O enredo é conhecido: gestores públicos plantam mudas, posam para fotos e anunciam uma resposta climática baseada no verde. Em São Paulo, esse discurso exige revisão. A divulgação de milhares de novas árvores desloca o debate central: não é possível neutralizar emissões urbanas apenas com plantio compensatório, como já indicam avaliações críticas de políticas de offset florestal em áreas urbanas. O carbono não se resolve no canteiro, mas no sistema que o produz.Essa lógica de priorizar gestos simbólicos, em detrimento de políticas integradas, ecoa um cenário em que a legislação ambiental avança em um sentido enquanto a norma e os dispositivos operacionais caminham em outro, deixando a arborização urbana e as ações climáticas sem base normativa estável.Os números ajudam a desmontar a narrativa. A prefeitura anuncia a meta de 290 mil mudas. O dado parece expressivo até ser confrontado com o estoque existente: cerca de 650 mil árvores compõem hoje a arborização viária da cidade. Estudo da USP indica que mais de 600 mil árvores foram perdidas na região metropolitana entre 2005 e 2020, tendência observadatambém em outras metrópoles sob pressão urbana. O avanço anunciado cobre apenas uma fração dessa perda acumulada.O inventário oficial informa que São Paulo emite cerca de 16,6 milhões de toneladas de CO₂ por ano, o equivalente a 1,4 tonelada por habitante. Uma árvore adulta sequestra em média 22 quilos de CO₂ por ano. Neutralizar um único ano de emissões exigiria aproximadamente 754 milhões de árvores adultas, distribuídas em uma área próxima de três vezes o território do município. A meta anunciada cobre 0,04% dessa necessidade. O plantio, apresentado como solução climática, não corresponde à escala do problema.A média global de emissões é de 4,6 toneladas de CO₂ por pessoa ao ano. Mesmo em contextos de menor emissão per capita, como São Paulo, o plantio não se sustenta como resposta climática. O orçamento de carbono definido pelo PNUMA indica que cada pessoa deveria emitir no máximo 2,1 toneladas por ano até 2050. A média paulistana está abaixo desse limite, mas isso não autoriza complacência: 75,9% das emissões da cidade vêm do setor de transportes, movido a combustíveis fósseis. Siga o canal da Jovem Pan News e receba as principais notícias no seu WhatsApp! WhatsApp É aqui que o discurso da compensação se torna problemático. Enquanto o poder público investe capital político no plantio, relevante para conforto térmico, drenagem e saúde urbana, evita enfrentar o setor que concentra as emissões. As mudas plantadas hoje levarão cerca de 20 anos para atingir capacidade plena de sequestro. As emissões atuais seguem sem resposta estrutural. A questão não é interromper o plantio de árvores. Elas cumprem funções urbanas. O problema é apresentá-las como solução climática. A redução efetiva de emissões exige mudança tecnológica, reorganização do espaço urbano e decisão política, como apontam diretrizes internacionais de mitigação urbana.Se São Paulo pretende tratar o carbono com seriedade, precisa deslocar o foco para a mobilidade: retirar progressivamente os ônibus a diesel da frota, desestimular o uso do carro particular e garantir transparência sobre as emissões evitadas por transporte coletivo e deslocamentos não motorizados. Árvores importam. Mas não neutralizam uma metrópole movida a diesel e gasolina. São Paulo não carece de mudas, carece de decisão política e ação. O carbono não negocia e a contasegue aberta. Leia também Quando a legislação ambiental anda para um lado e as árvores para outro