A cada nova rodada de pesquisas, Lula não se conforma com seus altos índices de reprovação. Eles ameaçam o projeto de reeleição por seguir estagnados em nível alto, a despeito de indicadores positivos da gestão do petista, como a taxa de desemprego mais baixa da série histórica e o crescimento da renda média. Depois de discutir o assunto com assessores e aliados, o presidente chegou à seguinte conclusão: o mau humor dos eleitores está relacionado ao endividamento recorde. Com um número enorme de famílias sem condições de pagar suas contas do mês, os bons números da economia parecem cada vez mais distantes da vida real. Disposto a virar o jogo a tempo, em novo capítulo da série de medidas populistas colocadas em prática de olho no pleito de outubro, o governo planeja lançar agora um pacote emergencial para aliviar o bolso de quem não consegue sair do vermelho. Em uma das versões, a engenharia financeira em estudo no Palácio do Planalto inclui o uso de parte dos recursos do FGTS para essa finalidade. Evidentemente, como toda medida eleitoreira, a iniciativa é pensada para resolver apenas os problemas de curto prazo (incluindo os de Lula nas eleições deste ano), mas não enfrenta as causas reais da questão.O endividamento, de fato, virou uma enorme bola de neve nos últimos anos. A soma dos valores devidos pelas pessoas físicas no Brasil se aproxima de 4,5 trilhões de reais, tendo disparado 40% desde a posse de Lula, em janeiro de 2023, segundo o Banco Central. Já o número de cidadãos inadimplentes, ou seja, com dívidas em atraso, saltou de 70 milhões para quase 82 milhões ao longo do mesmo período. Uma pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira 15, confirma que o crescente endividamento está contribuindo para piorar a percepção da população em relação à economia. A proporção daqueles que afirmam que a situação se agravou subiu de 48% para 50%. A elevação do custo de vida, principalmente dos alimentos, é o principal vetor para esse sentimento. Sete em cada dez brasileiros avaliam que seu poder de compra piorou nos últimos doze meses. O aumento de 7 pontos percentuais na proporção de entrevistados que afirmam ter alguma dívida também pesa. “A população percebeu um esgotamento do modelo econômico adotado por Lula, o que se reflete em uma perda de credibilidade como alguém capaz de resolver problemas como esse, do alto endividamento”, diz o consultor político Gaudêncio Torquato.Integrantes do governo tentam empurrar a culpa pela piora da situação financeira da população para longe do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios. “São duas coisas: a questão das bets e a questão dos juros”, disse a ex-ministra Gleisi Hoffmann. Os sites de apostas, cuja regulamentação foi sancionada pelo próprio Lula, representam mesmo um fator novo no orçamento de muitas famílias. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e da FIA Business School divulgado no mês passado, as bets se tornaram a principal razão do endividamento das famílias brasileiras, seguida pelos juros altos. No início deste mês, ao ser questionado sobre o assunto, Lula aproveitou a deixa: “Se depender de mim, a gente fecha as bets”.No caso dos juros, porém, de forma conveniente, o governo omite que a taxa Selic está tão elevada, em 14,75% ao ano, justamente por causa de sua política econômica e que há mais de três anos se recusa a promover um corte nos gastos públicos — o que tem feito crescer também o endividamento da União. A falta de um ajuste fiscal, em última instância, contribui para tornar as dívidas pessoais, sobre as quais incidem os juros, cada vez mais impagáveis. A responsabilidade do governo sobre a situação se torna evidente numa comparação do Brasil com outros países emergentes. No México e na Turquia, por exemplo, as dívidas das famílias representam, respectivamente, 17% e 10% do Produto Interno Bruto. No Brasil, essa proporção chega a impressionantes 35%. “O endividamento recorde é resultado de uma tempestade perfeita”, diz Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito. “Parte das causas é antiga, mas estamos em um momento crítico.”INFLAÇÃO - Clientes em supermercado de São Paulo: sete em cada dez brasileiros dizem ter perdido o poder de compra (aga Almeida/UCG/UIG/Getty Images)Entre as nuvens dessa tempestade, além dos juros e das bets, estão a precariedade do emprego, a digitalização das finanças e do acesso ao crédito (com o surgimento de fintechs com ofertas sedutoras que podem ser contratadas do sofá de casa) e o aumento do custo de vida. A inflação, que ficou bem acima do centro da meta de 3% perseguida pelo Banco Central nos três anos de governo Lula, ajuda a corroer a renda. Some-se a isso o fato de que 29% dos ganhos das famílias brasileiras estão comprometidos com dívidas, o maior nível da série histórica do Banco Central, e o resultado é que sobra menos dinheiro para viver. Mesmo aumentos graduais na renda, portanto, acabam não se traduzindo em um sentimento de maior conforto para a população — eles são comidos pelas contas com atraso.Aflito com as pesquisas de opinião, Lula deu o sinal verde para o Ministério da Fazenda desenvolver um novo programa eleitoreiro de renegociação de dívidas. A empreitada sucede ao Desenrola Brasil, lançado em 2023, que, como mostra o número ascendente de inadimplentes, fracassou. Agora, a Fazenda diz que vai priorizar a ajuda a pessoas inadimplentes que ganham até cinco salários mínimos, e o foco será a renegociação de dívidas caras, como as de cartão de crédito, do cheque especial e o crédito pessoal sem garantia. “Essas modalidades, que normalmente estão associadas a um problema orçamentário das famílias, representam um saldo de 224 bilhões de reais em dívidas”, diz Rubens Sardenberg, diretor de regulação prudencial e riscos da Federação Brasileira de Bancos.CONTAS EM ABERTO – O oficial de manutenção Lucas Nakamura, 33 anos, teve o nome negativado por dívidas em cinco cartões de crédito. Um foi quitado após negociação. Dois estão sendo quitados em parcelas: “A escolha é entre pagar os boletos ou as dívidas. Os juros fizeram o valor dos débitos quase dobrar”. (Egberto Nogueira/ímãfotogaleria/.)Além disso, as renegociações do novo programa devem ocorrer diretamente entre os inadimplentes e as instituições credoras, o que pode facilitar a adesão. “Vamos incentivar que seja um desconto amplo, com garantia do governo caso a pessoa volte a atrasar os pagamentos”, disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan, no início de abril. A expectativa do Planalto é de que parte das dívidas vigentes possa ser perdoada em até 90%. O valor restante, garantido por fundos públicos, seria quitado com juros reduzidos. O governo corre contra o tempo para anunciar a medida até o final de abril, com a perspectiva de que as renegociações possam ocorrer ao longo dos três meses seguintes, portanto logo antes do início da campanha eleitoral. “Nosso objetivo é não precisar mais de um programa como esse no futuro, e para isso queremos ampliar a educação financeira da população”, disse a VEJA Regis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda. “O problema do endividamento é quando ele compromete uma parte significativa da renda pessoal.”O Ministério também estuda colocar a mão no FGTS, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, para aliviar as dívidas da população. Uma das alternativas avaliadas pelo ministro Dario Durigan seria liberar 20% dos saldos de quem ganha até cinco salários mínimos para o pagamento de dívidas. A possibilidade já é alvo de críticas. “Ajudar os endividados é importante, mas não se deve fazer isso com um novo ataque ao FGTS”, diz Luiz França, presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).EM ESTUDO – O ministro Dario Durigan, da Fazenda: plano para usar o FGTS (Brenno Carvalho/Agência O Globo/.)O fundo é a principal fonte de recursos para habitações de interesse social no país e, no caso da retirada de 7 bilhões de reais, cerca de 50 000 unidades habitacionais podem deixar de ser construídas, segundo a entidade. O uso do FGTS por governos para aumentar sua popularidade não é nada novo. A Abrainc estima que, nos últimos nove anos, 140 bilhões de reais foram drenados do fundo para turbinar o consumo no país ou quitar dívidas. No governo anterior, do ex-presidente Jair Bolsonaro, o FGTS passou por mudanças profundas, como a criação do saque-aniversário, além da liberação extraordinária de recursos — inclusive durante a eleição presidencial de 2022.No caso do governo Lula, além do descontrole dos gastos públicos, a filosofia de tentar fomentar o crescimento à base do incentivo ao consumo agravou o problema do endividamento. Para quem está com a forca apertando o pescoço no fim do mês, naturalmente, o socorro é bem-vindo. Segundo a pesquisa Quaest, 70% da população é a favor de um novo programa que ajude os endividados. Mesmo se o pacote do governo tiver o efeito eleitoreiro que Lula e o PT esperam, em nada resolverá o problema estrutural do endividamento no Brasil. “A população que for assistida tende a voltar ao mercado de crédito depois”, diz a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.DISTORÇÃO - Fila na Caixa para sacar o FGTS em 2022: uso eleitoral do fundo é recorrente (Rivaldo Gomes/Folhapress/.)Para haver uma reversão na tendência de alta do estoque de dívidas, primeiro os juros precisam cair significativamente. O mercado financeiro estima que a taxa Selic deve encerrar o ano em um nível ainda elevado, de 12,5%. O remédio para reverter o quadro é amplamente conhecido: ajuste fiscal com corte de despesas. Esse passo é descartado em 2026 por causa das eleições que se aproximam, mas quem sair do processo vitorioso e tiver a caneta na mão no período seguinte precisará encarar o problema. Só com o fim do expansionismo fiscal e a redução de estímulos artificiais à economia o BC ficará confortável para aprofundar o corte da Selic e, por consequência, baratear o crédito no país. Não é com solução improvisada, como a que vem sendo gestada agora pelo governo, que as dívidas desaparecerão como num passe de mágica da vida dos brasileiros.Com VejaO post Brasil endividado: novo plano populista de Lula não enfrenta causas reais do problema apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.