Após dois anos de conflito que destruíram a Faixa de Gaza, Israel e o Hamas assinaram um acordo de cessar-fogo no dia 10 de outubro. Cinco meses depois do início da trégua, o território palestino ainda é palco de uma das maiores tragédias humanitárias do mundo.Embora a intensidade dos bombardeios tenha diminuído, centenas de civis palestinos continuam morrendo diariamente em ataques israelenses.Para Jonathan Fowler, porta-voz da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA), o cessar-fogo não se traduz no cotidiano em Gaza. “A situação em Gaza permanece absolutamente catastrófica. A ajuda humanitária não é suficiente. Não está entrando na escala necessária. Ainda há muitas restrições quanto aos tipos de assistência permitidos”, afirmou Fowler à Jovem Pan.Ao completar dois anos de conflito, o número de palestinos mortos na Faixa de Gaza ultrapassou 70 mil. Segundo o Ministério da Saúde palestino, controlado pelo Hamas, mais de 600 corpos foram recuperados dos escombros desde que o cessar-fogo entrou em vigor. A quantidade total de vítimas ainda deve aumentar drasticamente.Palestinos carregam um corpo após um ataque militar israelense em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 27 de fevereiro de 2026. Foto: Foto por BASHAR TALEB / AFPDo lado israelense, 1.665 foram mortos, sendo 1,2 mil apenas nas primeiras horas do ataque do Hamas a Israel. Outros 250 foram sequestrados no dia 7 de outubro de 2023.O médico e presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal), Ahmed Shehada, diz que o objetivo de Israel segue sendo a limpeza étnica dos palestinos. “Gaza continua submetida a um processo sistemático e deliberado de destruição social, econômica e estrutural. Com o cessar-fogo, o sofrimento diminuiu, mas nunca acabou”, avaliou.Ele defende que a população palestina também é vítima de um processo de desumanização. “Neste momento, não temos aqueles números elevados registrados ao longo dos dois anos de guerra. Fala-se muito em números de mortos. No entanto, cada vítima tinha nome, história, sonhos e família”, disse Shehada à reportagem.‘Ataque à vida e à possibilidade de um futuro’Mohammed Omer Almoghayer. Foto: DivulgaçãoEm entrevista à Jovem Pan, o premiado escritor palestino Mohammed Omer Almoghayer relata a dor da população palestina ao viver sob constante ameaça, em meio ao frágil cessar-fogo. “Minha vida foi moldada pelo deslocamento. A Palestina, para mim, é mais do que uma questão política; é uma condição vivida de fragmentação e resistência”, afirmou.O escrito palestino observa que um cessar-fogo que representa apenas a “suspensão dos bombardeios”, sem desmontar as estruturas que tornaram a devastação possível, não é paz. “Trata-se do resultado de um cerco prolongado desde 2007, além da ocupação e do confinamento impostos desde 1967”, disse.Para Almoghayer, a condição de Gaza não pode ser reduzida a uma “crise” humanitária, como se fosse um desastre natural. “Quando infraestrutura, casas, escolas, universidades, hospitais, mesquitas, igrejas e arquivos são destruídos, o que está sob ataque não é apenas à vida, mas a continuidade — à própria possibilidade de um futuro”, argumenta.À beira do colapsoAo menos 92% das casas na Faixa de Gaza foram destruídas ou danificadas ao longo da guerra, segundo a agência da ONU para refugiados palestinos. Inúmeras pessoas foram deslocadas diversas vezes, resultando também em escassez de abrigo.Integrantes da Defesa Civil usam uma escavadeira para procurar os restos de vítimas nos escombros de um prédio destruído no campo de refugiados de Bureij, no centro da Faixa de Gaza. Foto: Eyad Baba/AFPO professor José Niemeyer, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) do Rio, ressalta que a infraestrutura de Gaza foi completamente destruída ao longo da guerra. “As Forças Armadas de Israel tiveram uma agenda não apenas de ataques com meios aéreos e mísseis, mas também de invasão e destruição com armamento militar pesado, principalmente tanques de guerra”, declarou.Segundo Jonathan Fowler, porta-voz da UNRWA, as poucas unidades médicas em funcionamento na região estão à beira do colapso. “Isso já seria um problema em tempos normais. Há um enorme aumento de traumas e ferimentos de guerra, além do crescimento de doenças infecciosas e de pessoas vivendo em condições insalubres, muitas delas desnutridas”, avalia.Claudio Lottenberg, médico e presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), reconhece que um território amplamente deteriorado tende a enfrentar riscos sanitários graves. “Quando há destruição de infraestrutura, escassez de energia e água, perda de profissionais, cadeias de suprimento instáveis e insegurança, o sistema entra numa zona de ‘quase colapso’, mesmo que ainda haja unidades funcionando parcialmente”, explica.O médico afirma ainda que o fato de nenhum hospital estar plenamente operacional e de parte das unidades funcionar apenas parcialmente já configura um “sistema sob risco extremo”.Na avaliação de Lottenberg, o que torna mais lenta a liberação de materiais para a reconstrução do sistema de saúde são itens classificados como “sensíveis”, que esbarram na segurança de Israel. “A reconstrução precisa andar mais rápido, mas com um mecanismo de verificação que proteja hospitais de qualquer instrumentalização [terrorista], porque eles não podem ser ‘zona cinzenta’”, defende.Bloqueio à ajuda humanitáriaO cessar-fogo em Gaza e o plano de paz apoiado pelos EUA não garantiram sequer as condições mais básicas de sobrevivência no enclave palestino. Israel continua permitindo a entrada restrita de caminhões com ajuda humanitária por dia e mantém a passagem de Rafah sob seu controle.Outro direito fundamental violado é o da alimentação, segundo Ahmed Shehada, uma vez que Israel controla o número de caminhões com comida autorizados a entrar em Gaza. O médico e presidente da Ibraspal relembra que o acordo firmado previa a entrada de um volume maior de ajuda humanitária, o que, segundo ele, não tem se concretizado na prática.Crianças observam enquanto palestinos feridos se preparam para deixar Gaza para tratamento através da passagem de Rafah, após esta ter sido aberta por Israel para um número limitado de pessoas, no sul da Faixa de Gaza, em 8 de fevereiro de 2026. Foto por BASHAR TALEB / AFPIsrael, por sua vez, justifica o bloqueio e as restrições como medidas de segurança, alegando risco de desvio, contrabando e entrada de itens de “duplo uso”, materiais que poderiam ser convertidos para fins militares. “Há análises israelenses que descrevem interrupções e limitações como instrumento de pressão para reduzir linhas de suprimento do grupo terrorista Hamas e influenciar negociações”, disse Claudio Lottenberg, presidente da Conib.Por outro lado, Lottenberg afirma que organizações humanitárias sustentam que “restrições amplas e imprevisíveis” aumentam a mortalidade evitável. “Como médico, eu colocaria assim: triagem é legítima; bloqueio do essencial, não — porque em saúde, atrasos viram dano real”, avaliou.Futuro permanece incertoEm meio à fragilidade do cessar-fogo e à complexidade dos próximos passos no território, o futuro da população permanece incerto e vulnerável.O escritor palestino Mohammed Omer Almoghayer afirma que uma “violência dessa magnitude” sob a população não termina quando as bombas param. “A violência se instala no corpo e na imaginação; continua a viver em nós, palestinos, desde o nascimento. Gerações crescem sob vigilância, ameaça e humilhação”, expressa.Neste cenário, a implementação da solução de dois Estados – um israelense e outro palestino, vivendo lado a lado e em paz – se torna cada vez mais distante.Impactados pela escalada do conflito em Gaza e pela expansão de colônias israelenses na Cisjordânia, diversos países reconheceram o Estado palestino no último ano. Até o momento, mais de 140 nações já reconheceram a Palestina, inclusive o Brasil.Para Almoghayer, o reconhecimento não é simbólico, uma vez que está ligado à soberania, a direitos, a recursos legais e à sobrevivência material. “O verdadeiro reconhecimento significaria igualdade perante a lei, liberdade de circulação e autodeterminação. O fracasso da causa palestina é um fracasso da própria humanidade”, defende o escritor.