Enquanto os mercados atravessavam março como quem caminha sobre cacos de vidro, a renda fixa mais conservadora cumpriu um papel quase silencioso, mas poderoso. Em meio ao ruído, ativos atrelados ao CDI e ao Tesouro Selic mostraram por que são frequentemente chamados de “porto seguro”: entregaram retorno positivo com baixa turbulência.Um juro de 1,23% ao mês, por exemplo, ganha outro peso quando o resto da carteira parece derreter. Em um ambiente de forte aversão ao risco, não se tratou de ganhar muito – mas de perder menos, ou simplesmente não perder. E isso fez toda a diferença.Março foi um mês em que praticamente nenhuma classe de ativos saiu ilesa. Nem o Ibovespa, nem os títulos públicos mais longos, nem o crédito privado escaparam das perdas. Foi um período de ajuste generalizado, com cicatrizes espalhadas por todos os lados.Até houve exceções. O dólar e o Bitcoin fecharam no azul, com a criptomoeda subindo 5,22% no mês, acima da valorização de 1,37% da moeda americana frente ao real. Ainda assim, o trajeto esteve longe de ser tranquilo, só na última semana, o bitcoin recuou cerca de 2%, ilustrando bem o nível de volatilidade enfrentado.Nem toda renda fixa é “fixa” no curto prazoDentro da própria renda fixa, o contraste foi evidente. Tirando o Tesouro Selic, nenhum título público conseguiu fechar março no positivo. O menos prejudicado foi o Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2037, com queda de 0,79%. Na outra ponta, o Tesouro IPCA+ 2050 recuou 6,49%.Os títulos prefixados e os indexados à inflação sofreram com a chamada marcação a mercado, um mecanismo que ajusta diariamente o preço dos papéis conforme as expectativas de juros e inflação. Quando as taxas sobem, os preços caem. E foi exatamente isso que aconteceu.O índice IDA – Geral, que acompanha debêntures, também terminou o mês no vermelho, com queda de 0,71%, refletindo o mesmo movimento.O que virou a chave?O pano de fundo dessa reprecificação foi a escalada de tensões no Oriente Médio, que passou a mexer diariamente com as projeções de inflação e juros, tanto no Brasil quanto no exterior. Como esses dois fatores são essenciais para precificar ativos de renda fixa, o impacto foi direto.Até fevereiro, o cenário era outro. A expectativa de queda de juros e inflação favorecia esses títulos. O Tesouro IPCA+ 2050, por exemplo, acumulava alta de 5,07% apenas nos dois primeiros meses do ano. Mas a mudança no ambiente global inverteu esse movimento: só em março, o papel devolveu 6,49%, zerando o ganho no ano.O detalhe que o investidor não pode ignorarApesar das oscilações, há um ponto crucial: essas variações dizem respeito ao preço dos títulos no mercado, não à rentabilidade contratada.Para quem carrega o papel até o vencimento, a taxa acordada no momento da compra será integralmente paga. Em outras palavras, o caminho pode até ser turbulento, mas o destino permanece o mesmo.Como ficou o ranking de março InvestimentoRentabilidade no mêsRentabilidade no anoBitcoin+5,22%-26,82%Dólar PTAX+1,37%-5,13%Tesouro Selic 2031+1,23%+3,51%CDI+1,10%+3,41%Dólar à vista+0,87%-5,65%Poupança+0,67%+2,03%Ibovespa-0,70%+16,35%IDA – Geral-0,71%+2,01%Tesouro IPCA+ c/ JS 2037-0,79%—IFIX-1,06%+2,52%Tesouro IPCA+ 2032-1,09%—Tesouro IPCA+ c/ JS 2045-2,06%+1,05%Tesouro Prefixado 2029-2,43%+1,23%Tesouro IPCA+ 2040-2,50%+0,73%Tesouro IPCA+ c/ JS 2060-2,68%+1,08%Tesouro Prefixado c/ JS 2037-3,03%—Tesouro Prefixado 2032-3,82%+0,82%Tesouro IPCA+ 2050-6,49%+0,06%Ouro (GOLD11)-10,03%+2,10%(*) Até dia 30/03. (**) Poupança com aniversário no dia 27. (***) Títulos públicos começaram a negociar em fevereiro de 2026 e não tem histórico de um ano. Todos os desempenhos estão cotados em real. A rentabilidade dos títulos públicos considera o preço de compra na manhã da data inicial e o preço de venda na manhã da data final, conforme cálculo do Tesouro Direto. Fontes: Banco Central, Anbima, Tesouro Direto, Broadcast e Coinbase Inc..*Com informações do Seu Dinheiro