“Mercado entrou de vez”: por que as concessões se tornaram peça-chave para o governo

Wait 5 sec.

Leilões e concessões passaram a ocupar um papel central na agenda econômica do governo federal. Mais do que transferir ativos à iniciativa privada, a estratégia tem sido usar essas parcerias para viabilizar investimentos, reduzir gargalos logísticos e sustentar o crescimento da produção.Essa é a avaliação do secretário-executivo do Ministério dos Transportes, George Santoro, em entrevista ao InfoMoney, para quem o atual ciclo marca uma mudança na forma como o Estado se relaciona com o mercado e com o financiamento de longo prazo.Segundo ele, o governo estruturou uma carteira inédita de projetos para dar previsibilidade ao investidor e atrair capital privado. “Depois de muitos anos, o governo federal apresenta uma carteira, um pipeline de ferrovias”, afirmou.Leia tambémLula: Aval ao acordo Mercosul-UE é “dia histórico para o multilateralismo”Sem citar o presidente americano Donald Trump, Lula classificou a conquista como um contraponto ao protecionismoCom veto de Lula, Congresso tem 30 dias para decidir futuro do PL da DosimetriaPara derrubar um veto presidencial, são necessários ao menos 257 votos na Câmara e 41 votos no Senado Santoro lembrou que, nas últimas décadas, o país realizou poucos leilões ferroviários e, em geral, voltados a pequenos trechos já iniciados pelo poder público. Agora, diz ele, o cenário é outro, com projetos maiores e mais ambiciosos. “O Arco Ferroviário do Sudeste é o maior projeto greenfield [desenvolvimento iniciado do zero] da história do Brasil.”Escala e previsibilidadeA estratégia, segundo o secretário, passa por dar escala e clareza ao pipeline. Para 2026, o ministério prevê 14 concessões rodoviárias e oito ferroviárias prontas para ir a leilão, com investimentos estimados em cerca de R$ 300 bilhões.“Em três anos de governo, vamos bater R$ 260 bilhões de capex contratado”, disse Santoro. Ele afirmou que esse volume supera o total investido em transportes até 2022, estimado em cerca de R$ 170 bilhões.Para o governo, o tamanho desse ciclo é relevante, mas o modelo adotado é ainda mais importante. “Dos 22 leilões, 16 grupos diferentes ganharam”, afirmou o secretário, destacando a maior diversidade de operadores e financiadores.Segundo ele, o setor financeiro passou a participar de forma mais direta dos projetos, seja nos consórcios vencedores, seja na estruturação do financiamento. “Praticamente em todos os leilões, instituições financeiras, fundos ou bancos estão participando.”Mais mercadoSantoro também destacou a mudança no papel do BNDES dentro desse arranjo. “Hoje, ele atua sem subsídio, usando produtos de mercado e concorrendo com outros bancos”, afirmou.Segundo ele, a participação do banco público no financiamento das concessões caiu de cerca de 90% no passado para algo entre 40% e 45% atualmente, com o restante vindo de soluções privadas. “Isso mostra uma maturidade do mercado que não tínhamos antes.”Na visão do secretário, concessões e privatizações deixaram de ser apenas instrumentos de arrecadação e passaram a funcionar como alavancas de política econômica. Ele citou a renovação da concessão da FCA como exemplo dessa mudança.“Dinheiro do setor fica no setor. Dinheiro do setor não vai para o fiscal”, afirmou. Para Santoro, no modelo antigo, a cobrança elevada de outorgas acabou deteriorando ativos e reduzindo a eficiência da malha. “O que é mais valioso é gerar recurso sem prejudicar o patrimônio.”Segurança jurídica Outro ponto central da estratégia é a segurança jurídica. Santoro afirmou que o governo investiu em mecanismos para reduzir disputas judiciais e dar previsibilidade aos contratos. “Temos arbitragem, dispute board, soluções consensuais no TCU, câmaras de solução de conflitos na AGU”, disse.Para ele, isso é essencial em contratos que podem durar de 35 a até 99 anos. “Não é possível que não apareça uma confusão no meio desse tempo todo”, afirmou, defendendo instrumentos mais rápidos de reequilíbrio.Essa estrutura, segundo o secretário, tem sido decisiva para atrair investidores estrangeiros. Ele citou a entrada de grupos espanhóis e franceses, além do consórcio Mota-Engil, com capital português e chinês, e disse que há interesse crescente de empresas mexicanas e chinesas nos próximos leilões. “O olhar lá de fora mudou em relação ao Brasil.”Riscos para destravar projetosSantoro também ressaltou que o governo passou a assumir riscos que antes inviabilizavam concessões. Ele citou a BR-381, que teve quatro leilões desertos antes de avançar.“O governo assumiu o risco de desapropriação e o risco geológico de um trecho muito complexo”, disse. Segundo ele, a mudança destravou a concorrência e permitiu que o investimento finalmente saísse do papel.Na avaliação do secretário, a combinação de uma carteira robusta, regras mais claras e maior participação do mercado financeiro transformou as concessões em parcerias estratégicas para o Estado.“Hoje, o Brasil tem o maior pipeline de projetos de concessão de rodovias e ferrovias do mundo”, afirmou. Para Santoro, esse modelo é fundamental para reduzir custos logísticos, aumentar a competitividade e sustentar o papel do país como grande fornecedor global de alimentos. “Isso não vai mudar nos próximos 20 anos, e a infraestrutura precisa acompanhar esse crescimento.”The post “Mercado entrou de vez”: por que as concessões se tornaram peça-chave para o governo appeared first on InfoMoney.