Hedge funds de cripto migram para petróleo e ouro em plataformas 24/7

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Por anos, hedge funds de cripto operaram em um mercado que grande parte de Wall Street mal enxergava — negociando tokens 24 horas por dia em plataformas sem sino de fechamento, sem câmara de compensação e sem supervisão regulatória. As estratégias eram exóticas, os retornos, voláteis, e toda a operação rodava em uma infraestrutura que nunca dormia.Essas plataformas estão mais movimentadas do que nunca. A diferença está no que é negociado nelas — cada vez mais, são contratos ligados a petróleo, cobre e Nasdaq 100, não apenas cripto.Leia tambémPetróleo fecha perto da estabilidade com dúvidas sobre guerra e queda nos estoquesO petróleo WTI para maio negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex) fechou em alta de 0,01% (US$ 0,01), a US$ 91,29 o barrilOuro hoje fecha em queda leve com incertezas no Oriente MédioA cotação recuou 0,55% após Trump rejeitar a prorrogação do cessar-fogo e o Fed alertar que o conflito somado às tarifas de importação pressiona a inflação americanaCom o fim dos “lucros fáceis” nas estratégias de moedas virtuais — comprimidos pela competição institucional — gestores agora estão aplicando as mesmas ferramentas e técnicas a ativos tradicionais, onde as ineficiências de preço são grandes e a concorrência ainda é pequena.O estresse geopolítico acelerou essa tendência. Quando as tensões entre EUA, Israel e Irã aumentaram, a negociação de contratos de petróleo nos fins de semana disparou na Hyperliquid — uma entre um punhado de plataformas baseadas em blockchain, ao lado de Ostium e Lighter, originalmente criadas para especulação em cripto, mas que passaram a oferecer contratos atrelados a commodities, índices de ações e mais. Esses mercados funcionam 24/7, liquidam em stablecoins atreladas ao dólar e operam sem uma câmara de compensação tradicional.Nos últimos fins de semana, a Hyperliquid ofereceu uma das primeiras leituras de como os traders estavam precificando o risco de um conflito mais amplo — horas antes da abertura dos mercados convencionais.Na Hyperliquid, contratos ligados a ativos tradicionais responderam por cerca de 30% do volume total em março. Na Ostium, onde o horário de negociação espelha o dos mercados tradicionais, essa fatia superou 90% em boa parte do último ano.Para gestores que construíram seus fundos em torno de mercados cripto “sempre ligados”, a transição exige quase nenhum retrabalho. A “encanagem” é a mesma. A oportunidade, não.Taylor Godwin lançou seu fundo, Alpha EV, em 2022, quando o mercado cripto ainda oferecia várias formas relativamente diretas de ganhar dinheiro. Uma das mais confiáveis era o “basis trade” — comprar Bitcoin à vista e, ao mesmo tempo, vender um contrato futuro a um preço mais alto, embolsando a diferença quando os dois convergiam. Esse spread, que já rendeu taxas anuais de dois dígitos altos, encolheu para 5% ou 6%. Os retornos no lending de stablecoins seguiram caminho parecido, caindo de até 30% para níveis de um dígito baixo.Godwin passou a olhar para outras oportunidades nos mesmos ambientes. Nos últimos meses, a Alpha EV vem conduzindo operações que combinam posições em commodities correlacionadas, buscando lucro na diferença entre elas, e não apenas na direção dos preços.Em uma operação no início deste ano, o fundo montou uma posição vendida em prata combinada com uma posição comprada em cobre, ambas na Hyperliquid. A prata havia disparado para cerca de US$ 114, com traders alavancados se amontoando na ponta compradora — as taxas que esses traders pagam para manter posições long acabaram passando de 250% ao ano, um sinal de operação congestionada. O cobre, que ainda não tinha acompanhado o rali, parecia uma entrada mais barata, em torno de US$ 5,80 a libra. A casa manteve a posição por cerca de uma semana. A maior parte do lucro veio do lado da prata, em que as taxas elevadas fluíram para os traders apostando contra a manada. A operação gerou retornos anualizados de 20% a 30%.“Até agora, alocamos menos de 5% do capital nesse tipo de operação nos últimos dois meses”, disse Godwin. “Isso pode subir para 10% a 20% à medida que o conjunto de oportunidades se aprofunde.”Godwin diz que mantém essas posições pequenas, dada a impossibilidade de usar o mesmo colateral, ao mesmo tempo, em venues on-chain e corretoras tradicionais.​​​​​​​​​​​​​​​​ Ainda assim, o padrão está se espalhando pela indústria. Uma pesquisa da Crypto Insights Group com 51 gestores, que somam mais de US$ 3 bilhões sob gestão, mostrou que um quarto deles espera que a maior parte da nova atividade na Hyperliquid venha de ativos tradicionais, enquanto quase metade projeta uma divisão mais ou menos equilibrada entre trades cripto e não cripto.A lógica é simples: mercados novos são bagunçados. Preços divergem entre venues, negociações de fim de semana se afastam dos níveis de fechamento dos mercados tradicionais, e relações entre ativos correlacionados se rompem quando um deles negocia 24/7 e o outro não. Para traders quantitativos treinados justamente para encontrar e explorar esse tipo de deformação, o cenário é território familiar em uma embalagem diferente.Kacper Szafran, que administra o fundo multimanager M‑Squared, afirma que os retornos confirmam isso. Seu fundo se diversificou para o que ele chama de arbitragem de ativos do “mundo real” — estratégias que exploram diferenças de preço entre venues em blockchain e mercados tradicionais, ou entre ativos correlacionados que, temporariamente, se descolam de sua relação usual. Essas operações vêm gerando em torno de 1% a 3% ao mês, contra cerca de 0,5% nas estratégias cripto tradicionais focadas em tokens.“As abordagens market neutral em cripto ainda estão sob pressão — as taxas de funding e o basis tradicional estão rendendo pouco acima do juro livre de risco”, disse. “Então agora estamos focados essencialmente em novas abordagens neutras que giram em torno de arbitragem de ativos do mundo real.”Nikita Fadeev, managing partner do hedge fund de cripto Fasanara Digital, vê o segmento como incipiente, mas em rápido crescimento. Seu fundo roda estratégias neutras entre produtos de ouro tokenizado e contratos perpétuos atrelados ao ouro, explorando distorções que podem ser surpreendentemente amplas em venues como Binance e OKX.A maior restrição, ele acrescenta, é que a arbitragem entre plataformas cripto e mercados tradicionais como a CME ainda é difícil — “temos uma perna da operação, mas a outra ainda falta”, disse Fadeev.Na Waves Digital Assets, Rajiv Sawhney e sua equipe vêm perseguindo uma tese semelhante — focando em operações de spread entre commodities correlacionadas, como apostar que o diferencial de preço entre dois tipos de petróleo vai se alargar ou se estreitar, em vez de tentar acertar a direção isolada de um único ativo. A convicção é tamanha que a gestora está montando um veículo dedicado a essa estratégia.“Estamos em processo de lançar um fundo de special situations dedicado para buscar esse tipo de oportunidade”, disse Sawhney, chefe de gestão de portfólio internacional.Investidores de varejo vêm seguindo o mesmo movimento, migrando de tokens cripto para commodities e apostas macro nessas plataformas — aprofundando a liquidez de que os gestores institucionais dependem, mas também elevando o risco de que as ineficiências que eles exploram não durem para sempre.O valor de mercado de ativos do mundo real tokenizados (RWAs) cresceu cerca de 360% desde 2025, para US$ 26,5 bilhões, segundo a rwa.xyz — ainda uma fração dos trilhões nos mercados tradicionais, mas já grande o suficiente para atrair capital relevante.“RWAs são uma expansão natural para nós porque é para lá que tanto a liquidez quanto o capital institucional estão migrando”, disse William Purdy, diretor de desenvolvimento de negócios da Monarq Asset Management.A oportunidade, porém, vem com ressalvas. Essas plataformas não são reguladas da mesma forma que as bolsas de commodities tradicionais. A liquidez, embora crescente, ainda é apenas uma fração do que os mercados convencionais movimentam. Estratégias alavancadas podem ser liquidadas se os price feeds divergirem dos valores efetivos de mercado.“Mesmo que você tenha um oráculo trazendo o preço do mundo real para a blockchain, ainda assim enfrenta o risco de gap quando o ativo subjacente é reprecificado”, disse Ruchir Gupta, cofundador da Gyld Finance. Gupta acrescenta que a própria tokenização carece de padronização e de trilhos bem definidos. Em caso de hack, por exemplo, tokens podem ser criados do nada, derrubando preços e disparando liquidações forçadas para traders alavancados.Mas, para os gestores que estão entrando, é justamente aí que reside a oportunidade. Em mercados maduros, ineficiências são rapidamente corrigidas. Em mercados novos, elas persistem — ao menos por algum tempo.A ironia é evidente. Essas casas construíram sua operação para negociar ativos digitais em infraestrutura de blockchain. As operações mais lucrativas nessa infraestrutura, hoje, estão em algumas das classes de ativos mais antigas do mundo. Os fundos cripto não estão abandonando a tecnologia — estão descobrindo que talvez o melhor uso dela seja negociar coisas que existem muito antes do próprio cripto.© 2026 Bloomberg L.P.The post Hedge funds de cripto migram para petróleo e ouro em plataformas 24/7 appeared first on InfoMoney.