A China observa o atual conflito no Oriente Médio como parte de um processo mais amplo de perda de influência global dos Estados Unidos, segundo avaliação do professor de Relações Internacionais Marcus Vinícius De Freitas, que também é professor visitante da Universidade de Relações Exteriores da China. Em entrevista ao jornal WW, da CNN Brasil, ele afirmou que, na leitura chinesa, o conflito representa uma decisão estratégica de Washington que tende a acelerar o desgaste da liderança americana. “A China vê e observa este processo como mais uma pedra que os americanos estão colocando na sua queda hegemônica, porque é uma guerra de escolha, não é uma guerra que tinha razão para acontecer”, disse. Freitas também destacou que a forma como o conflito é retratado no Ocidente nem sempre corresponde à complexidade da situação no Oriente Médio. Para ele, iniciativas de ouvir diferentes lados ajudam a ampliar a compreensão internacional. “No geral você tem uma visão um tanto distorcida desta guerra em determinadas situações”, afirmou. De acordo com o professor, Pequim acompanha a crise com cautela e espera críticas internacionais pela forma como conduz sua política externa, especialmente por manter relações com países como o Irã. “Os chineses sabem que vão sofrer críticas, mas entendem que isso faz parte de toda uma campanha que é feita contra a China”, explicou. Leia Mais Petróleo dispara até 35% em primeira semana de guerra no Oriente Médio Embaixador do Irã diz que 1.332 civis morreram na guerra com EUA e Israel Trump desconversa ao ser questionado sobre possível ajuda da Rússia ao Irã O professor citou também declarações do ex-embaixador dos Estados Unidos na China, Nicholas Burns, que questionou o papel de Pequim como aliado internacional. “Ele falou: ‘Olha, de que adianta ser aliado da China se na hora em que você precisa a China não ajuda você?’”, relatou Freitas. Segundo o professor, a posição oficial chinesa continua baseada no princípio de não intervenção e na defesa do fim imediato das hostilidades. “A posição da China é não intervenção, parar a guerra”, destacou. Ele acrescentou que, nesse contexto, o grupo de países do Brics — formado por Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia — poderia ter papel relevante para pressionar por uma solução diplomática, embora reconheça divisões internas entre seus membros. “Os Brics, nesse caso, estão rachados, há uma divisão”, ressaltou. Para ele, sem uma mobilização mais firme de atores internacionais, será difícil interromper a escalada do conflito. “Se não houver um posicionamento de alguns países no sentido de forçar os Estados Unidos e Israel a mudarem o seu procedimento, fica difícil de esta guerra parar”, concluiu.