As criptomoedas deixaram de ser um investimento paralelo e passaram a figurar entre nos balanços de grandes empresas. Com isso, uma nova classe surgiu: as chamadas Bitcoin Treasuries Companies, isto é, companhias focadas em alocar parte do caixa em bitcoin (BTC). Essa estratégia divide opiniões entre especialistas e investidores. Isso porque uma parcela dos analistas entende que é uma estratégia arriscada alocar parte do caixa em criptomoedas, que são investimentos altamente voláteis e podem comprometer o dinheiro disponível da empresa no caso de uma queda de preços. Por outro, investidores enxergam a oportunidade de rentabilizar as reservas das empresas que, muitas vezes, ficam paradas e perdendo para a inflação dos países onde essas empresas ficam sediadas. Seja como for, em 2025, algumas dessas Bitcoin Treasuries conseguiram garantir alguma rentabilidade dos negócios, mesmo com a queda nos preços à vista do BTC. Veja a seguir como foi o ano para cada uma delas: Strategy (ex-Microstrategy) A maior das Bitcoin Treasuries Companies, a Strategy antiga MicroStrategy, é uma companhia americana que combina software de business intelligence e análise de dados com uma estratégia global de tesouraria de bitcoin. Com cerca de 672.497 unidades de BTC em caixa, a Strategy possui o equivalente a R$ 60 bilhões investidos na criptomoeda. Voltando alguns passos, de acordo com Michael Saylor, ex-CEO e atual presidente do Conselho da Strategy, a estratégia de acúmulo de BTC começou como uma visão de longo prazo da empresa. Em 2020, a inflação dos Estados Unidos começava a dar uma guinada para cima, comprometendo o poder de compra do caixa da empresa. Assim, Saylor enxergou uma oportunidade de garantir uma rentabilidade extra das reservas com o acúmulo de bitcoins. Apesar das flutuações de preço, estima-se que as reservas da Strategy tenham gerado um lucro não realizado entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões para a empresa. De acordo com informações disponíveis no portal da empresa, o mNAV da Strategy está em uma relação de 0,83x. Vale mencionar que o mNAV é uma métrica do mercado que divide o valor da empresa pelo montante da criptomoeda em caixa e é interpretado pelos investidores como um indicador de risco: abaixo de 1,0x, o tamanho das reservas está maior do que o tamaho da própria empresa, indicando que os negócios não estão extraindo o valor total do montante em caixa. Com isso, as ações mais líquidas da Strategy, a MSTR, acumularam alta de 3,7% em 2025, o mais forte desempenho entre as Bitcoin Treasuries. Metaplanet Na sequência, a quarta maior empresa detentora de bitcoins e que adota a estratégia de acúmulo de criptomoedas, a Metaplanet vê um cenário diferente. Com uma queda de 7,95% no acumulado de 2025, a Metaplanet operava principalmente no ramo de hotelaria japonesa, com o nome anterior de Red Planet, mas também tinha negócios relacionados a Web3, metaverso e blockchain. A empresa com cerca de 35.102 BTCs, o equivalente a cerca de US$ 3,173 bilhões, ainda patina para convencer os investidores de que a guinada dos negócios deu certo. O mNAV da empresa está em 1,19x, uma correlação considerada saudável pelos analistas. OranjeBTC (OBTC3) Já na América Latina, a OranjeBTC (OBTC3), que estreou na bolsa brasileira em outubro do ano passado, vem enfrentando dias difíceis. Com 3.722,3 BTCs em reservas, o equivalente a aproximadamente US$ 326 milhões (R$ 1,813 bilhão) nas cotações atuais, a Oranje é a maior Bitcoin Treasurie Company da América Latina. A OranjeBTC é uma empresa de educação de criptomoedas que entrou na bolsa por meio do “IPO reverso”, adquirindo uma rede de cursinhos pré-vestibular. Recentemente, a empresa precisou recomprar ações e pausar a compra de bitcoin devido ao que Guilherme Gomes, CEO da OranjeBTC, chamou de “falta de conhecimento do investidor” sobre como a companhia gera recursos com a estratégia de encarteiramento de BTC. Gomes ainda cita a última recompra de ações como parte de uma estratégia para aproveitar o que considera um “desconto significativo” no preço dos papéis em relação ao valor do bitcoin em caixa. Até a conclusão desta reportagem, o mNAV da OranjeBTC estava em 0,89x. Méliuz (CASH3) Por último, o Méliuz (CASH3), primeira empresa brasileira a adotar a estratégia de alocação de caixa em bitcoin, aloca montantes mais modestos da criptomoeda em caixa. São 605 unidades de BTC no valor de cerca de US$ 54,4 milhões, com um mNAV de 1,46x. No acumulado de 2025, as ações CASH3 recuaram 3,30%. A empresa focada em cashback e tecnologia financeira iniciou a compra de BTCs em junho do ano passado. Em um primeiro momento, o follow-on (oferta subsequente de ações) para levantar capital e comprar bitcoins foi visto com ceticismo pelos investidores. Mas o BTG Pactual passou a ver a estratégia com bons olhos meses após a adoção da nova estratégia.