O ser humano tem um histórico de se sentir especial e até superior aos outros animais. Essa percepção se dá por algumas exclusividades evolutivas descobertas ao longo dos anos: o clássico polegar opositor de alta precisão, a autoconsciência, o cérebro maior e mais complexo, além de tudo que foi construído e desenvolvido por nós. Essas características podem até nos tornar especiais, mas não necessariamente mais importantes que outras espécies.Estamos acostumados a ouvir que a flora e a fauna precisam de equilíbrio para se manter e que esse equilíbrio depende de milhões de seres vivos ao redor do planeta. Ainda assim, tantos seres seguem ameaçados de extinção por nossa causa. Será que realmente somos tão mais interessantes assim? A série Segredos das Abelhas tem a capacidade de nos tirar da nossa própria perspectiva e apresentar o mundo desses seres muito mais complexos do que imaginamos.O Minha Série entrevistou Bertie Gregory, apresentador e explorador da National Geographic; Dr. Sammy Ramsey, entomólogo e também explorador; e John Brown, biólogo e diretor de fotografia da produção. Confira abaixo alguns destaques da entrevista.Abelhas são tão carismáticas quanto qualquer outro animalEm Segredos das Abelhas, acompanhamos até as abelhas brincando. Foto: reprodução YouTube/National Geographic.A série Secrets of (Segredos de, em português) já está em sua quinta temporada. Antes, a produção retratou animais de maior porte, e essa é a primeira vez em que o foco está em criaturas tão pequenas. A questão é que, muitas vezes, insetos não são exatamente os favoritos do público. Até o próprio Bertie Gregory também se questionou no início:“Nós já tínhamos abordado muitos animais grandes e carismáticos com a série Secrets of, desde baleias até elefantes e pinguins. As abelhas podem parecer uma mudança um pouco inesperada, uma espécie de virada. Acho que muitas pessoas questionariam — inclusive eu mesmo — se elas realmente seriam tão carismáticas e cheias de personalidade quanto os animais anteriores."A tecnologia utilizada para capturar as imagens foi uma das grandes responsáveis pela mudança de percepção de Gregory:“Quando você chega ao nível delas e usa tecnologia especial, especialistas e técnicas incríveis de filmagem de campo, percebe que as abelhas têm tanto carisma quanto qualquer outro animal. E há tanto drama em um pequeno campo de flores quanto em uma savana africana com leões, leopardos e guepardos", complementou.“Essas abelhas não estão aqui para causar problemas para você. Elas não estão aqui para te machucar.”O meu próprio medo de abelhas começou a mudar por conta da série. Logo nos primeiros episódios, é possível vê-las brincando e também resolvendo desafios propostos em laboratório. O nível de consciência delas impressiona. O especialista Dr. Sammy Ramsey compreendeu bem essa reação:“Ver uma abelha decidir que, mesmo tendo a opção de conseguir comida, escolher brincar com uma bolinha por um tempo muda a forma como pensamos sobre esses organismos. E muda a forma como pensamos sobre muitas dessas categorias que tentamos reservar apenas para nós. Precisamos expandir nosso pensamento e reconhecer que não somos únicos e não estamos separados da natureza.”John Brown, diretor de fotografia do projeto, também defende a escolha das abelhas para essa temporada:“Insetos podem ser até mais interessantes. Animais grandes, como predadores, muitas vezes são mais ‘simples’ em termos de comportamento. Já insetos sociais, como abelhas e formigas, têm dinâmicas muito mais complexas", expressou Brown.Os próprios especialistas se surpreenderamMesmo especialistas que estudam insetos há anos foram surpreendidos durante o projeto. Sammy Ramsey teve a chance de compartilhar curiosidades até com um explorador experiente como Bertie Gregory:“Uma das coisas que eu gostei de contar ao Bertie foi que, no primeiro dia de vida de uma abelha, ela não consegue ferroar nem voar. Ela é como um filhotinho curioso, andando por aí, explorando tudo. É uma experiência muito fofa trabalhar com uma abelha de um dia de vida. Elas aprendem ao longo da vida: aprendem a voar, aprendem a usar o ferrão para defender a colônia e quando usá-lo”, contou Ramsey.Ainda assim, nem ele deixou de aprender coisas novas durante o projeto:“Eu tenho estudado como as abelhas se protegem há muito tempo, especialmente diferentes espécies asiáticas. Já vimos coisas muito interessantes, como elas gerarem uma bola de calor que usam para ‘cozinhar’ seus atacantes, como vespas. Mas algo que eu não esperava ver foi elas utilizando partes do ambiente ao redor como ferramentas para se livrar do cheiro que essas vespas usam para marcar uma colônia para ataque. Ver elas pegando folhas, triturando e fazendo uma pasta, e depois espalhando isso sobre os feromônios das vespas foi inacreditável”, completou o especialista.Mesmo criando abelhas há anos, John Brown também foi surpreendido pelo mesmo fato:“Um dos momentos mais marcantes foi o conflito entre vespas gigantes e abelhas japonesas. Existe um comportamento raro em que as abelhas coletam partes de plantas aromáticas — folhas, pétalas — e usam isso para remover o cheiro deixado pelas vespas, que marca a colmeia para ataque. Conseguir filmar isso foi incrível. É bonito, raro e revela muito sobre as abelhas", disse o diretor de fotografa.Flores se parecem com arranha-céusCom a nova tecnologia, conseguimos ver o mundo pela perspectiva das abelhas. Foto: divulgação/Walt Disney Company/National GeographicOs três especialistas entrevistados foram motivados por um mesmo desafio: mostrar coisas que o público ainda não conhece. Nesse sentido, John Brown destaca que trabalhar com insetos pode ser até uma vantagem.“Como cineasta, é até mais fácil surpreender o público com insetos, porque eles são menos conhecidos. E o impacto pode ser ainda maior — muitas vezes você realmente muda a forma como as pessoas enxergam esses animais”, disse Brown.Bertie Gregory também ressaltou a importância da tecnologia utilizada nas filmagens. O uso das probe lens permitiu mostrar o mundo a partir da perspectiva das abelhas:“Ela permite chegar muito perto, mas mantendo o ambiente ao redor em foco. Então você vê a abelha de perto, mas também dentro do seu mundo. Flores que, na realidade, têm poucos centímetros de altura, passam a parecer arranha-céus — porque é assim que elas parecem para a abelha”, revelou Gregory.Bertie ainda disse que eles tiveram o privilégio de filmar um comportamento muito específico pela primeira vez.“Existe uma espécie chamada mamangava-de-cauda-amarela. Ela precisa sacudir a flor com muita força para liberar o pólen. O que filmamos pela primeira vez foi que, depois disso, ela regurgita uma pequena gota de néctar e usa isso para ‘colar’ o pólen no corpo enquanto está no ar. É simplesmente impressionante”, concluiu.Brown, mesmo tendo contato com abelhas há anos, finalmente teve a confirmação de algo que já suspeitava: cada uma tem sua própria personalidade.“Hoje sabemos que abelhas têm personalidades diferentes. Dentro de uma mesma colmeia, algumas são mais curiosas, outras mais cautelosas, algumas mais interessadas em resolver problemas, enquanto outras simplesmente ignoram esses desafios”, revelou Brown.Abelhas não atacam como você imaginaQuem nunca teve medo de levar uma picada de abelha? Os especialistas garantem que essa não é uma prática tão comum quanto pensamos e que, na maioria das vezes, esses insetos são apenas curiosos.Sammy Ramsey explica:“As pessoas não entendem por que elas pousam no cabelo ou aparecem em um piquenique e pensam que isso é agressividade. Mas muitas vezes elas estão apenas confusas, atraídas por cheiros que lembram flores. “Essas abelhas não estão aqui para causar problemas para você. Elas não estão aqui para te machucar.”Bertie Gregory complementa com um alerta importante:“As abelhas têm fama de ferroar, mas não querem fazer isso. É um último recurso. E, independentemente de você gostar delas ou não, precisa se importar — porque um terço da nossa comida depende da polinização feita por elas. Se perdermos as abelhas, teremos problemas sérios.”O Segredo das Abelhas tem seus episódios lançados semanalmente no Disney+.