Por que voltar à Lua, afinal?Nas décadas de 1960 e 1970, a Nasa levou 12 americanos à superfície lunar. Nem todo mundo entende por que estamos tentando fazer isso de novo.Para os quatro astronautas da Artemis II, a primeira missão tripulada em torno da Lua em mais de 50 anos, a resposta é simples.Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen se lembram de, ainda crianças, olharem para a Lua e se sentirem pequenos. Todos dizem ter sentido que faziam parte de algo muito maior do que eles mesmos. Para eles, recriar esse sentimento já é motivo suficiente para voltar.“Tenho pensado, no mundo que temos hoje, quais são as coisas que poderíamos fazer para melhor elevar nossos amigos aqui no Planeta Terra?”, disse Wiseman, 50, comandante da missão, em entrevista em janeiro. “E cheguei à conclusão de que a gente simplesmente precisa ir lá e fazer essa missão.”“Espero que a gente tenha um grande impacto em aproximar o mundo, nem que seja por um minuto”, acrescentou. “Não precisamos de nenhuma encenação. Não precisamos de truques de mágica.”Koch, uma das especialistas de missão da Artemis II, deu sua própria visão sobre por que estão indo.“Nenhuma pessoa sozinha pode ser tão grande quanto essa missão”, disse. “Gosto de pensar que exploramos, especialmente cada vez mais fundo, justamente para aprender sobre nós mesmos.”Há outras razões apontadas para enviar Koch e seus companheiros nessa jornada. Alguns formuladores de políticas nos Estados Unidos querem voltar à Lua antes que a China leve sua primeira tripulação para lá. Outros esperam que esta missão, e os pousos lunares americanos previstos para 2028 e além, reavivem um espírito de aventura visto como parte central da identidade americana.Ainda assim, a Artemis II foi marcada num momento de conflito e divisão dentro e fora dos EUA. Quando os astronautas decolarem, a partir de quarta-feira, centenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos e ao redor do mundo vão parar e sentir que fazem parte de algo maior? Ou a sociedade americana está fragmentada e distraída demais para se unir em torno de mais uma “corrida à Lua”?Glover, piloto da missão, lembrou os paralelos entre sua viagem e o lançamento da Apollo 8, em 1968, outro ano turbulento da história americana, marcado pelos assassinatos do reverendo Martin Luther King Jr. e do senador Robert F. Kennedy.“Aquele foi um período difícil para o país”, disse ele, “e espero que a gente consiga criar um ponto de conexão para a nossa geração que seja equivalente ou, quem sabe, até maior, porque é atual e é nosso.”Glover, 49, será a primeira pessoa negra a viajar até a Lua. Koch, 47, será a primeira mulher a ir para lá. Outro especialista de missão, Hansen, 50, canadense, será o primeiro não cidadão americano a cumprir esse feito.Familiares, amigos, colegas de turma e ex-professores e treinadores defenderam, em entrevistas recentes, por que esses quatro astronautas têm chance de criar um momento de inspiração em massa. Assim como as missões Apollo fizeram as pessoas parar e olhar para cima, dizem eles, a tripulação da Artemis II pode reavivar o fascínio, o encanto e o aspecto sublime da exploração espacial.“Este é o momento em que todos deveríamos voltar a acreditar”, disse Jared Isaacman, administrador da Nasa, em discurso recente em que apresentou mudanças na política espacial americana. Ele acrescentou: “A Nasa um dia mudou tudo, e vamos fazer isso de novo”.(PS Spencer/The New York Times)O comandante | Reid WisemanEm 1993, Marc Eigner recebeu uma carta de apresentação do rapaz que seria seu colega de quarto no primeiro ano em Rensselaer Polytechnic Institute, em Troy, Nova York. A mensagem, assinada por Reid Wiseman, já dizia onde eles comprariam os móveis para o dormitório. Também dizia que eles iam se divertir muito.Eigner pensou que ou iria odiar o sujeito, ou seriam melhores amigos para sempre. Venceu a amizade: Wiseman e Eigner se aproximaram por causa de carros velozes, partidas de squash e muitos estudos (e festas) em conjunto. Em 2014, Wiseman ligou do espaço, enquanto Eigner dirigia pelo Túnel Holland.“Reid é o sonho americano realizado”, disse Eigner.Depois de se formar em 1997, Wiseman serviu como piloto de caça na Marinha dos EUA, com duas missões no Oriente Médio, antes de se tornar piloto de testes. Entrou na Nasa em 2009.A excitação da vida de astronauta veio acompanhada de um estresse enorme antes de uma estadia de quase seis meses na Estação Espacial Internacional. Ele temia nunca mais ver a família. Credita à esposa, Carroll, enfermeira pediátrica, o amor e o apoio que o mantiveram. Wiseman chegou a cogitar abandonar a carreira de astronauta quando ela foi diagnosticada com câncer, mas, segundo o Sunday Times, foi ela quem o impediu.Carroll Wiseman morreu em 2020, aos 46 anos, por volta da época em que Reid Wiseman assumiu o comando do escritório de astronautas da Nasa. Ele deixou o posto em 2022 e, em março de 2023, soube que havia sido escolhido para liderar a missão à Lua.Ele temia ter de contar às filhas, Ellie e Katherine, que iria deixar a Terra novamente.Na manhã seguinte, em sua casa em Houston, Wiseman acordou e encontrou cupcakes em forma de Lua. Tinham sido feitos por Ellie, a filha que, segundo ele, provavelmente tinha sido a mais resistente à sua carreira de astronauta no passado.(PS Spencer/The New York Times)O piloto | Victor GloverQuando Andre Patterson treinava o time de futebol americano da California Polytechnic State University, em San Luis Obispo, ele tinha um defensive back chamado Victor Glover que simplesmente não desistia. Glover tinha dificuldade com o sistema defensivo de Patterson, errando repetidas vezes a execução de certas jogadas. Mas, perto do fim da temporada de 1996, ele desviou uma bola longa na lateral do campo, nos minutos finais, ajudando os Mustangs a garantir o título.“Talvez ele não fosse o cara mais rápido em campo, nem o mais atlético, mas ia ter sucesso porque era o melhor ‘técnico’ lá fora”, disse Patterson, que mais recentemente foi técnico de linha defensiva do New York Giants.Glover se formou em 1999 e tornou-se aviador naval, servindo no Iraque e depois como piloto de testes. Estava trabalhando como assessor legislativo no gabinete do senador John McCain quando a Nasa o selecionou como astronauta, em 2013.Ele só foi ao espaço em 2021, quando a cápsula da SpaceX à qual havia sido designado finalmente ficou pronta para voar. Na missão Crew-1, tornou-se o primeiro astronauta negro a integrar uma tripulação de longa duração na Estação Espacial Internacional.Patterson não se surpreendeu ao vê-lo chegar à órbita.“Se ele decidisse que queria ir para o espaço, entrar no Congresso ou ser presidente, se colocasse aquilo na cabeça, Victor ia trabalhar até a exaustão para conseguir”, disse.No início da carreira naval, um comandante deu a Glover o apelido Ike, de I Know Everything (“eu sei tudo”). Isso se refletiu na sua preparação para virar astronauta. Como contou no podcast “NASA’s Curious Universe”, ele mergulhou em arquivos e gravações das missões Apollo antes da entrevista. Passou a viver com um conjunto de perguntas: Como eu uso isso? Como eu quebro isso? Como isso me quebra?Na entrevista, brincou sobre o que seria, na prática, o verdadeiro papel de um piloto no ônibus espacial: garantir que o banheiro funcionasse.“Eu seria o encanador se precisassem consertar”, disse Glover.Na Estação Espacial ele acabou fazendo justamente parte desse tipo de trabalho. Glover contou que Wiseman o avisou que ele está escalado para checar o funcionamento do banheiro no segundo dia de voo da Artemis II.“O destino não deixa de ter senso de humor”, disse.(PS Spencer/The New York Times)Especialista de missão nº 1 | Christina KochAssim como seu colega de turma de 2013, Victor Glover, Christina Koch já fez história na Nasa. Em 2019, ela e a astronauta Jessica Meir realizaram a primeira caminhada espacial totalmente feminina na Estação Espacial Internacional. Após 328 dias em órbita, Koch estabeleceu o recorde do voo espacial contínuo mais longo já feito por uma mulher.Ela costuma minimizar esses rótulos, dizendo que isso “presta um desserviço ao trabalho de verdade que estamos fazendo”.“Para mim, todos esses ‘primeiros’ não dizem respeito à conquista de um indivíduo, mas sim a celebrar onde estamos hoje”, afirmou na entrevista de janeiro.Koch, que mora em Galveston, Texas, com o marido, é a única da tripulação sem formação militar.Ela tinha apenas 12 anos, crescendo na Carolina do Norte, quando diz ter tido certeza de que queria ser astronauta. Cobriu as paredes do quarto com pôsteres comprados na loja de lembranças do Kennedy Space Center, durante viagens em família. Já integrava o clube de foguetes de sua escola e se definia como uma “geek”, descobrindo coisas novas para consertar e construir com o pai.Depois de se formar na North Carolina State University, Koch trabalhou no Goddard Space Flight Center e, depois, fez pesquisas durante um rigoroso inverno no Polo Sul. Após a Antártida, tornou-se engenheira elétrica no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Maryland.Lá, mostrou talento no desenvolvimento de instrumentos para missões da Nasa, como a sonda Juno, que orbita Júpiter, disseram Steve Jaskulek e Chuck Schlemm, dois colegas do departamento espacial do laboratório. Ela também era conhecida por preparar sobremesas criativas usando nitrogênio líquido em eventos de sorvete com a equipe.(PS Spencer/The New York Times)Especialista de missão nº 2 | Jeremy HansenSentado ao lado dos colegas no sofá de Stephen Colbert, em abril de 2023, Jeremy Hansen brincou sobre o verdadeiro motivo de a agência espacial americana levar um canadense à Lua.“Se algo der errado nessa missão, a Nasa pode culpar o Canadá”, ironizou.Hansen é o mais recente astronauta canadense a trabalhar com os americanos em uma parceria que já dura décadas. Piloto da Força Aérea Real Canadense, ele entrou na Agência Espacial Canadense em 2009 e é o único membro da Artemis II que ainda não foi ao espaço.Mas, desde que o pai construiu para ele uma casa na árvore caprichada na fazenda da família, em Ontário — que virou sua primeira nave espacial imaginária —, isso se tornou um objetivo claro. Sua esposa, a médica Catherine Hansen, conta que, antes mesmo de começarem a namorar, ele lhe disse que queria ser astronauta.A jornada para se tornar astronauta foi um desafio para o casal, que precisou conciliar a preparação de Jeremy com o trabalho de Catherine como obstetra de plantão 24 horas por dia, além de cuidar de três filhos.Hansen admite que pode ser excessivamente focado na missão, a ponto de esquecer de celebrar as vitórias da vida. Na entrevista de janeiro, em Houston, contou que, para se preparar para a Artemis II, participou de uma espécie de busca espiritual com um ancião indígena canadense, para enfrentar uma questão: como posso ser feliz quando há pessoas morrendo e sofrendo?Acabou chegando a uma resposta: “Tudo o que você precisa fazer é acordar todo dia e usar sua energia para o bem”.A nova paisagem da NasaA capacidade da tripulação da Artemis II de inspirar uma nova geração enfrenta desafios políticos e culturais.Nos dois mandatos, o presidente Donald Trump fez do retorno duradouro à Lua uma prioridade. Ao mesmo tempo, centenas de postos de trabalho foram cortados na Nasa no ano passado, e o governo Trump propôs um forte corte no orçamento da agência, mais tarde rejeitado pelo Congresso. A Casa Branca também sugeriu que apenas Trump seria capaz de “fazer o espaço grande de novo”.O senador Mark Kelly, democrata do Arizona, que voou quatro vezes ao espaço como astronauta da Nasa, verbalizou a preocupação de que Trump possa politizar o retorno à Lua.“Se eu tivesse a chance de falar com Donald Trump sobre isso, diria para ele usar essa oportunidade para unir os americanos”, afirmou, em entrevista concedida semanas antes de processar o secretário de Defesa, Pete Hegseth, por ações administrativas que poderiam reduzir sua patente militar na aposentadoria. “Acho que todos entendemos, neste ponto, que ir à Lua não deveria ser um exercício partidário.”O ambiente cultural que a Artemis II e todo o programa Artemis enfrentam também é bem menos romântico e aspiracional do que na era Apollo.Os astronautas da Artemis II já tiveram encontros diretos com pessoas que dizem que o pouso na Lua foi forjado ou que os recursos não deveriam ser gastos em um retorno ao satélite. Glover diz que agradece a quem manifesta essas crenças e depois reflete sobre o que ouviu.“Talvez o país inteiro não esteja conosco”, disse. “Mas, se fizermos nosso trabalho direito, a melhor coisa que podemos fazer é entregar nosso melhor esforço, e talvez, olhando para trás, as pessoas digam: ‘Olha, aquilo foi inspirador’.”O momento pelo qual eles esperamApesar da esperança de que a Artemis II possa unir pessoas, os integrantes da tripulação têm uma definição curiosa do que seria o sucesso da missão.“Queremos ser rapidamente esquecidos, para que vocês passem a entrevistar as próximas tripulações”, disse Glover em janeiro.Embora queiram sair de cena, há um momento que eles não querem que seja esquecido. Em uma janela de cerca de três horas, eles poderão ser os primeiros humanos a ver, com os próprios olhos — em vez de lentes fotográficas ou telescópios — partes do lado oculto da Lua.Quando isso acontecer, Hansen diz que vai desejar que o mundo também pare para perceber o que ainda é possível.Wiseman afirma que vai ficar grudado na janela, maravilhado com o “truque de mágica” pelo qual a Terra sai de cena e depois volta ao campo de visão.Glover pretende gravar vídeos e tirar fotos dos colegas de tripulação, querendo registrar para sempre as expressões em seus rostos.E Koch vai reservar um momento para reconhecer aquilo que consegue — e o que não consegue — sentir estando no espaço.“Você não sente coisas como inveja”, ou raiva, disse ela, acrescentando: “Você sente admiração e sente união, e acho que o que você não sente é tão importante quanto o que você sente”.Esse momento será deles quatro.Apesar de todos os esforços, não vai parecer pequeno.c.2026 The New York Times CompanyThe post Por que a Nasa quer voltar à Lua agora — e o que move a tripulação da Artemis II appeared first on InfoMoney.