O presidente Luiz Inácio Lula da Silva terminou 2025 com mais vitórias do que derrotas no campo da diplomacia. Entre elas o líder brasileiro conquistou uma “química excelente” com o líder norte-americano, Donald Trump, e conteve uma recente crise com a Ucrânia de Volodymyr Zelensky.No entanto, o ano de 2026 começou com um novo desafio diplomático para Lula, após o ataque militar dos Estados Unidos contra Venezuela, nesse sábado (3/1), que resultou na captura e prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.Ano diplomático de LulaEm 2025, Lula enfrentou diversos desafios diplomáticos, que envolveram de forma direta, ou indireta, questões econômicas e conflitos mundiais.O maior deles foi a guerra tarifária contra o Brasil, imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.Além disso, Lula também viveu crises com a Ucrânia e Israel, por conta de posicionamentos sobre as guerras enfrentadas pelos dois países.Janela de oportunidades em Nova YorkSetembro foi um mês de reconciliações para o presidente brasileiro, que àquela altura lidava com ofensiva econômica e retaliações dos Estados Unidos contra o Brasil e autoridades do país. Mas foi justamente no país liderado por Donald Trump que Lula manteve reuniões que colocaram panos quentes nas relações com Washington, como também com Kiev. Leia também São PauloMagnitsky: Lula diz que suspensão foi “presente” de Trump a Moraes MundoLula e Zelensky selam a paz entre eles após reunião na ONU BrasilLula comemora fim da guerra em Gaza e critica Netanyahu MundoEntenda os bastidores da crise diplomática entre Brasil e Israel Durante os dias em que ficou em Nova York para a 80ª Assembleia Geral da ONU, o líder brasileiro manteve uma série de reuniões com diversos chefes de Estado. Entre eles Zelensky, com quem não se encontrava pessoalmente desde 2023.Em meio ao encontro, a relação entre Brasil e Ucrânia vivia momentos de turbulência. Isso porque Kiev enxergou alguns movimentos de Lula, como a participação no 80º aniversário do Dia da Vitória em Moscou, como posicionamentos pró-Rússia. O caso fez com que Zelensky recusasse ao menos duas tentativas de ligações telefônicas do líder brasileiro, e também não indicasse um substituto para o ex-embaixador ucraniano no Brasil Andrii Melnyk.Maiores detalhes da reunião não se tornaram públicos. Zelensky, porém, agradeceu a “boa conversa” com Lula, assim como o “posicionamento claro” do presidente brasileiro sobre um cessar-fogo na guerra da Ucrânia.3 imagensFechar modal.1 de 3Lula e Zelensky em 2024Ricardo Stuckert/PR2 de 3Lula e ZelenskyRicardo Stuckert/PR3 de 3Lula, Zelensky e suas equipes durante reunião em 2023Ricardo Stuckert/PRRecuo norte-americanoAinda durante o evento da ONU, o presidente brasileiro também manteve um breve, e inesperado, encontro com Donald Trump. Nos bastidores da assembleia, os dois se viram por alguns segundos, de acordo com o presidente dos EUA. O suficiente para, nas palavras do republicano, sentir uma “excelente química” com Lula.Mesmo que de forma informal, o contato abriu brechas para que uma reunião entre os dois líderes começasse a ser articulada.O primeiro deles ocorreu 13 dias após o encontro em Nova York, quando Lula e Trump conversaram por telefone.Uma reunião bilateral entre os dois foi agendada, então, para a cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), na Malásia. Durante cerca de 45 minutos, os dois líderes discutiram questões relacionadas à tensão entre Brasil e EUA, em especial ao tarifaço norte-americano contra produtos brasileiros.A suspensão de sanções contra autoridades nacionais, como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), também entrou na pauta.A partir do contato entre os dois presidentes, negociações passaram a acontecer por vias diplomáticas. O que incluiram contatos entre o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.Mesmo que de forma indireta, as negociações tiveram frutos positivos em 14 de novembro. À época, a Casa Branca anunciou o recuo da tarifa recíproca de 10%, que atingia diretamente setores como café, carne bovina e frutas brasileiras. Seis dias depois, Trump também decidiu retirar a tarifa extra de 40% que ainda atingia setores importantes da economia brasileira.Em 12 de dezembro, Washington fez uma nova sinalização positiva ao Brasil, após novo telefonema entre Lula e Trump.Apesar do recuo na guerra econômica, autoridades brasileiras, ligadas à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, ainda eram alvos de retaliações dos EUA. O mais afetado pela medida era o ministro Alexandre de Moraes.Tudo mudou em 12 de dezembro, quando o Departamento do Tesouro norte-americano decidiu retirar Moraes, e a esposa, Viviane Barci, da lista de sancionados pela Lei Magnitsky. Ação que foi tomada, segundo a chanceleria dos EUA, após a aprovação do PL da Dosimetria na Câmara dos Deputados.Tensão com IsraelNo início do ano, um dos principais problemas nas relações diplomáticas dizia respeito a Israel, onde Lula é persona non grata desde 2024.Desde quando assumiu a presidência do Brasil pela terceira vez, em 2022, Lula tem sido um crítico do conflito, e passou a fazer duras críticas às ações israelenses no enclave palestino após o aumento da violência em Gaza.Com isso, os posicionamentos do líder brasileiro, que chegou a chamar a ofensiva de Israel de “genocídio”, foram classificados pelo governo de Benjamin Netanyahu como pró-Hamas — e algumas vezes antissemitas.Em julho, por exemplo, o governo brasileiro oficializou a entrada do país na ação judicial que corre na Corte Internacional de Justiça (CIJ), acusando Israel de genocídio contra palestinos. Um apoio classificado como “falha moral” pela chancelaria israelense.Toda a crise, que se arrastava desde o início de 2024, teve reflexos diretos na diplomacia entre Brasília e Tel Aviv. Por meses, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil deixou sem resposta o pedido de Israel para enviar um novo embaixador ao país, após a aposentadoria do diplomata Daniel Zonshine, que chefiava a missão diplomática.Como resposta, a chancelaria israelense decidiu retirar a solicitação, e rebaixar, automaticamente, as relações com o país comandado por Lula.No apagar das luzesDiscutido há mais de 25 anos, o acordo comercial entre União Europeia (UE) e Mercosul era um dos principais da política externa do governo brasileiro neste ano — o mesmo em que assumiu a presidência rotatória da organização.As negociações sobre o pacto comercial, que visa eliminar tarifas no comércio entre países dos dois blocos, foram encerradas no fim de 2024. Para entrar em vigor, contudo, o acordo necessitava passar por votações na União Europeia.O governo Lula, assim como nações europeias que apoiam o pacto, esperavam que o acordo fosse assinado até o fim de 2025. A assinatura, porém, foi adiada para 2026 após resistências de alguns países como França de Emmanuel Macron, com quem o presidente brasileiro mantém relação próxima. De acordo com governantes europeus, o recuo foi motivado por preocupações quanto aos termos do acordo entre UE e Mercosul, que poderiam colocar em risco o agronegócio de países do bloco.O próximo desafio de LulaO ataque militar dos Estados Unidos contra a Venezuela pode reascender a tensão entre os governos de Lula e Trump. Em declaração nesse sábado (3/1), o presidente brasileiro condenou a intervenção no país vizinho.“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, afirmou Lula.Ele acrescentou ainda que, “atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”.“A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões. A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”, destacou Lula.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou, por meio da rede Truth Social, os ataques ao território venezuelano e a captura do presidente Maduro.