Entre o terminal rodoviário de Sete Rios e o Bairro do Rego, Carlos Guerreiro tem a porta aberta. Dentro da loja, o aroma das folhas de papel enche o ar e as paredes exibem uma miríade de trabalhos saídos das suas mãos: capas de livros ornamentadas com desenhos, texturas com vida – veludos, peles de animais raros. Das vitrinas vai tirando livros de grossa lombada que exibe com os dedos curtidos pelo couro. É um dos últimos encadernadores e restauradores da cidade, um ofício quase extinto. «Estou aqui desde outubro. A senhoria no Bairro Alto explicou-me que precisava de espaço.» Foi por essa razão que se candidatou a uma renda acessível depois de mais de 40 anos no mesmo lugar. Ainda assim, «demorou» até que a Câmara lhe cedesse e arranjasse um novo local para trabalhar. Naquela sala convivem muitas ferramentas com o homem dos livros. Prensas, guilhotinas, trituradoras, um tesourão pesado que corta sem hesitar. Peças de latão, peças de aço, folhas de ouro. Máquinas que ele próprio montou, umas nacionais, outras importadas da Alemanha. As mãos contam a história: marcas, cortes, dedos entalados. As dores fazem parte da labuta, da contenda constante de quem dá o corpo ao manifesto. A oficina de Carlos lembra-nos que ainda há ofícios que só respiram graças à mestria das mãos. Adoro livros e o que faço. Restaurar, encadernar, é uma coisa singular. É único. Tal e qual um carro que montamos sozinhos. É diferente dos que vêm de fábrica, em série. É como aqui. Isto é tudo personalizado.Desmantelar, limpar, coser, colar, bater, colocar, cortar, afixar: longa é a lista de verbos que compõem a encadernação, cuidadosamente anotados numa folha, mas que os dedos de Carlos conhecem de cor. Pelo caminho, outros verbos perderam-se. Mas o ofício não nasceu só do talento. Houve aprendizagem. Começou o ofício da encadernação e do restauro em 1972, em Caxias, contrariando o que diz a sua cédula profissional que lhe roubou dois meses de laboro, e não conheceu outro trabalho que não este. Antes de herdar a sua oficina no Bairro Alto, foi na Torre do Tombo que ganhou tarimba durante duas décadas. O método transformou-se em prática diária. No restauro não há pressa. O segredo é precisamente «fazer as coisas com amor e carinho», sublinha. Respeitar cada etapa. É uma arte que tem muito que se lhe diga e só com a prática se desenvolvem atributos. «Estou sempre a aprender», diz. A inteligência artificial é tema distante para Carlos Guerreiro, mas reconhece que a mecanização ajuda a simplificar alguns processos. Todavia, a minúcia de certos cortes, improvisar uma folha, acertar um detalhe, essa parte continua a ser da alma. «Isto requer muita dedicação e criatividade.» E basta olhar em volta para perceber. Mostra com orgulho livros feitos de algas marítimas, outros revestidos a pele de bisonte. Capas vermelho-coração, losangos desenhados que fazem imaginar o que estará guardado no interior. É, no fundo, um guardador de histórias. Alguém que as recupera, preserva e devolve. Devolve vida. Sobre o futuro da profissão, encolhe os ombros, mas ainda há sinais de esperança. Para lhe seguir o ofício, há quem mostre interesse, mas falta tempo dos aprendizes e dinheiro do mestre. «No outro dia apareceu-me aqui uma miúda que queria aprender. Disse-lhe que sim, pois claro, mas não tenho condições para lhe pagar.» Para ensinar, porém, nada cobra. Na sua lista de clientes há nomes de peso, como José Avillez e Gambrinus, mas o que o distingue não são os contactos, e sim a forma como cada livro sai das suas mãos com alma própria. Entre resmas de papel e capas esverdeadas, Carlos Guerra mostra que leva o cérebro até à ponta dos dedos, imprimindo dedicação e mestria em cada detalhe. O reconhecimento não vem de publicidade, mas do boca a boca, da clientela que regressa e espalha o trabalho a amigos e conhecidos. E quando lhe perguntam que conselho deixaria às novas gerações, sorri com simplicidade: «Leiam livros. Para não estragarem a vista.» IA está a quebrar padrões, mas quem decide são os humanos Há quem já considere a IA em tudo semelhante à Revolução Industrial. Mas, para Hugo Castro Silva, Professor Auxiliar do Departamento de Engenharia e Gestão do Instituto Superior Técnico, ainda é cedo para perceber se atingirá a dimensão das revoluções anteriores. «O que distingue esta transformação das revoluções tecnológicas passadas é não ser uma mudança tecnológica skill-biased», esclarece. Ou seja, anteriormente, a tecnologia tendia a substituir apenas funções mais manuais ou menos qualificadas, enquanto criava mais procura e emprego para perfis técnicos, especializados e com maior formação. Mas o que vemos com o advento da IA é que há perfis altamente qualificados que podem estar em risco, dependendo da situação, como é o caso da contabilidade, análise de dados ou programação. «Para os humanos se manterem no círculo, o que sobra para nós é a decisão. Fazer um julgamento perante a informação que a IA nos dá», garante. Estes perfis inserem-se nas ‘profissões em ascensão’, cerca de 22,5% do emprego em Portugal. Regra geral, estes trabalhos caracterizam-se por serem os mais beneficiados pela digitalização, tais como professores do ensino básico e educadores de infância, especialistas em vendas, marketing e finanças. Estão na ponta diametralmente oposta das ‘profissões em colapso’, que representam 28,9% da força de trabalho do país, que inclui empregados de mesa e de bar, operadores de equipamentos móveis e cozinheiros, cujos empregos estão seriamente ameaçados pela automação e pela IA, correndo até risco de extinção. Estes dados constam do estudo Automação e inteligência artificial no mercado de trabalho português: desafios e oportunidades, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que traça um mapa do impacto da revolução tecnológica no mercado nacional. Castro Silva é uma das mentes encarregues da investigação, que explica ainda que a maior fatia do emprego em Portugal (35,7%) é composta por profissões que não poderão ser substituídas pela automação, mas também não irão beneficiar da digitalização. Trabalhadores de limpeza em casas particulares, escritórios e hotéis, técnicos de atividade física, agricultores e pescadores integram a lista destes ofícios. São chamadas profissões do ‘terreno dos humanos’, que não correm o risco de substituição pelo seu cariz relacional e físico. Hugo Castro Silva acredita que estas profissões continuarão a ser necessárias, sem significar necessariamente melhores salários ou maior valorização social. Além disso, continuam também estagnados em termos de rendimento, especialmente se houver muita oferta de mão de obra disponível para os desempenhar. Para garantir que estes ofícios sobrevivem e evoluem, Hugo Castro Silva sublinha a importância da requalificação contínua, uma responsabilidade partilhada entre Estado e empresas. Enquanto o Estado deve atuar em currículos, formação profissional e certificação, as empresas têm de investir na atualização dos seus trabalhadores, preservando conhecimento tácito e abrindo novas funções para quem domina os processos. «É fácil desvalorizar o conhecimento adquirido, e podem perder-se competências muito específicas», alerta. Em Portugal, a estrutura laboral ainda favorece estas profissões, retardando o impacto imediato da automação. Mas essa proteção traz limites: a adoção tecnológica lenta impede ganhos de produtividade e inovação, e muitas organizações utilizam ferramentas como o ChatGPT de forma superficial, sem integrar o seu verdadeiro valor. Para Castro Silva, a capacitação humana é decisiva: sem ela, o potencial da tecnologia permanece desperdiçado. Na sua perspetiva, mesmo que os modelos de linguagem deixassem hoje de evoluir, poderíamos assistir a aumentos de produtividade durante bastante tempo, simplesmente porque as pessoas ainda estão a aprender a usá-los. O verdadeiro potencial pode não estar apenas em automatizar tarefas simples, mas em apoiar decisões estratégicas, inovação e desenvolvimento de novos produtos. «O verdadeiro valor virá quando o gestor de topo se servir da IA para fazer a discussão estratégica com este parceiro digital, que é aparentemente um expert», diz. Algoritmos, previsão de doença e menos burocracia: como a tecnologia pode mudar a medicina A inteligência artificial começa a ganhar espaço nos hospitais portugueses. Acelera diagnósticos, antecipa agravamentos clínicos e reorganiza o funcionamento do sistema de saúde. Para Pedro Correia Azevedo, Presidente do Conselho de Administração da ULS Almada-Seixal, essa transformação já está em curso. «A inteligência artificial tem um papel importante naquilo que é ajudar-nos a diagnosticar mais depressa», explica. «Mas vai além disso: ajuda-nos também a melhorar os circuitos dos exames e os percursos de diagnóstico e tratamento dos doentes.» Apesar da crescente presença da tecnologia, o médico sublinha um limite claro: a medicina continua a depender da relação humana. «Há algo que é impossível de substituir: a relação entre o profissional de saúde e o doente», afirma. «Essa proximidade, sobretudo quando falamos de doença, é praticamente insubstituível. Mas pode ser apoiada por ferramentas de inteligência artificial.». Pedro Correia Azevedo, Presidente do Conselho de Administração da ULS Almada-Seixal.Uma das maiores promessas da IA na medicina está na capacidade de previsão. Ao analisar dados clínicos, histórico médico e evolução de doenças, os algoritmos identificam sinais precoces antes de se tornarem evidentes. «Podemos intervir antes da doença estar instalada», explica o líder do Hospital Garcia de Orta. Mais do que aumentar a esperança de vida, «é sobretudo a qualidade de vida que está em causa». Na análise de imagem, sistemas de apoio em radiologia e neurorradiologia detectam alterações subtis, importantes em oncologia, permitindo diagnósticos precoces. «Permitem-nos encontrar alterações que poderiam passar despercebidas ou ser observadas com menor acuidade diagnóstica», diz o médico. Uma das preocupações mais frequentes associadas à inteligência artificial é o risco de erros de diagnóstico. Pedro Correia Azevedo lembra que o erro sempre fez parte da prática médica. «Antes da inteligência artificial já existia erro», afirma. Esses erros podem resultar de vários fatores: informação clínica incompleta, limitações técnicas ou simplesmente falhas humanas. O desafio, diz, não é eliminar totalmente o erro – algo impossível – mas garantir que a tecnologia não aumenta essa probabilidade. «Temos de testar os algoritmos e validar os métodos antes de os aplicar.» Outro campo onde a tecnologia está a ser aplicada prende-se com a gestão de doentes que recorrem repetidamente aos serviços de urgência, os chamados ‘high users’. No Hospital Garcia de Orta, um grupo multidisciplinar dedicado a este problema trabalha há cerca de uma década. O objetivo é perceber porque é que algumas pessoas recorrem repetidamente às urgências e encontrar soluções antes que isso aconteça. «Percebemos que há um grupo de doentes que consome muitos episódios de urgência», explica Pedro Correia Azevedo. Mas as razões raramente são apenas clínicas. «Cerca de 70% dos determinantes da saúde estão relacionados com fatores sociais», sublinha. Problemas económicos, familiares ou sociais podem estar na origem de muitos episódios hospitalares. Investigadores da NOVA School of Science and Technology desenvolveram um algoritmo capaz de prever quais os doentes com maior probabilidade deste constante regresso, permitindo intervir antes. «Podemos chamar essas pessoas mais cedo aos cuidados de saúde primários ou encontrar soluções na comunidade», explica o médico. Ainda assim, a velocidade da inovação tecnológica levanta outro problema: a regulação. Pedro Correia Azevedo considera que as regras atuais ainda estão longe de acompanhar o ritmo da inovação. «Não, de todo», responde quando questionado sobre se as diretivas europeias são suficientes. «Tem de haver validação e regulação», defende, sublinhando que as entidades reguladoras terão de acompanhar de perto a introdução destas tecnologias para garantir segurança clínica e evitar vieses algorítmicos. Angiotomografia cerebral com análise assistida por inteligência artificial. Permite identificar rapidamente lesões isquémicas e outras alterações críticas. Aproveitar, desburocratizar e ter os pés assentes na terra Pedro Correia Azevedo rejeita a ideia de que a inteligência artificial venha substituir médicos ou enfermeiros. «Vejo isto como ferramentas complementares, não de substituição», afirma. Admite, contudo, que a tecnologia pode transformar a forma de trabalhar. «Estas ferramentas vão facilitar muitos processos.» Na realidade, um dos impactos mais imediatos da inteligência artificial poderá surgir fora do ato clínico. «Há muito trabalho burocrático que fazemos e que pode ser apoiado por estas ferramentas», diz. A IA pode ajudar em diversas áreas, como gestão hospitalar, processos logísticos ou organização de dados clínicos. «O objetivo seria libertar tempo para aquilo que realmente importa: o contacto direto com os doentes.» Ainda assim, como acontece em qualquer transformação profunda, a introdução destas tecnologias enfrenta resistência. «Há um nível de segurança que a presença física traz, que a distância não tem.» Por isso, a transformação terá de ser gradual. «Isto não se faz por decreto.» Além disso, a inteligência artificial não representa necessariamente uma redução imediata de custos. «Há um custo de implementação elevado e um custo de manutenção», explica o médico. A introdução de novas tecnologias exige também formação contínua dos profissionais. «Há uma verdadeira revolução tecnológica que exige novos conhecimentos.» A cirurgia robótica ilustra bem essa transformação, embora a sua implementação implique investimento significativo e uma longa curva de aprendizagem. «Há custos com equipamentos, consumíveis e formação», explica Pedro Correia Azevedo. «Mas a pergunta é: faz sentido implementar? Faz.» Sem esse investimento, diz, «a medicina simplesmente deixaria de evoluir». Agricultura também se escreve com IA Elizaveta Baranova, 27 anos, é engenheira aeroespacial de formação, mas foi no setor agrícola que encontrou uma oportunidade de negócio. Nasceu na Rússia e viveu na Suíça e Estados Unidos antes de se fixar em Portugal, onde identificou um problema durante visitas a vinhas. Ao observar a quantidade de resíduos deixados após as vindimas (o mosto), questionou-se sobre o seu potencial valor. A partir daí, iniciou um processo de investigação, apoiado desde o início por ferramentas de Inteligência Artificial, que a ajudaram a analisar literatura científica e a explorar soluções viáveis do ponto de vista técnico e económico. Cofundou a AGROPHENOLS, uma startup dedicada à transformação de resíduos agrícolas e alimentares em produtos como ingredientes para o setor nutracêutico, cosmético e soluções para o solo (como biocarvão), através de um modelo circular e sustentável. Segundo a fundadora, a tecnologia permitiu que profissionais mais experientes aumentassem a produtividade e autonomia. Por outro lado, identificou uma clivagem clara entre os que aprendem e os que resistem. «Quem se adapta ganha confiança e torna-se mais eficiente; quem resiste fica para trás», resume. Elizaveta Baranova, Cofundadora da AGROPHENOLS.O impacto é particularmente visível na área de investigação e desenvolvimento. A equipa utiliza ferramentas de IA para agilizar a pesquisa científica, analisar literatura e apoiar o desenho teórico. Estes sistemas permitem identificar rapidamente dados relevantes, estruturar protocolos e alinhar os projetos com o estado da arte. Além disso, a IA ajuda a organizar informação, sintetizar dados e destacar hipóteses-chave, bem como a mapear relações entre parâmetros de processamento e respostas biológicas. «Em vez de fazermos 150 amostras, podemos fazer 15 e o resto é gerado com apoio da IA». Ainda assim, sublinha que todos os resultados são «validados pela equipa humana, garantindo rigor científico e consistência». Esta relação entre humanos e tecnologia é indissociável, sobretudo em contextos científicos. «Uma não pode existir sem a outra». E reconhece que a aprendizagem é contínua, incluindo para si própria. «Aprendo sobre IA todos os dias», admite. Porém, no setor agrícola o impacto da IA acontece a outra velocidade. Elizaveta acredita que a tecnologia terá um papel relevante sobretudo nas áreas operacionais e de gestão, mas dificilmente substituirá o trabalho humano no terreno. «É um setor muito dependente de máquinas e de pessoas», explica. E é na robótica que prevê um impacto mais direto no futuro, que acaba por ser uma área indissociável da IA. No horizonte, estendem-se projetos como desenvolver um sistema modular para produção de biocarvão diretamente nas explorações agrícolas, com operação parcialmente automatizada e controlo remoto. O objetivo central é reduzir a necessidade de intervenção humana nas tarefas operacionais e aumentar a eficiência dos processos. «Queremos chegar a um modelo em que uma pessoa consiga supervisionar vários sistemas ao mesmo tempo», explica. Grandes navios e covos sem nada lá dentro A primavera chegou com sol e na baía de Cascais já são centenas de pessoas a ir a banhos. Talvez seja bom para o turismo, para o comércio, para os táxis e TVDE, mas Paulo Pina, pescador há 25 anos, tem as suas reservas: «O mar está ácido, há cada vez menos peixe». No cais dos aprestos veste-se no módulo 14, com vista larga para o Estoril. O mar ali, porém, não tem nada de postal turístico. À superfície, junto do cais, flutuam toalhitas, plásticos, pedaços de roupa. «As redes apanham mais toalhitas do que peixe», diz, apontando para a água turva. A atribuição é direta: a poluição e as descargas de águas residuais, que agregam Cascais e partes do concelho de Sintra. Projetos de limpeza subaquática realizados na baía de Cascais já retiraram várias toneladas de lixo do fundo do mar, desde pneus a redes de pesca abandonadas, um retrato da pressão que o litoral sofre com resíduos urbanos. Paulo Pina, pescador, recolhe os covos que lançou ao mar na baía de Cascais.Equipa-se com uma camisola azul desbotada, galochas laranjas já gastas pelo sal e pelo tempo. Há entusiasmo no gesto e nas mãos endurecidas de quem faz do mar a vida. «O mar tem sido generoso comigo, mas ultimamente está mais difícil.» Desce até a um pequeno bote, o Vaivém, e rema cerca de cem metros até à embarcação maior que lhe sustenta os dias. Sete metros e meio de alumínio e um motor Honda levam-no ao mar no Rei – o nome do barco. Vai mais vezes no inverno do que no verão, e as milhas acumuladas já dariam para um livro inteiro. «O barco está a precisar de manutenção», admite, sem rodeios. O maior troféu da carreira? «Uma corvina de 40 quilos.» Mas reconhece que os tempos são outros. Para a faina de hoje leva três baldes. Num deles estão cerca de 20 quilos de cavala que lhe custaram 25 euros – isco para os covos, armadilhas destinadas sobretudo ao polvo, robalo e a crustáceos como santolas ou sapateiras. O ponto onde os deixou no dia anterior não é fixo. «É mais empírico que científico, mas raramente é o mesmo.» Quase sempre sai sozinho, de madrugada, pelo peixe e um modo de vida. «Levanto-me às cinco da manhã, saio de casa num instante, bebo um café numa bomba de gasolina e venho para aqui. Ainda antes de amanhecer já estou no mar.» Quando o barco avança, a espuma das ondas salta para dentro da borda. Salga o cabelo, o corpo, a roupa. O horizonte abre-se e o silêncio instala-se. É uma solidão estranha, mas reconfortante. Com a jardineira impermeável já colada ao corpo, chega a hora de puxar os covos. Um vem vazio. Outro também. Depois mais um. Pequenos caranguejos, iscos de robalo demasiado miúdos para vender, passeiam pelo convés. Os covos são artesanais, feitos à mão com malha ou fio, às vezes com vegetação recolhida no local ou materiais reciclados. Os nós apertados contam a história de um ofício antigo. Um alador de pratos ajuda a puxar mais um covo. E mais outro. Ao todo são 60. Depois de vinte, ainda nada. Às vezes a faina é assim. Enquanto iça cada armadilha, corta metade de uma cavala e coloca-a no compartimento próprio do covo. Fecha-o, mede o gesto, guarda-o para mais tarde lançá-lo ao mar, sempre alinhado a partir da lateral do barco. Tudo com as mãos. Finalmente surge um polvo. «Mas é pequeno», observa, pesando-o com o olhar. Se não chegar às 750 gramas, volta para o fundo. É a regra. Paulo Pina queixa-se das chuvas fortes: as cheias e a descarga dos rios para o estuário do Tejo trazem mais poluição e pesticidas para o mar. Outro problema são as florestas de laminarias, habitat marinho vital, agora quase desaparecidas. «Só a partir do Cabo da Roca ainda se encontram algumas», diz, esperançoso de que a ciência possa ajudar a recuperar espécies e ecossistemas. Os seus receios encontram respaldo em estudos: microplásticos foram detectados em cavala, carapau, mexilhão ou lambujinha ao longo da costa portuguesa. No estuário do Tejo, os sedimentos revelam dezenas de milhares de fibras plásticas por metro quadrado, capazes de entrar na cadeia alimentar. A baía de Cascais é monitorizada desde 2005 pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que acompanha plâncton e temperatura da água. Nos últimos anos, imagens de satélite, sensores remotos e inteligência artificial permitem observar o oceano em detalhe. Algoritmos cruzam dados de temperatura, correntes e plâncton para prever fenómenos que afetam a pesca, enquanto plataformas como o Global Fishing Watch identificam práticas ilegais e pesca predatória. Paulo Pina aproveita o Windguru para saber do vento, mas deixa uma crítica à pesca industrial de grandes navios, que capturam toneladas de peixe de uma só vez. Em contraste, mantém a pesca seletiva: licença local, covos espalhados entre o Bugio e a Ericeira, cada armadilha lançada e cada polvo avaliado com cuidado. As gaivotas acompanham-no a poucos metros, atraídas pelo rasto das cavalas. Com 60 anos, mas aparentando menos, encontra energia na generosidade do mar. Ao fundo, a falésia da Boca do Inferno acena. «Gosto disto. Não me imagino a fazer outra coisa», repete, quase como um mantra. Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo Homens e máquinas: onde cabe a tecnologia no terreno dos humanos? aparece primeiro em Revista Líder.