Solução para endividamento é complexa e requer esforço, dizem especialistas

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O endividamento recorde do brasileiro tem mobilizado o governo federal e o SFN (Sistema Financeiro Nacional) a buscar soluções para o cenário.Porém, não há “bala de prata” que resolva as dívidas, que requerem esforço e ações complexas e em diversas frentes, segundo especialistas ouvidos pelo CNN Money.“Nós temos, de fato, um problema estrutural, histórico no Brasil, porque a nossa taxa de juros básica é muito elevada“, afirma Eric Brasil, diretor da LCA.As dívidas das famílias com o Sistema Financeiro Nacional são, em média, quase a metade de suas rendas acumuladas nos últimos doze meses, segundo dados do BC (Banco Central). O patamar do endividamento das famílias é próximo do recorde registrado em 2022.Por parte do setor financeiro, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) afirma que o Ministério da Fazenda mostra “abertura ao diálogo para encontrar as melhores soluções para a sua implementação. Com um desenho adequado e os cuidados necessários, o pacote de renegociação de dívidas será uma boa medida”.E para conter o endividamento, o governo está apostando todas as fichas na carta da liberação do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para pagamento de dívidas em uma nova versão do programa Desenrola.Porém, programas de renegociação de dívida podem funcionar apenas como paliativos, sem atacar o problema de fundo, que é o crescimento contínuo da dívida pública e privada, segundo Jefferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA.Ajuste fiscal está desconectado da política monetária, diz head de macro do ASA | MORNING CALLBittencourt ressalta que a política fiscal do governo está desconectada da política monetária do Banco Central. Ou seja, o governo segue gastando e estimulando crédito em desacordo com o que o BC tenta fazer com a política de juros para conter a inflação.Nesse sentido, a autarquia se vê pressionada a manter taxas elevadas por mais tempo devido o risco fiscal, o que pressiona o orçamento familiar.Oferta de créditoMesmo com as taxas elevadas, o brasileiro seguiu tomando empréstimos, como mostram dados do BC, que indicam recorde de saques por pessoas físicas no mês de dezembro de 2025. Enquanto isso, o número de famílias com renda comprometida para pagar dívidas bateu o maior nível da série histórica em janeiro.Até a metade final de março, a Selic estava no maior patamar em duas décadas. Mesmo com o corte de 0,25 ponto percentual, a política monetária do BC segue restritiva, com a taxa básica de juros do país em 14,75% ao ano.“O endividamento é um efeito esperado da política monetária, […] e parte do endividamento foi fruto do aumento da oferta de crédito”, observou Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, ao CNN Money.Nesse sentido, Eric Brasil questiona que a qualidade das dívidas das famílias é mais grave que o contingente em si.Um estudo da LCA aponta que o principal problema está no crédito rotativo, que é mais acessível e de curto prazo, mas caro. Ele destaca problema está na qualidade desse endividamento, que é extremamente alavancado em crédito de curto prazo com altas taxas de juros.Em termos estruturais, Everton Gonçalves, diretor de Economia, Regulação e Produtos da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), enfatiza que o avanço das linhas de empréstimos de maior risco para as pessoas físicas preocupa.“Nesse cenário, é importante que as instituições financeiras preservem a qualidade das suas concessões de crédito, ajustando o seu apetite de risco às condições do cenário atual”, aponta.A Febraban ressalta que o crescimento do endividamento e da inadimplência está “muito concentrado nas faixas de renda mais baixas e nos produtos de crédito mais arriscados, como crédito pessoal não consignado, cheque especial e cartão”. Leia Mais Projeções e metas fiscais do governo são irreais, dizem economistas Juro alto endivida, trava consumo e faz varejo enfrentar voo de galinha Juro alto e falta de informação levam brasileiro a bola de neve de dívidas Cenário fiscalMesmo que o Banco Central tenha iniciado um ciclo de corte de juros, a expectativa é de que sigam em dois dígitos até 2029, segundo o boletim Focus desta segunda-feira (13), pelo qual o BC apura, semanalmente, a estimativa mediana dos agentes do mercado financeiro. Para o final deste ano, espera-se que a taxa básica fique acima de 12%.“Mesmo que a Selic chegue a 12%, ainda é muito juro. Vai precisar do apoio da política fiscal. Depois da eleição, quem ganhar vai ser convidado a fazer um ajuste fiscal”, pontuou Honorato em palestra na quinta-feira (16).Contudo, o colunista do CNN Money Aod Cunha ressalta que um ajuste mais duradouro passa por cortes efetivos de despesas e, eventualmente, uma nova reforma da previdência com um limite de idade ampliado para novas pensões.“É um debate difícil do ponto de vista popular, do ponto de vista da percepção do público sobre a situação fiscal, que vai ter que ser feito, mas infelizmente eu não vejo nenhum dos candidatos com o apetite para comprar essa discussão no período eleitoral”, observa Cunha.Veja os 5 sinais de que as contas públicas do Brasil estão em risco