O setor de construção civil tem um alto impacto ambiental, uma vez que depende de materiais como cimento e aço, responsáveis por 18% das emissões globais. Mas, no México, um material de construção de base biológica está surgindo como uma alternativa. É o CORNCRETL, um material desenvolvido principalmente com resíduos de milho.Cultivado no México há milhares de anos, o milho já foi considerado um presente sagrado dos deuses pelas civilizações maias, astecas e incas. Hoje faz parte da identidade do país. Há inclusive um lema em prol da soberania alimentar que diz que “Sin maíz no hay país” (Sem milho não há país).Entre tortillas e tacos, o milho é onipresente na dieta mexicana. A estimativa é que a produção agroindustrial do país gera mais de 74 milhões de toneladas de resíduos de milho por ano. Mas, onde vão parar tantos resíduos? Foi justamente olhando para a cozinha que o chef Jorge Armando, fundador da marca de catering Taco Kween Berlin, decidiu encontrar maneiras de reintegrar os resíduos gerados por sua taqueria. A resposta veio do escritório de design MANUFACTURA, que, com uma equipe liderada pela designer Dinorah Schulte, criou o CORNCRETL durante uma residência artística na Itália.O novo material construtivo combina agregados de calcário, resíduos de milho seco e nejayote reciclado, que é a água residual rica em cálcio proveniente da nixtamalização, isto é, uma técnica ancestral – usada até hoje – onde o milho é cozido e macerado em uma solução alcalina (água com cal). O resíduo líquido, normalmente descartado após a produção de tortillas e tamales, pode poluir rios e correrias se não tratado adequadamente, mas neste caso revelou-se um ingrediente útil para o futuro da construção de baixo carbono. Há estimativas de que o México gera cerca de 14,4 milhões de m³ de nejayote por ano, o que aponta o potencial do novo produto.Foto: Dinorah Schulte/Manufactura“O material combina derivados reciclados de nejayote com calcário e pó de mármore de Carrara, conectando o conhecimento construtivo pré-hispânico do México com as tradições materiais do norte da Itália”,afirmou a designer Dinorah Schult à Fast Company.Resíduos de milho na construção 3DAlém de ser um material de construção de base biológica, o concreto de milho é adequado para impressão 3D robótica – uma tendência crescente no setor. Para isso, os subprodutos são secos, triturados e moídos até atingirem um tamanho de partícula uniforme, antes de serem combinados com agregados minerais e ligantes orgânicos. Leia também: 1.Casa impressa em 3D usa terra ao invés de cimento 2.Com impressão 3D, parque urbano une natureza e inovação O escritório de design se uniu à empresa italiana WASP, especializada em tecnologia de impressão 3D, para aprimorar a mistura e avaliar a escalabilidade para aplicações arquitetônicas. Três painéis de parede foram produzidos para testar tanto a estabilidade estrutural quanto o design geométrico. Com 40 cm, 60 cm e 80 cm de altura, os painéis foram desenvolvidos como componentes potenciais para sistemas habitacionais leves e de baixo custo. As geometrias das paredes demonstram a capacidade do material para padrões, curvaturas e formas não retilíneas.BenefíciosO aproveitamento dos resíduos orgânicos tem um potencial para economia circular ainda pouco explorado. Usar resíduos agrícolas em infraestrutura material traz ganhos econômicos ao país, ao transformar problema em solução.Foto: Dinorah Schulte/ManufacturaSegundo os desenvolvedores, o concreto de resíduos de milho pode reduzir as emissões de carbono em até 70% em comparação com o concreto convencional. Além disso, ainda oferece dois benefícios de desempenho passivo: modera a umidade interna e fecha gradualmente pequenas fissuras superficiais sem intervenção.Foto: Dinorah Schulte/ManufacturaEmbora o concreto de milho esteja apenas na fase de prototipagem, a iniciativa é promissora. A construção à base de cal tem precedentes históricos na Mesoamérica. Conhecidas como Sak-Kaab (“Terra Branca”) na cultura maia, misturas de cal como o sascab eram valorizadas por sua respirabilidade, durabilidade e compatibilidade ambiental. O CORNCRETL, de certa forma, reinterpreta antigos conhecimentos para aplicá-los no mundo contemporâneo.Foto: Dinorah Schulte/ManufacturaFoto: Dinorah Schulte/ManufacturaFoto: Dinorah Schulte/ManufacturaThe post Resíduos de milho viram material de construção appeared first on CicloVivo.