Selic ‘absurda’ de 15% expõe desarranjo entre BC e Governo, diz ex-diretor, Luiz Fernando Figueiredo

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https://youtu.be/GATIMSaxaI8Juros próximos de 15% ao ano são um nível “absurdo” para o Brasil e refletem um desalinhamento entre as políticas econômica e fiscal do país. A avaliação é de Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), que afirma que o trabalho da autoridade monetária tem sido prejudicado por uma política fiscal expansionista que caminha na direção oposta ao esforço de controle da inflação.“O juro absurdo que o Brasil paga, um juro pornográfico de 15%, é a consequência desse desajuste de política. Você tem políticas andando claramente na direção contrária”, disse.Em entrevista ao programa Money Minds, do Money Times, Figueiredo diz que o BC tenta esfriar a economia para reduzir pressões inflacionárias, enquanto o governo segue estimulando a demanda com aumento de gastos. “O problema do Banco Central é que tem um sujeito do outro lado da Esplanada que não para de gastar e tem uma política mega expansionista.”Na prática, segundo ele, isso força a autoridade monetária a manter juros elevados por mais tempo. O ex-diretor da autarquia compara o cenário a um carro que precisa reduzir a velocidade antes de uma curva: enquanto o BC freia, a política fiscal acelera.Para melhorar o cenário econômico e permitir juros mais baixos de forma sustentável, ele defende maior disciplina nas contas públicas. Figueiredo criticou a rigidez orçamentária, o que torna pequena a capacidade de realizar mudanças relevantes. Na avaliação dele, em vez de enfrentar esse problema estrutural, o governo amplia a arrecadação para acomodar novas despesas. “É preciso ter alguma liberdade orçamentária.”Trajetória de queda da Selic está em risco?Para Figueiredo, a guerra entre Estados Unidos e Irã não compromete a trajetória de queda da Selic inicialmente esperada, embora possa influenciar o ritmo dos cortes. “Eu tenho poucas dúvidas de que o Banco Central vai fazer uma próxima redução”, disse.Ele explica que a questão geopolítica adiciona um grau elevado de incerteza ao ambiente econômico, especialmente por causa das oscilações no preço do petróleo. “Quando se fala em incerteza, o valor não é calculável. O petróleo saiu de US$ 70 para US$ 100, mas poderia ir para US$ 200. E US$ 100 e US$ 200 são cenários muito diferentes.”Nesse contexto, o ex-diretor afirma que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve reagir aos dados conforme eles aparecem, e não se antecipar a cenários incertos. “Quando há uma situação de incerteza,o Banco Central deve reagir a ela, e não se antecipar a ela”, afirmou. Figueiredo avaliou que a Selic segue bastante restritiva e que, mesmo diante do conflito externo, não parece ser o caso de interromper o ciclo de redução de juros. “A política monetária no Brasil está apertada demais. E, com o nível de incerteza que temos hoje, não me parece que seja o caso de deixar de reduzir a taxa de juros”, disse.Ainda assim, ele ponderou que o cenário pode exigir maior cautela nas próximas decisões. “Quando há uma incerteza tão grande, talvez ir com um passo mais lento seja melhor, mais calmo”, afirmou. Segundo o ex-BC, se o petróleo permanecer próximo de níveis mais baixos, seria possível cortar os juros em 0,50 ponto percentual na próxima reunião. No entanto, caso a commodity continue em patamares elevados, a autoridade monetária pode optar por reduções mais graduais.E a inflação?A guerra no Oriente Médio também adiciona incerteza ao comportamento da inflação. Ainda assim, Figueiredo avalia que o impacto tende a ser temporário caso o conflito não se prolongue. Para ele, o choque nos preços de energia pode gerar um “soluço” inflacionário, mas não necessariamente um efeito persistente.Esse, no entanto, não é o consenso do mercado. O Boletim Focus mostra que a projeção dos economistas ouvidos pelo BC é de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) feche este ano em 4,71%, acima do teto da meta — de 3% com intervalo de tolerância de 1,50 ponto percentual para cima ou para baixo.Figueiredo, por outro lado, considera prematuro afirmar que a inflação brasileira terminará 2026 maior que 4,50%. Segundo ele, grande parte dessa avaliação depende da trajetória do petróleo nos próximos meses.