio de apenas 9,5 milímetros, encontrado no município de Novo Cabrais, interior do RS, revelou uma nova espécie de pararéptil. Os paleontólogos a nomearam de Sauropia macrorhinus • Ilustração de Caetano Soares/UFM Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 12 de 24 Descobertas 2026 (12) - Uma nova espécie de anfíbio do Período Jurássico — que recebeu o nome científico Nabia civiscientrix — foi identificada na região da Lourinhã, em Portugal. Os pequenos fósseis foram descobertos em uma investigação do paleontólogo Alexandre Guillaume. O estudo foi publicado no Journal of Systematic Palaeontology. • Ilustração de Eva Carret Trocar imagemTrocar imagem Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 13 de 24 Descobertas 2026 (13) - Arqueólogos descobriram uma tumba zapoteca de 1.400 anos no sul do México, adornada com entalhes complexos, que foi considerada "a descoberta arqueológica mais significativa da última década". Acredita-se que uma escultura da cabeça de um homem dentro do bico de uma coruja represente o indivíduo sepultado no túmulo • Divulgação / Luis Gerardo Peña Torres INAH Trocar imagemTrocar imagem 14 de 24 Descobertas 2026 (14) - Pesquisadores encontraram o esqueleto de uma pessoa da Idade da Pedra enterrada há 12.000 anos em uma caverna na Itália. Segundo o estudo, o esqueleto era de uma adolescente com uma forma rara de nanismo. • Adrian Daly Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 15 de 24 Descobertas 2026 (15) - Arqueólogos que trabalhavam perto de Cambridge, na Inglaterra, descobriram uma vala cheia de esqueletos, com cerca de 1.200 anos, que revelam mortes de forma violenta • David Matzliach/Unidade Arqueológica de Cambridge Trocar imagemTrocar imagem Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 16 de 24 Descobertas 2026 (16) - Um dinossauro minúsculo e herbívoro descoberto no norte da Espanha pode mudar a compreensão dos cientistas sobre a evolução dos dinossauros que se alimentavam de plantas. A nova espécie — batizada de Foskeia pelendonum — viveu há cerca de 120 milhões de anos, durante o início do Cretáceo, e media pouco mais de meio metro de comprimento • Martina Charnell Trocar imagemTrocar imagem 17 de 24 Descobertas 2026 (17) - Pesquisadores na Turquia descobriram evidências físicas de que os romanos utilizavam fezes humanas em tratamentos médicos, de acordo com um estudo publicado no Journal of Archaeological Science: Reports. • Cenker Atila Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 18 de 24 Descobertas 2026 (18) - Cientistas desenterraram, na província canadense da Nova Escócia, o crânio de uma criatura que viveu há cerca de 307 milhões de anos. O animal é considerado um dos vertebrados terrestres herbívoros mais antigos já conhecidos e representa um momento crucial na evolução da vida animal em terra firme. A criatura, chamada Tyrannoroter heberti, possuía um crânio de formato levemente triangular • Reprodução/Field Museum Trocar imagemTrocar imagem Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 19 de 24 Descobertas 2026 (19) - Escavações revelaram a existência de um cemitério destinado para abrigar indigentes em Le Mans, no noroeste da França. A descoberta foi feita após análise de um mapa da cidade datado de 1736 • Inrap Trocar imagemTrocar imagem 20 de 24 Descobertas 2026 (20) - Reconstrução artística de um Haolong dongi juvenil do Cretáceo Inferior da China. Cientistas identificaram uma nova espécie de dinossauro que apresenta características nunca antes documentadas. O fóssil, datado de aproximadamente 125 milhões de anos, pertence a um iguanodontiano juvenil excepcionalmente preservado, incluindo partes da pele • Fabio Manucci Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 21 de 24 Descobertas 2026 (21) - Arqueólogos na Espanha descobriram um osso de elefante de 2.200 anos atrás e acreditam que ele pertencia a um animal que serviu como "máquina de guerra" em um exército enviado para invadir a República Romana . • Agustín Lopez Jimenez Trocar imagemTrocar imagem Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 22 de 24 Descobertas 2026 (22) - Um pequeno objeto chamado estatueta Adorante, descoberto em uma caverna na Alemanha em 1979 e produzido há cerca de 40 mil anos por alguns dos primeiros povos a estabelecer uma cultura distinta na Europa, apresenta sequências intrigantes de entalhes e pontos. Numerosos outros objetos produzidos por essa mesma cultura exibem marcas semelhantes. • Foto: Landesmuseum Wuerttemberg/Hendrik Zwietasch/Divulgação via REUTERS Trocar imagemTrocar imagem 23 de 24 Descobertas 2026 (23) - Na imensidão branca do Vale de Taylor, na Antártica Oriental, uma imagem parece ter saído de um filme de ficção científica: um líquido vermelho escuro e espesso escorre pela face imaculada da Geleira Taylor, caindo em direção ao Lago Bonney. Conhecido como "Cachoeiras de Sangue", esse fenômeno visualmente chocante é, na verdade, uma salmoura rica em ferro. • National Science Foundation/USA Trocar imagemTrocar imagemTrocar imagem 24 de 24 Descobertas 2026 (24) - Pesquisadores encontraram na Patagônia um esqueleto bem preservado e quase completo de um dos menores dinossauros conhecidos do mundo, chamado Alnashetri cerropoliciensis. Ele tinha aproximadamente o tamanho de um corvo e provavelmente caçava pequenos animais como lagartos, cobras, mamíferos e invertebrados. • Gabriel Diaz Yantein, Universidad Nacional de Rio Negro/Divulgação via REUTERS Trocar imagemTrocar imagem visualização default visualização full visualização grid“Não é zero no cromossomo X, mas praticamente desapareceu”, disse o principal coautor do estudo, Alexander Platt, pesquisador sênior do departamento de genética da Universidade da Pensilvânia. “E nos últimos 10 anos, tivemos duas linhas de explicação para o que aconteceu.”Talvez, especularam os pesquisadores, os genes do cromossomo X não sejam facilmente transferidos entre espécies, ou as variantes genéticas neandertais no cromossomo X fossem de alguma forma desvantajosas em relação às variantes humanas e, portanto, tenham sido gradualmente eliminadas pelo processo evolutivo de seleção natural. No entanto, as pesquisas mais recentes descartaram esses cenários e sugeriram que uma dinâmica diferente estava em jogo.Quebra-cabeçasO novo estudo, baseado em informações dos genomas de 73 mulheres e três amostras de neandertais do sexo feminino, descobriu que os cromossomos X dos neandertais apresentavam um padrão oposto ao de seus homólogos do Homo sapiens: exibiam um excesso relativo de DNA humano muito além do que seria esperado, mesmo que o DNA humano conferisse benefícios genéticos aos neandertais.Os pesquisadores identificaram DNA humano moderno nos genomas neandertais comparando-os com genomas de mulheres atuais provenientes de populações humanas na África que apresentavam pouco ou nenhum DNA neandertal, facilitando a atribuição de quaisquer sobreposições ao DNA do Homo sapiens, e não ao dos neandertais.A análise demonstrou que o excesso de DNA humano no cromossomo X neandertal poderia ser melhor explicado por uma forte tendência sexual no acasalamento entre os dois grupos, resultando em pouca quantidade de DNA do cromossomo X neandertal entrando no conjunto genético humano. Especificamente, a pesquisa sugeriu que, quando neandertais e humanos se reproduziram, os cruzamentos ocorreram principalmente entre neandertais do sexo masculino e humanas do sexo feminino.“É uma história que envolve quem tem cromossomos X”, disse Platt. “Não herdamos tantos cromossomos X daqueles homens neandertais, e eles receberam um excesso de ancestralidade humana moderna em seus cromossomos X”, explicou.Além disso, após episódios de cruzamento entre os dois grupos, as gerações subsequentes de homens neandertais teriam maior probabilidade de acasalar com mulheres neandertais que possuíssem ancestralidade humana mais moderna, segundo o estudo.Um crânio humano está em exposição junto com a imagem de um homem de Neandertal no Museu de História Natural de Toulouse, na França, em outubro de 2019 • Alain Pitton/NurPhoto/Getty ImagesA explicação mais simples para esse fenômeno, segundo o estudo, foi a “preferência por parceiros”. Em outras palavras, neandertais do sexo masculino, mulheres Homo sapiens e neandertais do sexo feminino com maior ancestralidade humana podem ter sido “mais atraentes e desejáveis como parceiros”, por algum motivo desconhecido, disse Platt. Da mesma forma, ele observou que as mulheres Homo sapiens que encontraram neandertais do sexo masculino podem tê-los considerado parceiros sexuais mais atraentes.Padrões de migração baseados no sexo — o que significa que homens neandertais e mulheres Homo sapiens tinham maior probabilidade de estar no lugar certo na hora certa para se misturarem e terem filhos — também podem ter contribuído, segundo o estudo, mas é improvável que expliquem a descoberta por si só.Questões persistentesOs genomas contêm uma riqueza de informações que os geneticistas podem usar para modelar matematicamente as migrações humanas, os encontros com outras populações e a hereditariedade ao longo de milhares de milênios. No entanto, os estudos de modelagem não conseguem captar as nuances do comportamento no mundo real, o que torna impossível, por enquanto, traçar um panorama mais completo das relações entre neandertais e humanos.“Todos nós adoraríamos poder voltar no tempo e descobrir isso”, disse a coautora do estudo, Sarah Tishkoff, professora universitária David e Lyn Silfen de Genética e Biologia na Universidade da Pensilvânia. “Você pode fazer simulações e modelagens em diferentes cenários e dizer qual se encaixa melhor, mas isso não exclui a possibilidade de várias coisas acontecerem ao mesmo tempo.”Ryan McRae, paleoantropólogo do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, afirmou que os métodos utilizados no estudo foram sólidos e que as descobertas, “superinteressantes”, faziam sentido. Ele observou, no entanto, que seria muito difícil encontrar evidências arqueológicas de como esses cruzamentos ocorreram.“Em um mundo ideal, poderíamos encontrar um sítio arqueológico neandertal com vários homens neandertais e mulheres humanas, mas é improvável que isso aconteça”, disse ele.“Talvez as mulheres humanas tenham se juntado aos grupos neandertais naturalmente, ou talvez tenham sido coagidas. Talvez houvesse algum tipo de comércio envolvido. Inúmeras histórias são possíveis”, acrescentou ele por e-mail.As descobertas não significam necessariamente que os neandertais estavam constantemente abandonando suas próprias fêmeas em favor dos humanos, mas sugerem que “se uma fêmea com alguma ascendência humana estivesse disponível, independentemente de quantas gerações atrás o ancestral humano tivesse vivido, ela seria uma parceira mais desejável”, disse McRae.“Mesmo que encontremos fósseis híbridos de primeira ou segunda geração, saber qual espécie era a de cada progenitor só nos diria algo sobre aquele indivíduo, não sobre toda a população ou o panorama demográfico”, observou ele. “É por isso que esse tipo de estudo é tão importante; ele pode nos informar sobre impactos em uma escala maior do que os fósseis individuais.”Akey, de Princeton, disse por e-mail que o cromossomo X tem uma “história evolutiva singularmente complexa” e acrescentou que é cauteloso ao interpretar as diferenças na ancestralidade neandertal entre o cromossomo X e outros cromossomos como prova desse padrão de acasalamento.“Desvendar a história da humanidade é complexo”, disse Akey, “e muitas forças evolutivas e processos demográficos diferentes podem interagir de maneiras difíceis de distinguir”.