Polilaminina: pesquisadora admite erros em estudo para tratar lesão na medula

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A pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável por um estudo sobre a polilaminina (proteína para tratar lesões na medula espinhal), admitiu a existência de erros em sua pesquisa em entrevista ao G1 publicada neste sábado (07). A cientista também anunciou que fará uma revisão completa do trabalho.Publicado como pré-print (rascunho antes de ser revisado por outros cientistas) em 21 de fevereiro de 2024 no repositório medRxiv, o estudo aborda o resultado de duas décadas de pesquisas dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).“Esse pré-print eu coloquei assim no momento. Eu pensei: ‘isso aí não vai dar Ibope, vou deixar lá só para registrar que a gente fez isso em algum momento, por questões de autoria’. Mas ele não estava bem escrito”, disse a pesquisadora ao G1.Polilaminina: a pesquisa, erros admitidos, críticas de cientistas e próximos passosA polilaminina é uma substância criada a partir de uma molécula natural do corpo (laminina) que atua no suporte das células. A ideia da pesquisa é que, ao ser aplicada na medula lesionada, a substância ajude na recuperação de conexões nervosas. O estudo ficou muito popular recentemente após um dos pacientes, Bruno Drummond, aparecer em entrevistas contando que voltou a andar após o tratamento. Ele tinha sofrido uma lesão medular aguda por conta de um acidente em 2018.O estudo sobre polilaminina ficou muito popular recentemente, mas pesquisadora responsável admitiu erros e necessidade de revisão do texto (Imagem: jackpress/Shutterstock)Em entrevista ao G1, Tatiana Sampaio reconheceu que o pré-print da pesquisa tinha falhas significativas. Entre elas, estavam:Erro em gráfico de paciente falecido: Um gráfico mostrava que um paciente teve melhoras 400 dias após o procedimento, mas o texto dizia que ele havia morrido apenas cinco dias depois. A pesquisadora explicou que foi um “erro de digitação” e que os dados de melhora pertenciam a outro participante;Imagens de exames confusas: Especialistas criticaram os exames de eletromiografia (que medem a saúde dos músculos e nervos) apresentados no estudo, pois não mostravam melhoras claras. Tatiana afirmou que vai substituir essas imagens; e disse que as anteriores exibiam “dados brutos” e estavam “mal programadas”;Problemas na escrita: A cientista admitiu que o texto “não estava bem escrito” e que vai reescrever partes para explicar melhor como os resultados foram alcançados.Críticas da comunidade científicaA pesquisadora reafirma que a polilaminina funciona. Mas outros especialistas apontam problemas na forma como a pesquisa foi feita. Por exemplo:Falta de “Grupo Controle”: Em estudos científicos, é comum dividir os pacientes em dois grupos – um que recebe o remédio e outro que não recebe, para comparar os resultados. Este estudo não fez isso;Tratamentos misturados: Os pacientes, além de receberem a substância, passaram por cirurgias e fisioterapia intensiva (cerca de 200 horas). Por isso, especialistas dizem que não dá para saber se a melhora veio da polilaminina ou apenas da fisioterapia e da cirurgia;Risco à saúde: O estudo sugeriu que mortes por pneumonia e infecção generalizada (sepse) entre os participantes poderiam estar ligadas a um efeito da substância que reduz as defesas do organismo (imunossupressão).A pesquisa atraiu um investimento de R$ 100 milhões da farmacêutica Cristália. Devido à grande repercussão, muitas famílias recorreram à Justiça para conseguir o tratamento. Atualmente, existem cerca de 40 ações judiciais e 19 pessoas já receberam a aplicação por ordem do juiz. Mas isso não faz parte de um teste oficial e controlado (entenda por que cientistas pedem cautela no uso da polilaminina).Próximos passosA pesquisadora trabalha numa nova versão do artigo para tentar publicá-lo em revistas científicas renomadas, após ter sido rejeitada por duas delas (incluindo a conceituada Nature). Outro ponto importante: embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenha autorizado o início de testes oficiais em humanos (Fase 1) em janeiro de 2026, esses testes ainda não começaram na prática.O post Polilaminina: pesquisadora admite erros em estudo para tratar lesão na medula apareceu primeiro em Olhar Digital.