É a língua oficial em 67 países e amplamente falada noutros 27. Domina os negócios internacionais, a ciência, a tecnologia e o ensino superior, e continua a ser a principal língua da internet, representando mais de 60% dos conteúdos que são publicados online.Em suma, o inglês é a lingua franca global, e a capacidade de navegar neste mundo anglófono abre portas à educação, ao emprego e ao intercâmbio cultural.Mas eis a realidade: a maioria das pessoas que fala inglês fá-lo juntamente com outras línguas – apenas cerca de 388 milhões são falantes nativos, enquanto quase 1,93 mil milhões usam o inglês como língua adicional. O multilinguismo não é a exceção, é a regra.Em muitos países, é comum alternar entre línguas consoante o contexto: uma em casa, outra com amigos e ainda outra na escola. Os fluxos migratórios resultantes de conflitos e emergências climáticas tornam esta riqueza linguística cada vez mais visível em salas de aula que, antes, eram maioritariamente monolingues.No entanto, em vez de valorizar este recurso, muitos sistemas educativos continuam a pedir aos alunos que ignorem ou reprimam parte dos seus repertórios linguísticos, chegando mesmo a penalizá-los por os utilizarem em aula ou em exames decisivos. É uma prática ultrapassada que desperdiça um dos maiores recursos para a aprendizagem: a língua.Os benefícios de adotar uma abordagem multilingue no ensino e na aprendizagem – como a Aprendizagem Integrada de Conteúdos e Línguas (CLIL) – são inegáveis. O relatório The Future of Bilingual Education mostra que os alunos em programas bilingues têm maior autonomia, consciência intercultural e ambição global. 70,5% destes afirmam ver-se a estudar ou trabalhar no estrangeiro.Para além disso, o ensino multilingue promove o pensamento crítico, a criatividade e a capacidade de resolução de problemas, à medida que os alunos exploram conteúdos através de múltiplos enquadramentos linguísticos. Melhora a flexibilidade cognitiva e as funções executivas, que a investigação associa a um melhor desempenho académico e a uma maior capacidade de aprendizagem ao longo da vida.As abordagens multilingues também promovem o desenvolvimento socioemocional, a empatia e o respeito pela diversidade, criando salas de aula que refletem os valores da cidadania global. A par, preparam os alunos para uma melhor empregabilidade, com os aprendentes bilingues a reportarem maior confiança em conseguir empregos no estrangeiro e em construir redes internacionais.Para concluir, a educação multilingue não se resume à língua, ao dotar os alunos das competências, mentalidades e capacidade de adaptação necessárias para ter sucesso num mundo interligado.As evidências são claras: o futuro é multilingue. O relatório do British Council The Future of English: Global Perspectives afirma que “o futuro será inevitavelmente multilingue.” Ao mesmo tempo, o estudo What’s Changed in English Language Teaching? destaca a crescente adoção de práticas plurilingues e de translanguaging, que reconhecem o valor de todas as línguas presentes na sala de aula de inglês.Contudo, esta mudança mal se espalhou para além do ensino da língua inglesa e certamente não chegou à formação inicial de professores em muitos países. É aí que reside a urgência: precisamos de preparar todos os professores, não apenas os especialistas em línguas, para ensinar de formas que reflitam a realidade linguística dos seus alunos.Países como Portugal têm uma oportunidade única de liderar esta transformação. Ao integrar o CLIL como prática comum e valorizar os repertórios linguísticos dos alunos, podemos criar escolas mais inclusivas, inovadoras e alinhadas com as realidades globais. Iniciativas nacionais como o “Programa Escolas Bilingues”, através do qual o British Council e o Ministério da Educação oferecem formação, orientação e apoio às escolas para implementar o ensino bilingue desde o jardim de infância até ao 9.º ano (e em breve até ao 12.º ano), já estão a formar estudantes multilingues.Redes interuniversitárias como a Working CLIL apoiam projetos bilingues de base em várias escolas e estão na vanguarda da investigação. Organizações como a associação nacional de professores de inglês (APPI) oferecem oportunidades para os docentes partilharem e desenvolverem os seus interesses e competências em multilinguismo, em benefício de milhares de alunos em todo o país.O trabalho já começou e está em curso. O que é certo é que, num mundo em constante mudança, não basta ensinar línguas. Precisamos de ensinar através delas.Acredito ser desta forma que construiremos um sistema educativo que prepara cidadãos para viver, trabalhar e prosperar num futuro sem fronteiras.O conteúdo Para além do inglês: construir escolas para um mundo multilíngue aparece primeiro em Revista Líder.