Vivemos numa era acelerada onde o tempo nunca chega para tudo e a gestão diária é uma tarefa árdua. Entre as multitarefas da vida, temos sempre a atenção centrada nas redes sociais. Neste turbilhão, estamos a perder a capacidade de simplificar o dia-a-dia para viver devagar. Estar em silêncio é quase impossível. Parar, calar e desligar, são botões do teclado da vida que não usamos, com medo de “perdermos” algo importante, ficarmos sós e experimentarmos o vazio. O testemunho da vida monástica pode dar-nos algumas boas pistas para desacelerar. 1. Estar na vida sem se deixar engolir pelo mundoA Igreja cristã, desde o início, encontra em Jesus a fonte da vida. O silêncio é parte da rotina de Jesus, não uma inactividade, mas diálogo com o Pai, onde afere os critérios da missão de compaixão e se fortalece nas adversidades. Jesus incarna na realidade, imerso no mundo, mas sem ser só do mundo. Com a “paz de Constantino” (1), a Igreja ganha espaço na esfera pública, torna-se uma instituição credível e profética no meio da realidade onde habita. Mas percebe que corre o risco de se diluir se perde a sua autenticidade. Inserida numa sociedade em transformação, vê alguns dos seus membros escolherem como vocação uma vida longe dos centros urbanos. São os chamados Padres do Deserto, que inauguram no deserto do Egipto do século IV um novo modo de vida que pratica a ascese, a luta espiritual e a caridade como bússola que orienta o peregrinar rumo à vida eterna com o coração centrado no essencial. Hoje, podemos aprender muito com este modo de vida. A era digital encurtou distâncias, a qualidade de vida aumentou, mas nem sempre somos felizes. Cada um tem de ter os seus “desertos”, lugares onde se lê a vida em perspectiva, onde se contempla a beleza contida nas coisas simples, tirando proveito do bom e aprendendo com as dificuldades.Estamos na vida imersos no nosso mundo, mas não nos podemos deixar engolir por ele. 2. Fugir, silenciar e descansarA máxima dos “Padres do Deserto” era: fuga, silêncio e descanso. Fugir, não se entende no sentido material da palavra como fuga do medo das tentações, mas no seu sentido espiritual de evitar o que impede a piedade e a união mais profunda com Deus. Silenciar, significa calar os ruídos da agitação quotidiana e os estímulos sensoriais que desordenam a liberdade. Descansar, é o exercício de apaziguamento do interior de si mesmo, dos vícios e das preocupações para alcançar a pureza de coração. Não se pretende com isto deixar de ser humano, sem a fragilidade de pecar, mas adquirir uma ciência espiritual que discerne e lê a vida com os olhos de Deus. É útil fugir do ruído de vez em quando, desligando o telemóvel, tirando um tempo para um passeio ao ar livre a contemplar as cores que a Natureza nos oferece; ou ler um bom livro que abre a imaginação. Na solidão ouve-se a voz que brota do silêncio e fala ao coração. Chega-se, então, a um estado de pacificação que fortalece e capacita a discernir as opções a tomar para se viver mais inteiro. Deixa-se de viver pelo temor, para viver no amor; não mais pela desconfiança, mas na esperança; não pelo castigo das penas eternas, mas na certeza de sermos, em Jesus, filhos muito amados. 3. Recuperar a essência da vida simplesUm exemplo da concretização na Igreja da vida dos “Padres do Deserto” está na Ordem da Cartuxa. Fundada por São Bruno em 1084 é, ainda hoje, uma das ordens religiosas de clausura mais austeras, mantendo um espírito de pobreza e solidão inalterado ao longo dos séculos. Tem como lema: «Stat crux dum volvitur orbis» (2). O mundo gira. Este é o mundo onde o consumismo não para, a informação se torna excessiva, a tecnologia substitui o ser humano e as modas estão sempre a mudar. Na sua complexidade, o silêncio é um exercício de desapego, de reduzir o movimento desenfreado do consumismo digital e material. Mas a Cruz permanece. O essencial da vida tem de permanecer inalterável. É a fé, a esperança e o amor. Na vida cartusiana, a Cruz é a âncora da vida contemplativa, símbolo da entrega da vida de Jesus que torna a vocação inabalável em Deus. Na solidão, no silêncio e na austeridade, os Cartuxos ensinam-nos a relativizar o que, afinal, não nos traz a felicidade. No silêncio ouvimos a «Cruz», a vida doada por amor, e não apenas o «Mundo» que faz barulho. Ao desacelerar, descobrimos a presença de Jesus ressuscitado entre nós e aprendemos a investir o tempo numa vida mais simples, mas completa. 1. Com o Édito de Milão, em 313, o imperador Constantino aplica uma política de tolerância para com a Igreja no Império Romano. Pondo-se fim às perseguições a que os cristãos eram sujeitos, tornam-se livres para professarem publicamente a sua crença em Jesus ressuscitado, nomeadamente através das celebrações litúrgicas, das pregações e das obras de caridade. Será mais tarde, com o Édito de Tessalónica, promulgado pelo imperador Teodósio I em 380, que o cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano. 2. «A Cruz permanece em pé enquanto o mundo gira». Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo A vida no silêncio monástico aparece primeiro em Revista Líder.