Por Roger Corassa, vice-presidente executivo da OMODA & JAECOO BrasilA transição energética no setor automotivo deixou de ser apenas uma agenda de futuro para se tornar um movimento concreto no mercado brasileiro. Nos últimos anos, a eletrificação ganhou ritmo acelerado, impulsionada principalmente pela ampliação da oferta de veículos eletrificados, pela evolução tecnológica e pela entrada de novos protagonistas globais na indústria.Os números refletem essa mudança de forma clara. Em 2025, o Brasil registrou 223.912 veículos eletrificados vendidos, um crescimento de 26% em relação ao ano anterior, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Dentro desse universo, os modelos plug-in — elétricos e híbridos plug-in — já representam 81% das vendas de eletrificados, totalizando 181.542 unidades.Entre essas tecnologias, os híbridos plug-in (PHEV) assumem papel relevante na expansão do mercado, com mais de 101 mil unidades comercializadas, o equivalente a cerca de 45% do total de veículos eletrificados vendidos no país. Mesmo ainda em estágio inicial de adoção, os eletrificados já representam aproximadamente 9% das vendas totais de veículos leves no Brasil, sinalizando uma mudança consistente no comportamento do consumidor.Esse avanço não ocorre apenas por mudanças na demanda, mas também pela velocidade com que a indústria global tem sido capaz de inovar e escalar tecnologia. Nos últimos anos, fabricantes chineses consolidaram um ecossistema robusto de mobilidade eletrificada, com investimentos massivos em pesquisa e desenvolvimento, engenharia, baterias e integração da cadeia produtiva.A combinação entre inovação tecnológica e capacidade industrial de escala tem reduzido custos e ampliado a competitividade das novas plataformas eletrificadas. Esse movimento global permite que tecnologias que antes estavam restritas a nichos de alto valor se tornem gradualmente mais acessíveis, acelerando sua adoção em mercados-chave, como o Brasil.Mas, importante analisar que o avanço da eletrificação também dialoga com uma mudança cultural no comportamento do consumidor brasileiro. A busca por maior eficiência energética, novas experiências de condução e soluções de mobilidade mais inteligentes começa a ganhar espaço nas decisões de compra, especialmente à medida que a tecnologia se torna mais disponível e economicamente viável.Os híbridos plug-in, em particular, encontram um ambiente favorável nesse cenário. Ao combinar condução elétrica para trajetos urbanos com a autonomia do motor a combustão para longas distâncias, essa tecnologia oferece o melhor dos dois mundos para o País de dimensões continentais e infraestrutura de recarga ainda em expansão — são 12 mil pontos de carregamento instalados.Ao mesmo tempo, o avanço da eletrificação ocorre em um ambiente global marcado por transformações geopolíticas e por um cenário cada vez mais polarizado em termos industriais e tecnológicos. Ganha quem melhor investe em pesquisa e desenvolvimento para abrir soluções próprias e escalar produção em nível global. A eletrificação é fator global, não local, e se tornará elo decisivo para a competitividade das montadoras.Para mercados emergentes como o Brasil, essa dinâmica cria oportunidades importantes. A convergência entre inovação tecnológica, escala industrial e ampliação da oferta global permite acelerar a adoção de novas soluções de mobilidade e ampliar o acesso do consumidor à eletrificação.Em um mercado em transição, é plausível imaginar os PHEVs tão populares quanto os carros a combustão hoje. Mudanças de hábito podem acontecer mais rápido do que parecem. Há poucos anos, mais de 60% dos carros zero-quilômetro vendidos no Brasil eram manuais; hoje, cerca de 60% já são automáticos — uma transformação que ocorreu quase sem que o mercado percebesse. Guardadas as devidas proporções desta comparação, ainda estamos falando de mudanças cruciais no comportamento de consumo. Isso, ninguém pode prever.O post Eletrificação, escala industrial e a transformação do mercado automotivo brasileiro apareceu primeiro em Olhar Digital.