Credores do Grupo Fictor avançaram sobre o patrimônio pessoal de um dos principais sócios e conseguiram travar valores em processos de herença, ampliando o cerco judicial contra os envolvidos na crise da gestora, investigada por suspeitas de operar um esquema de pirâmide financeira.A nova frente ocorre após decisões recentes da Justiça de São Paulo que passaram a atingir diretamente os bens dos sócios, diante de indícios de irregularidades na captação de recursos e risco de dilapidação patrimonial. Em um dos casos, a Justiça chegou a apontar “fortes indícios de ilicitude” e autorizou o bloqueio de ativos pessoais para preservar recursos de investidores .Agora, o foco avança para a herança de Rubens Nicolau Rubini, pai de Luiz Phillippe Gomes Rubini, um dos nomes ligados à estrutura do grupo.Documentos obtidos pela reportagem mostram que a 44ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo e a 11ª Vara Cível de Santo Amaro determinaram o arresto no rosto dos autos em processos que envolvem os direitos hereditários do sócio. No próprio inventário, há pedido para que “todo e qualquer valor depositado em nome de Luiz Phillippe […] seja transferido” a outro processo judicial .Bloqueios chegam a R$ 400 milEm decisão de 10 de abril, o juiz Guilherme Madeira Dezem determinou a retenção de até R$ 100 mil referentes a valores que venham a ser destinados ao herdeiro, incluindo “adiantamento da herança, partilha ou qualquer outra verba”.A medida busca garantir o pagamento de crédito reconhecido a João Divino Monteiro, autor de ação contra o Grupo Fictor.Poucos dias depois, em 13 de abril, o juiz Carlos Alexandre Aiba Aguemi autorizou novo bloqueio — desta vez de até R$ 300 mil — sobre os mesmos créditos hereditários, a pedido de outro investidor que afirma ter aplicado recursos em contratos de Sociedade em Conta de Participação (SCP).As decisões suspendem qualquer levantamento de valores por parte do herdeiro até o cumprimento integral das ordens judiciais.Do bloqueio de empresas à herançaO avanço sobre a herança marca um novo estágio na atuação do Judiciário no caso Fictor.Inicialmente, as medidas cautelares se concentraram nas empresas do grupo e em suas contas. Com o agravamento da crise e o aumento das ações judiciais, decisões mais recentes passaram a atingir diretamente o patrimônio pessoal dos sócios.O Tribunal de Justiça de São Paulo já reconheceu, em outras decisões, indícios de fraude, confusão patrimonial e risco de esvaziamento de ativos, autorizando bloqueios contra administradores e controladores do grupo .Agora, ao alcançar direitos hereditários, o Judiciário amplia o alcance dessas medidas para ativos que ainda sequer foram efetivamente recebidos, mas que podem servir para garantir o ressarcimento de investidores.“Blindagem patrimonial” na miraPara advogados que atuam no caso, o movimento reflete a dificuldade de recuperação de valores diretamente nas empresas, que já enfrentam recuperação judicial.“O que se vê no caso do Grupo Fictor é uma clara tentativa de blindagem patrimonial. Enquanto as empresas […] não possuem bens suficientes, os sócios mantêm patrimônio pessoal — inclusive direitos hereditários — que precisam ser resguardados aos investidores”, afirmou o advogado Vitor Gomes Rodrigues de Mello.Segundo ele, os pedidos de restituição sob sua representação já superam R$ 7 milhões.Pressão sobre sócios aumentaNa prática, o uso do arresto no rosto dos autos — mecanismo que impede o recebimento de valores em processos judiciais — tende a ganhar espaço como instrumento de credores diante do risco de dissipação patrimonial.O movimento indica que a disputa envolvendo a Fictor começa a ultrapassar as estruturas societárias e financeiras do grupo e avança, de forma crescente, sobre o patrimônio pessoal dos envolvidos.