Empresas estão investindo milhões em tecnologia e descobrindo problemas que nunca tinham aparecido. A migração para a nuvem, a adoção de inteligência artificial e a automação de processos têm revelado falhas antigas que antes passavam despercebidas.Em entrevista à Jovem Pan Business, Roberto Medeiros, CEO da EPI-USE, afirma que o problema não está na tecnologia, mas na forma como ela vem sendo usada. “O software não é o objetivo. É só o meio”. Segundo ele, muitas empresas aceleram investimentos sem entender exatamente o que precisam resolver. Entram na corrida por inovação, mas mantêm processos desorganizados e dados inconsistentes. O resultado é desperdício.“Tem empresa pagando por cloud e não usando. Ou usando muito pouco. Isso é dinheiro jogado fora”, afirma Medeiros. Na prática, a tecnologia não corrige falhas. Ela expõe. “Quando você vai para a nuvem, você expõe os erros”. A automação elimina ajustes manuais e expõe inconsistências.Em muitos casos, o investimento sequer parte de um diagnóstico claro. “Qual é o motivo do investimento? Muitas vezes, ninguém sabe responder”. Em alguns casos, o impacto é imediato. Medeiros relata o caso de uma empresa que identificou distorções antigas ao modernizar o sistema de folha de pagamento. “Ela estava pagando errado há 30 anos. Quando o sistema novo entrou, isso apareceu na hora”, relata.Segundo ele, situações desse tipo não são comuns nesse nível, mas problemas menores são frequentes e costumam travar projetos ou aumentar custos. Muitas vezes, as empresas investem em tecnologia sem explorar todo o seu potencial. “É como pegar uma Ferrari e andar a 30 km por hora”. Mesmo assim, a corrida por tecnologia segue acelerada. “Todo mundo quer ir pra cloud. Mas poucos sabem explicar por quê”, diz.Para o executivo, muitas decisões são guiadas por tendência ou pressão interna, não por estratégia clara de negócio. Um dos principais entraves está nos dados. Bases desorganizadas dificultam a migração e podem comprometer todo o investimento. “Você pega um sistema que funciona há 10, 15 anos e leva para a nuvem. Quando chega lá, não passa nas validações”.A integração entre sistemas também aumenta a complexidade. Sem padronização, áreas diferentes operam com informações incompatíveis, o que amplia o risco de erro. Nesse cenário, um dos sinais de maturidade digital é quando a tecnologia deixa de ser o centro da discussão. “Se todo mundo está falando de IA, SAP, tecnologia… tem alguma coisa errada”.Para Medeiros, o ideal é que a tecnologia funcione como infraestrutura, quase invisível, sustentando o negócio sem ocupar o protagonismo. Ele afirma que o uso de inteligência artificial não elimina pessoas, mas muda o perfil dos profissionais mais valorizados. “Não é a IA que substitui a pessoa. É a pessoa que sabe usar IA que substitui quem não sabe”.Hoje, afirma, ainda há um desperdício relevante de potencial dentro das empresas, com profissionais qualificados dedicados a tarefas operacionais. “Muita gente boa está trabalhando muito abaixo do que poderia entregar”.Empresas que conseguem avançar de forma consistente seguem um caminho diferente. Primeiro organizam processos e dados, depois investem em tecnologia. Quando isso acontece, os resultados aparecem de forma direta na operação. “A tomada de decisão muda. Fica mais rápida, mais precisa”, finaliza.