Captura de Maduro pressiona tabuleiro político no Brasil, dizem especialistas

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O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro mexem no cenário geopolítico da América Latina, reacendem temores históricos de intervenção externa e colocam o Brasil diante de desafios diplomáticos, humanitários e políticos internos. A avaliação é compartilhada por especialistas em relações internacionais e ciência política ouvidos pelo InfoMoney.Para o professor Roberto Goulart Menezes, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), o desfecho observado desde a madrugada surpreendeu os governos da região. Leia tambémTrump diz que Maduro está em navio à caminho de NY e que assistiu ao vivo à capturaO presidente dos EUA afirmou que estará fortemente envolvido com indústria do petróleo na Venezuela Maduro será indiciado e julgado em Nova York, anuncia procuradora-geral dos EUAMaduro, segundo ela, foi acusado de “conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos, e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos contra os Estados Unidos”“A expectativa era de uma pressão sucessiva sobre o governo de Nicolás Maduro, com consultas e negociações envolvendo países da região. O que ocorreu foi um ataque direto, com características de uma ‘operação cirúrgica’, como a realizada no Iraque em 1991, embora ainda haja muitas lacunas de informação”, afirma.Entre as principais incertezas estão o paradeiro de Maduro, se houve apoio ou divisão nas Forças Armadas venezuelanas e se o país caminha para uma transição negociada ou para um período de confrontos internos. Para Menezes, essas respostas serão determinantes para medir o grau de instabilidade regional.Fato geopolíticoNa avaliação do consultor em marketing político e estrategista, Celso Lamounier, o episódio precisa ser analisado em duas camadas. A primeira é o fato geopolítico em si, com os Estados Unidos escalando ações contra a Venezuela sob o argumento do combate ao narcotráfico e anunciando a captura do líder venezuelano. A segunda é a narrativa sobre a disputa real.Na avaliação do consultor em marketing político e estrategista Celso Lamounier, o episódio precisa ser analisado em duas camadas. A primeira é o fato geopolítico em si, com os Estados Unidos escalando ações contra a Venezuela sob o argumento do combate ao narcotráfico e anunciando a captura do líder venezuelano. A segunda é a narrativa sobre a disputa real.“Os EUA alegam que é uma guerra contra o narcotráfico, mas o governo venezuelano sustenta que o objetivo dos ataques seria o controle de reservas estratégicas, como petróleo e minerais”, afirma. Segundo ele, nos dias que antecederam a ofensiva, Maduro vinha sinalizando disposição para conversas com Washington, inclusive mencionando cooperação antidrogas e investimentos no setor de petróleo, numa tentativa de deslocar o conflito para o campo diplomático.Lamounier ressalta o precedente perigoso criado pelo que chamou de “intervenções militares seletivas” e a captura de um chefe de Estado, que ampliam a instabilidade em toda a América Latina. “Ainda mais em um país que faz fronteira com o Brasil”. Para ele, o fato de outros regimes autoritários ou democracias frágeis não sofrerem ações semelhantes reforça a leitura de que interesses estratégicos e econômicos pesam nessas decisões.Lamounier ressalta o precedente perigoso criado pelo que chamou de “intervenções militares seletivas” e a captura de um chefe de Estado, que ampliam a instabilidade em toda a América Latina. “Ainda mais em um país que faz fronteira com o Brasil”, diz.Risco para o BrasilMenezes avalia que a ofensiva se insere na Estratégia de Segurança Nacional anunciada por Donald Trump, que volta a tratar a América Latina como área prioritária de influência. “Essa lógica lembra a doutrina aplicada durante o governo Ronald Reagan. A China continua sendo o principal alvo global, mas a região reaparece como espaço de contenção de potências extra-regionais”, afirma. Nesse contexto, Nicarágua e Cuba surgem como possíveis alvos, segundo o professor.No caso brasileiro, Menezes avalia que o país não foi arrastado junto com o colapso do governo Maduro porque já vinha se afastando da Venezuela. “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou, no início do mandato, reinserir a Venezuela na governança regional e apostar em uma transição negociada. O esforço fracassou após o não cumprimento de acordos e ataques diretos de Maduro ao governo brasileiro”, explica, acrescentando que a distância já era grande e agora tudo desmoronou.“O Brasil não está entre os escombros do governo Maduro”, resume Menezes. Ainda assim, o país pode enfrentar impactos relevantes, especialmente no campo humanitário, com a possibilidade de uma nova onda migratória em direção às fronteiras do Norte.Custo políticoO forte posicionamento de Lula mostra que o presidente não fez uma crítica genérica ao que aconteceu, segundo Lamounier. “Ele repudiou explicitamente o bombardeio em território venezuelano e a captura de um chefe de Estado, classificando o episódio como uma violação grave da soberania e um precedente perigoso para a ordem internacional”, afirma.Para o consultor, essa é uma fala que assume custo diplomático, justamente por ocorrer em um momento de recomposição da relação entre Brasil e Estados Unidos, após tensões recentes no campo comercial. “Mesmo com uma relação bilateral mais estável, Lula deixa claro que não se curva a Washington quando entende que princípios centrais estão em jogo. Essa tem sido uma marca da política externa brasileira: diálogo, mas com autonomia e firmeza.”O impacto, segundo Lamounier, é duplo. No plano externo, o Brasil se reposiciona como um ator que tenta conter escaladas militares e reafirmar o multilateralismo, postura que Lula vem adotando em outros conflitos internacionais. No plano interno, porém, a declaração tende a ser explorada politicamente. “Em ano eleitoral, essa fala sai do campo da diplomacia e vira instrumento de polarização, com tentativas de associar Lula a Maduro, mesmo que o conteúdo da declaração trate de soberania e não de apoio a regimes”, avalia.Ambos os especialistas concordam que o ataque marca apenas o início de um processo ainda cercado de incertezas. Sem clareza sobre o destino de Maduro, a reação das Forças Armadas venezuelanas e o tipo de governo que poderá emergir, a instabilidade na América Latina tende a aumentar.The post Captura de Maduro pressiona tabuleiro político no Brasil, dizem especialistas appeared first on InfoMoney.