A origem da invenção está em uma leitura casual e em uma realidade local negligenciada, marcada pela presença de microplásticos. Há alguns anos, Mia Heller encontrou um relatório sobre a qualidade da água em sua comunidade, em Warrington, Virgínia, e se deparou com um cenário preocupante: testes apontavam altos níveis de contaminação por PFAS e microplásticos. Sem recursos governamentais destinados à solução do problema, a responsabilidade recaiu sobre os próprios moradores. “Cabia às pessoas providenciarem seus próprios sistemas de filtragem”, diz Heller. Diante disso, seus pais optaram por instalar um sistema doméstico avançado de filtragem. No entanto, o custo e a necessidade de manutenção frequente, especialmente a substituição constante de membranas, chamaram a atenção da jovem. A partir dessa experiência, surgiram duas perguntas que orientariam seu projeto: seria possível filtrar água sem o uso de membranas? E mais: haveria uma forma de criar um sistema capaz de se autolimpar diante da presença crescente de microplásticos?Hoje, aos 18 anos e estudante da Kettle Run High School, Heller apresenta uma solução concreta para essas questões. O desafio que ela decidiu enfrentar é mais amplo do que se imagina. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) define microplásticos como partículas que variam entre um nanômetro e cinco milímetros. Essas partículas já foram identificadas em cerca de 1.300 espécies, incluindo seres humanos. Estudos apontam sua presença em diferentes partes do corpo, como tecido cerebral, ossos, testículos, sêmen e até placentas. Desde 1990, a ingestão de microplásticos por organismos aumentou seis vezes. Uma pesquisa realizada em 2025 pela Universidade do Novo México revelou um crescimento de 50% na concentração de microplásticos no tecido cerebral humano em menos de dez anos. Matthew J. Campen, toxicologista da instituição e coautor do estudo, afirma que há indícios de possíveis relações com doenças cardiovasculares e neurológicas, embora ainda não haja conclusões definitivas. “Ainda existem muitas dúvidas sobre se esses plásticos estão realmente afetando nossa saúde neste momento”, disse Campen.Microplásticos vistos em microscópio. | Foto: Julian Eckert | HSWTApesar das incertezas sobre os impactos diretos, há um consenso:o acúmulo dessas partículas no organismo humano está aumentando de forma significativa, e a água potável é uma das principais vias de exposição. Foi nesse contexto que Heller iniciou, em 2024, o desenvolvimento de sua proposta. No início do ano seguinte, ela já contava com um protótipo funcional, construído a partir de testes realizados em casa, entre a garagem e a cozinha. O elemento central da tecnologia é o ferrofluido, um óleo magnético capaz de se ligar seletivamente às partículas de microplástico conforme a água circula pelo sistema.O dispositivo, atualmente com dimensões semelhantes às de um saco de farinha, opera por meio de três módulos, um para armazenar a água contaminada, outro dedicado ao ferrofluido e um terceiro, menor, responsável pela filtragem em si. “Um campo magnético extrai os microplásticos da água, e o ferrofluido é recuperado e reutilizado em um circuito fechado”, explica Heller. Esse circuito fechado representa um avanço importante em relação às versões iniciais do projeto. O primeiro modelo criado pela estudante já conseguia filtrar a água, mas exigia reposição constante do ferrofluido. Após cinco repetições, o sistema passou a reciclar o material de forma autônoma.Para avaliar a eficácia do filtro, Heller desenvolveu um sensor capaz de medir a quantidade de sólidos em suspensão na água tratada. Segundo seus dados, o protótipo consegue remover 95,52% dos microplásticos, além de recuperar 87,15% do ferrofluido utilizado. Em comparação, sistemas tradicionais de tratamento de água potável apresentam eficiência entre 70% e 90% na remoção dessas partículas. “O resultado é um sistema de filtragem acessível e com baixo desperdício, sem a necessidade de uma membrana sólida”, afirma Heller. Leia também: 1.Embalagens são fontes diretas de microplásticos em alimentos 2.Solos agrícolas têm 23 vezes mais microplásticos do que os oceanos A proposta já começa a chamar atenção da comunidade científica. Campen descreveu o projeto como uma “ideia realmente genial” e destacou que a jovem está “fazendo algo que precisa ser feito”. Ainda assim, ele aponta desafios que precisam ser superados antes de uma aplicação mais ampla. É necessário comprovar que o sistema elimina completamente os microplásticos capturados, sem gerar novos resíduos, e verificar sua viabilidade em escala maior, para além do uso doméstico.Por ora, a própria Heller enxerga sua invenção como uma solução voltada para residências, instalada sob a pia. Um dos principais entraves para expansão é o custo de produção do ferrofluido em larga escala, o que inviabiliza, neste momento, sua adoção em sistemas municipais. No ambiente doméstico, o protótipo tem capacidade de filtrar aproximadamente um litro de água por vez, desempenho semelhante ao de filtros comerciais. O trabalho da estudante já rendeu reconhecimento. Ela foi finalista da Feira Internacional de Ciência e Engenharia Regeneron de 2025, considerada a maior competição científica para alunos do ensino médio no mundo, onde recebeu um prêmio de US$ 500 concedido pela Sociedade do Escritório de Patentes e Marcas Registradas. A próxima etapa do projeto envolve a validação independente dos resultados obtidos. “Eu adoraria lançá-lo no mercado eventualmente”, diz ela. “Acho que seria algo realmente interessante.” The post Filtro desenvolvido por estudante retém microplásticos appeared first on CicloVivo.