WASHINGTON — Os Estados Unidos e Israel lançaram a guerra contra o Irã com o argumento de que, se Teerã um dia conseguisse uma arma nuclear, teria o dissuasor máximo contra ataques futuros.Acabou se revelando que o Irã já tinha um instrumento de dissuasão: sua própria geografia.A decisão de Teerã de exibir seu controle sobre o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz — o gargalo estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo — trouxe dor econômica global na forma de preços mais altos para gasolina, fertilizantes e outros itens essenciais. Também virou de cabeça para baixo o planejamento de guerra em Estados Unidos e Israel, que passaram a ter de desenhar opções militares para tirar o estreito do controle iraniano.Leia tambémCrise em Ormuz e escalada no Líbano minam aposta de Trump em acordo rápido com o IrãFechamento parcial da rota por onde passa 1/5 do petróleo global e ataques cruzados no front libanês expõem limites da diplomacia americana e deixam paz frágilÍndia manifesta “profunda preocupação” com ataque a navios indianos em OrmuzUma das embarcações atacadas foi identificada como Sanmar HeralA campanha militar liderada por EUA e Israel danificou significativamente a estrutura de liderança do Irã, seus navios de guerra maiores e instalações de produção de mísseis, mas fez pouco para restringir a capacidade do país de controlar o estreito.Assim, o Irã pode sair do conflito com um roteiro claro de como seu regime teocrático linha-dura pode manter adversários à distância, independentemente de qualquer restrição ao seu programa nuclear.“Agora todo mundo sabe que, se houver um conflito no futuro, fechar o estreito será a primeira coisa no manual iraniano”, disse Danny Citrinowicz, ex-chefe da divisão Irã da inteligência militar de Israel e hoje pesquisador no Atlantic Council. “Você não consegue vencer a geografia.”Em várias postagens nas redes sociais na sexta-feira, o presidente Donald Trump afirmou que o estreito, que em uma das mensagens ele chamou de “Estreito do Irã”, estava “totalmente aberto” à navegação. O chanceler iraniano fez declaração semelhante. No sábado, porém, a Guarda Revolucionária iraniana disse que a rota continuava fechada, sugerindo uma divisão entre autoridades militares e civis do país durante as negociações para encerrar a guerra.Se por si só a mera ameaça de minas navais já basta para afastar a navegação comercial, o Irã dispõe hoje de meios de controle muito mais precisos: drones de ataque e mísseis de curto alcance. Autoridades militares e de inteligência dos EUA estimam que, após semanas de guerra, o Irã ainda tenha cerca de 40% de seu arsenal de drones de ataque e mais de 60% de seus lançadores de mísseis — mais do que suficiente para fazer do tráfego no Estreito de Ormuz um refém no futuro.Um objetivo central da campanha militar liderada pelos EUA no Irã agora é reabrir o estreito, que estava funcionando normalmente quando a guerra começou. É uma posição delicada para Washington — e seus adversários tomaram nota.“Não está claro como a trégua entre Washington e Teerã vai se desenrolar. Mas uma coisa é certa: o Irã testou suas armas nucleares. Elas se chamam Estreito de Ormuz. Seu potencial é inesgotável”, escreveu nas redes sociais na semana passada Dmitri Medvedev, ex-presidente da Rússia e vice-presidente do Conselho de Segurança do país.O controle iraniano sobre o estreito forçou Trump a anunciar um bloqueio naval próprio e, nesta semana, a Marinha dos EUA passou a direcionar navios cargueiros para portos iranianos depois que eles cruzam a rota.O Irã reagiu com ira, mas também com ironia. “O Estreito de Ormuz não é rede social. Se alguém bloqueia você, você não pode simplesmente bloquear de volta”, escreveu em X (antigo Twitter) um posto diplomático iraniano que vem publicando mensagens sarcásticas ao longo da guerra. A disputa em torno do estreito virou tema de diversos vídeos gerados por IA que retratam autoridades americanas e israelenses como personagens de Lego.Ainda assim, o impacto do bloqueio americano é real. O comércio marítimo responde por cerca de 90% da produção econômica do Irã — aproximadamente US$ 340 milhões por dia —, e esse fluxo praticamente parou nos últimos dias.Pessoas caminham em rua com pôsteres do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, em Isfahan, no Irã. Foto: REUTERS/Alaa Al MarjaniTeerã considera o bloqueio um ato de guerra e já ameaçou atacá-lo. Mas, até agora, não o fez — assim como os Estados Unidos, durante o cessar-fogo em vigor, tampouco tentaram reduzir o controle iraniano sobre o estreito em um cenário de fim do conflito.“Pode ser que os dois países enxerguem uma janela real para negociações e não queiram escalar o conflito agora”, disse o almirante Kevin Donegan, que já comandou a frota da Marinha dos EUA responsável pelo Oriente Médio e hoje está na reserva, durante um seminário realizado nesta semana pelo Middle East Institute.O Irã já havia tentado bloquear o Estreito de Ormuz antes, espalhando minas ali e no Golfo Pérsico durante o conflito com o Iraque nos anos 1980. Mas a guerra de minas é perigosa, e décadas depois Teerã aprendeu a usar mísseis e drones para ameaçar tanto navios de guerra quanto embarcações comerciais.Embora a guerra de EUA e Israel tenha danificado de forma significativa a capacidade do Irã de fabricar armamentos, o país preservou mísseis, lançadores e drones kamikaze suficientes para colocar em risco o tráfego no estreito.Estimativas militares e de inteligência americanas variam, mas várias autoridades afirmam que o Irã mantém cerca de 40% de seu arsenal de drones em relação ao período anterior à guerra. Esses drones se mostraram um dissuasor poderoso. Embora sejam relativamente fáceis de derrubar por navios de guerra dos EUA, petroleiros e cargueiros comerciais têm poucas defesas.O Irã também conta com amplo estoque de mísseis e lançadores. No momento do cessar-fogo, tinha acesso a cerca de metade de seus lançadores. Nos dias que se seguiram, desenterrou cerca de 100 sistemas que estavam escondidos em cavernas e bunkers, elevando seu arsenal de lançadores a algo próximo de 60% do nível de antes da guerra.Teerã também vem recuperando seu estoque de mísseis, igualmente enterrado sob escombros deixados por ataques americanos a bunkers e depósitos. Quando esse trabalho estiver concluído, o Irã pode voltar a ter até 70% de seu arsenal pré-guerra, segundo algumas projeções dos EUA.Autoridades ressaltam que os números sobre o estoque de armas do Irã não são exatos. As avaliações de inteligência oferecem apenas uma visão geral de quanta força o país ainda conserva.Mas, embora as estimativas sobre os mísseis iranianos divirjam, há consenso entre autoridades de que Teerã mantém armamento suficiente para interromper o tráfego marítimo no futuro.O governo iraniano escolheu não bloquear o Estreito de Ormuz em junho passado, quando Israel lançou uma campanha militar — depois engrossada pelos EUA — para atingir instalações nucleares profundamente enterradas.Citrinowicz, o ex-oficial israelense, diz que essa decisão provavelmente reflete a postura cautelosa do então líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, que temia que fechar o estreito levasse outros países a se juntarem à ofensiva contra Teerã.O aiatolá Khamenei foi morto no primeiro dia da guerra atual, numa ação que sinalizou a autoridades iranianas que os objetivos americanos e israelenses neste conflito eram bem mais amplos.“O Irã via a guerra de junho como uma guerra de Israel por seus próprios objetivos estratégicos”, disse Citrinowicz. “Esta é uma guerra de mudança de regime.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Para o Irã, controle do Estreito de Ormuz virou o novo “botão nuclear” appeared first on InfoMoney.