«Sucesso não é ganhar um campeonato da Europa. É o dia a dia». Tomás Appleton explica o que faz um atleta de topo

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O desporto em Portugal está a ganhar relevância, mas continua a exigir resiliência, consistência e apoio estrutural para que os jovens consigam transformar talento em carreira. Mas o que é determinante para que os desportistas sigam o seu sonho?Tomás Appleton e Duba Barradas exploraram este tema com base em conquistas e histórias pessoais na conversa Viver o Desporto: Sonho, Suor e Futuro. O momento aconteceu no âmbito da conferência Leadership NEXT GEN, na NOVA SBE, no dia 16 de abril, com moderação de Leonor Wicke, Coordenadora Editorial da Líder.«O râguebi moldou-me enquanto pessoa»Appleton confessou que nunca teve grandes expectativas em relação à carreira, mas que tudo começou aos seis anos de idade. «Comecei muito cedo, por causa do meu irmão, e depois as coisas foram acontecendo», recordou.Hoje, diz, não consegue imaginar os seus dias sem râguebi. Para o atleta, os valores e os princípios fazem parte do ADN da modalidade. Além de jogador, é dentista e médico, mas acredita que a resiliência que o define nasceu precisamente no desporto que pratica.O râguebi moldou-me enquanto pessoa, enquanto homem. A forma como lido com a frustração, com as pessoas, com a equipa. Muito disso vem do desporto.Do bairro à elite mundial: «Quis ser diferente»Já Duba Barradas encontrou no muay thai um caminho inesperado. Cresceu no bairro da Cruz Vermelha, em Cascais, num contexto onde o futebol era o desporto preferido, mas foi na luta que se destacou. «No meu bairro jogava-se muito futebol e eu era dos piores», disse, entre risos.O atleta acredita que o desporto foi determinante para mudar o seu percurso de vida e fintar os «caminhos errados» que o ambiente da sua juventude poderia ter-lhe apresentado. «Os desportos de combate ajudaram-me a tirar o melhor de mim e a transformar completamente o meu rumo.» Foi sob essa premissa que fundou o Cascais Fight Center, um projeto de reinserção social e prevenção de comportamentos de risco através dos desportos de combate.Apesar de nunca ter imaginado que poderia viver do desporto, sempre teve uma ambição clara: «Nunca pensei que seria campeão, mas quis sempre ser diferente e marcar pela diferença.» E no seu caminho conquistou o mundial em 2012 e vários europeus. Mas acrescentou que esse caminho não se fez sozinho: «As pessoas que tenho à volta ajudam-me imenso».Descobri na luta o meu caminho e tive a sorte de encontrar o mestre certo.O momento contou com a participação de Pedro Coelho e Francisca Varela, alunos do Cascais Fight Center, que fizeram uma breve demonstração de combate em palco.Talento não chega. «O sucesso é o dia a dia»Para ambos, o talento é importante, mas está longe de ser suficiente. Appleton defende mesmo uma visão pragmática do sucesso: «O talento está lá, mas o mais importante é o que fazemos com ele. Sucesso não é ganhar um campeonato da Europa isoladamente. Sucesso é o dia a dia, é vir treinar às sete da manhã, é controlar todos os fatores da nossa vida», explicou.Duba reforçou a mesma ideia, vendo a consistência como o ingrediente essencial para atingir o topo. «O mais importante é ser persistente, ser teimoso, desbravar caminho. O talento faz diferença, mas o trabalho diário é o que marca o percurso.»Há mais oportunidades no desporto em Portugal, mas ainda insuficientesQuestionados sobre o contexto atual, ambos concordaram que existem hoje mais oportunidades para os jovens. «Acho que o desporto é cada vez mais visto como um pilar fundamental da sociedade», afirmou Appleton. Ainda assim, deixou um alerta: «Há um longo caminho a percorrer. Não sei se Portugal está preparado para tanto profissionalismo desportivo.»Duba apontou também para uma evolução significativa, sobretudo em modalidades menos tradicionais. «Quando comecei, quase ninguém sabia o que era muay thai. Hoje toda a gente conhece», disse. Destacou ainda o papel das autarquias, sobretudo em Cascais: «Aqui, ninguém fica sem treinar por falta de condições. Isso faz toda a diferença.» Novas gerações têm mais talento, mas menos paciênciaOutro ponto convergente foi a análise às novas gerações. Ambos reconheceram que os jovens são hoje mais preparados, mas enfrentam novos desafios. Appleton tem notado uma evolução técnica. «São miúdos muito mais competentes, com performances mais altas.» No entanto, alertou para a impaciência, sublinhando que «há dificuldade em acreditar num processo a longo prazo. Querem resultados imediatos.»Duba não deixou de parte o impacto da tecnologia. «Há muito mais distrações, mais oferta. O desporto tem de ser visto também como uma ferramenta de desenvolvimento pessoal.»Família, escolas e Estado: uma responsabilidade partilhadaPara os dois atletas, o desenvolvimento desportivo não depende de um único fator. A responsabilidade deve ser geral – «das famílias, das escolas, das autarquias e do Estado», como referiu Duba. «O desporto ajuda a educar. A competição ensina-nos a lidar com a derrota, com a frustração, com a vida.»Appleton reforçou o papel da família no seu percurso: «Os meus pais perderam muitos fins de semana para eu jogar râguebi. Hoje dizem que foi a melhor decisão que tomaram.» Ainda assim, apontou desafios estruturais: «Há muitos atletas que acabam por abandonar porque não conseguem conciliar estudos, trabalho e alta competição. É preciso mais apoio.»«Não desistam»: o conselho final para os jovens atletasPersistência foi a tónica da conclusão do debate. Duba resumiu: «Sejam persistentes. Vejam o desporto como algo importante. Só vos fará bem.»Appleton reforçou a ideia com método. «Definam os vossos objetivos cedo e não desistam. Não desistam, não desistam, não desistam.» E deixou um alerta realista: «Há dias horríveis. Mas fazem parte. É isso que vos leva aos dias bons, às vitórias, aos momentos em que provam que todos estavam errados.»O momento findou com o lançamento de três bolas de râguebi assinadas por Tomás Appleton, que foram arremessadas pelos três intervenientes do debate para a audiência de jovens.Tenha acesso à galeria de imagens do evento aqui.Todos os momentos da Leadership Next Gen estão disponíveis na Líder TV e no canal 560 da NOS.O conteúdo «Sucesso não é ganhar um campeonato da Europa. É o dia a dia». Tomás Appleton explica o que faz um atleta de topo aparece primeiro em Revista Líder.