“May you live in interesting times” — suposta praga chinesaNão era este o texto que gostaríamos de escrever como o primeiro do ano. No entanto, é essa a realidade que se impõe: iniciamos o ano com mais um evento de grande relevância geopolítica.Escrevemos imediatamente após os acontecimentos e, por isso, o que pode ser afirmado de forma definitiva ainda é limitado. Ainda assim, alguns fatos parecem estar fora de dúvida. O governo norte-americano conduziu uma operação que resultou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa. Até o momento, as acusações divulgadas referem-se ao tráfico internacional de drogas.Há precedentes para esse tipo de ação? Sim, embora nenhum com características exatamente idênticas. O caso mais próximo é a invasão do Panamá, em 1989, que removeu do poder o ditador Manuel Noriega, posteriormente levado aos Estados Unidos, julgado e condenado a 40 anos de prisão. Portanto, embora rara, a ação atual não é inédita.A questão central, porém, diz menos respeito ao passado e muito mais ao futuro: o que vem a seguir? A partir daqui, entramos no terreno da especulação. Quem governa a Venezuela agora? O presidente norte-americano afirma que os Estados Unidos exercerão controle temporário até a realização de eleições para um novo governo. Em contrapartida, a vice-presidente venezuelana declara que o país resistirá a qualquer tentativa de controle externo.Aqui surge o primeiro grande problema. Do ponto de vista americano, declarar que exercerá o controle é a parte simples. Para que esse controle se concretize, seria necessária alguma forma de ocupação militar — o que os próprios americanos chamam de boots on the ground. Já do lado venezuelano, resistir significaria enfrentar a força militar mais poderosa do planeta, e, talvez mais relevante, fazê-lo sem apoio popular significativo.No horizonte, devem surgir questionamentos institucionais relevantes, especialmente sobre a capacidade do presidente norte-americano de conduzir ações militares ofensivas sem aprovação do Congresso — algo que, segundo nosso entendimento, seria inconstitucional. Esse debate, no entanto, pertence ao futuro.No momento, nosso objetivo não é emitir juízos morais sobre se os fins justificam os meios, mas sim analisar os possíveis impactos econômicos e de mercado.Na verdade, o governo americano parece ter copiado as páginas da doutrina de “realpolitik” do saudoso Henry Kissinger.As ações foram baseadas no:Realismo;Uma visão de interesse nacional acima de ideologia;Legitimidade acima de justiça;Pragmatismo e flexibilidade.Em suma pura realpolitik.O que nos cabe é analisar os possíveis impactos econômicos e de mercado.O canal mais direto é o preço do petróleo, embora o efeito esteja longe de ser claro. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), a produção venezuelana gira em torno de 945 mil barris por dia. O mercado físico de petróleo encontra-se atualmente bem abastecido, e países da OPEP dispõem de capacidade ociosa mais do que suficiente para compensar essa eventual perda de oferta.Paradoxalmente, no longo prazo, o efeito pode ser o oposto. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris. Nos anos 1990, sua produção chegou a quase 3,5 milhões de barris por dia. O presidente norte-americano já declarou que um dos objetivos da operação é garantir o acesso de empresas americanas a essas reservas. Evidentemente, isso demandará tempo, dada a condição altamente depreciada da infraestrutura local.Do ponto de vista de contágio regional e instabilidade geopolítica, os efeitos iniciais parecem limitados. A Venezuela já era um país isolado, com um governo amplamente considerado ilegítimo pela comunidade internacional após fraudes eleitorais. O risco de contágio poderia aumentar caso os Estados Unidos optem por estender esse tipo de ação à Colômbia — um ator ainda mais relevante no narcotráfico global e cujo presidente vem antagonizando o governo Trump há algum tempo.De modo geral, portanto, os impactos imediatos sobre os mercados parecem restritos.É importante deixar claro: isso não significa minimizar o risco de uma crise humanitária. Há, neste momento, um vácuo de poder que pode desencadear uma onda de violência. A economia local, já profundamente deprimida, pode praticamente paralisar, e a interrupção de serviços básicos e do abastecimento de alimentos é uma possibilidade concreta.O desfecho dependerá, em grande medida, da existência — ou não — de um plano americano para o day after. A experiência histórica mostra que remover um ditador costuma ser muito mais fácil do que construir, posteriormente, um governo funcional e estável.The post O que vem a seguir na Venezuela? appeared first on InfoMoney.