Segundo o relatório AI Is Raising the Stakes in Cybersecurity, mais de metade dos executivos inquiridos (53%) considera as ameaças com IA um risco estratégico. No entanto, apenas 7% das organizações utiliza sistemas de inteligência artificial para se defender. Esta discrepância evidencia não apenas uma lacuna tecnológica, mas também uma falha de liderança e de planeamento estratégico.Ataques mais rápidos, sofisticados e autónomosO estudo sublinha que a IA permite automatizar grande parte da chamada «cadeia de ataque cibernético» — desde a identificação de vulnerabilidades até à execução de ataques altamente personalizados. Phishing hiper-realista, deepfakes em vídeo, clonagem de voz e malware que aprende sozinho deixaram de ser cenários de ficção científica para se tornar realidade quotidiana.Casos recentes ilustram o impacto desta nova era: ataques de ransomware com recurso a IA paralisaram sistemas hospitalares críticos, fraudes multimilionárias simularam executivos em vídeo, e esquemas de clonagem de voz geraram multas regulatórias. Em todos estes exemplos, a velocidade e a sofisticação da IA superaram as respostas tradicionais, evidenciando que o modelo de defesa passiva já não é suficiente.Consciencialização elevada, mas ação limitadaApesar da perceção de risco, muitas empresas continuam a reagir de forma insuficiente. Apenas 5% aumentou significativamente o orçamento de cibersegurança em resposta direta à ameaça da IA, e só um quarto destas considera que as suas ferramentas de defesa baseadas em inteligência artificial são realmente avançadas.A escassez de talento agrava o problema: quase 70% das organizações enfrentam dificuldades em recrutar profissionais qualificados em cibersegurança. A combinação de recursos limitados, maturidade tecnológica insuficiente e défices regulatórios contribui para uma vulnerabilidade estrutural que ameaça negócios, operações e reputações.Defender a IA e defender-se com IAO relatório da BCG alerta que a proteção já não se limita a sistemas tradicionais. À medida que as empresas incorporam inteligência artificial nos seus produtos, operações e processos, os próprios sistemas de IA tornam-se ativos críticos que exigem proteção. Modelos, dados de treino, interfaces de interação e agentes autónomos — todos podem ser alvo de ataques e precisam de camadas de defesa sofisticadas.«Num ambiente onde a defesa reativa já não é viável, não integrar a IA de forma estratégica deixou de ser uma escolha — é um fator crítico de exposição», afirma José Ferreira, Managing Director & Partner da BCG em Portugal. Para ele, a responsabilidade não é apenas técnica: exige ação de liderança ao mais alto nível, coordenando CEOs e CISOs para garantir proteção, investimento e resiliência.A urgência da ação estratégicaO estudo conclui que a questão já não é se os ataques com IA vão continuar a crescer — a resposta é inevitável —, mas sim se as organizações conseguirão evoluir da intenção para a ação. Apenas uma abordagem proativa, integrada e liderada ao nível da gestão de topo permitirá transformar a cibersegurança numa vantagem competitiva, em vez de uma vulnerabilidade permanente.Além disso, há que repensar o conceito de segurança: a proliferação de identidades sintéticas, deepfakes e ataques automatizados exige uma revisão de políticas de autenticação e da arquitetura tecnológica global das organizações. A IA não é apenas uma ameaça, mas também uma ferramenta para defesa e o tempo para a integrar de forma estratégica é limitado.O futuro da cibersegurança na era da IAÀ medida que a IA se torna ubíqua, empresas e instituições enfrentam um dilema crescente: continuar com defesas reativas ou adotar uma postura preventiva e baseada em inteligência artificial. O relatório da BCG é claro: só a integração de IA na proteção de sistemas, na formação de talentos e na tomada de decisões estratégicas pode equilibrar o jogo entre ofensiva e defesa.Para José Ferreira, a mensagem é inequívoca: a velocidade da máquina no ciberespaço deixou de ser uma metáfora. A ofensiva já é superior à defesa tradicional, e cada atraso na ação estratégica representa risco real de perdas financeiras, interrupções operacionais e danos reputacionais difíceis de reparar.O conteúdo Inteligência Artificial acelera ataques cibernéticos e organizações ficam para trás aparece primeiro em Revista Líder.