Foto: Criada via Chat GPTO grupo escolar ficava do outro lado da linha férrea, onde era o antigo SESI, e a maioria dos alunos morava do lado de cá da linha. As cidades da região noroeste se desenvolveram após a construção da Estação de trem, era um marco civilizatório, e Mirandópolis não fugiu à regra. Acontece que durante a construção da Estação houve uma polêmica sobre de que lado deveria ficar a frente da Estação. Algumas pessoas influentes queriam de um lado e outras de outro lado.Segundo meu pai, mudou-se umas duas ou três vezes a direção da frente da Estação, durante a sua construção. A explicação para este fato é que as cidades sempre se desenvolviam e cresciam do lado da frente da Estação. Era deste lado que havia o comércio com seus bares, farmácias, bazares, quitandas e casas residenciais. A Estação e a estrada de ferro eram o marco divisório da cidade – do lado de lá e do lado de cá da linha. Mirandópolis foi contra todos os prognósticos, desenvolveu-se do lado dos trilhos, do lado de cá.Eu tinha sete anos e a maior preocupação da minha mãe e de outras mães também, era termos de atravessar os trilhos para ir à escola, do lado de lá. Todos os dias a recomendação era a mesma: não passe por baixo do trem, dê a volta. Dar a volta ficava muito longe, os trens de cargas eram enormes, com muitos vagões. Não havia ainda o “buraco do Savero”.Desobedecíamos e acabávamos passando por baixo. As vezes levávamos sustos enormes, pois quando estávamos passando a locomotiva soltava um apito atemorizante e começava a se locomover. Todos os dias tinha trem de carga. O meio de transporte era aquele. O pátio da estação ficava cheio de carroças que traziam as produções dos sitiantes, café para o porto de Santos, bananas das chácaras do Cristovão Leal e do Bento Guilherme, que iam para o Ceasa de São Paulo.Atravessávamos e ficávamos vendo toda a movimentação. Os trens transportavam de tudo: de pessoas a animais; de alimentos a móveis; de correspondências e jornais a rolos de filmes e materiais de construção. Vinham toras de madeira para as serrarias e os fazendeiros transportavam o gado para os frigoríficos. Os vagões com o gado, chamados de gaiolas, tinham um cheiro muito forte, pois os animais ficavam muitos dias presos nestes compartimentos.As vezes íamos até à Estação e ficávamos admirados com a recepção e transmissão dos telegramas, pelo funcionário encarregado. Era o código Morse: traço, ponto traço, traço traço, ponto. Não precisava de provedor e nem de banda larga.Os trens de passageiros passavam duas vezes pela cidade. De manhã vinham da Bolívia, via Mato Grosso, iam até Bauru onde os passageiros faziam baldeação para São Paulo pegando o trem da paulista de “bitola” larga. A tarde fazia o caminho de volta. Nestes horários, principalmente a tarde, a cidade parava, todo mundo ia à estação, era quase um acontecimento social, com mulheres e homens colocando suas melhores roupas, as de ir à missa. Até as putas iam à estação. Chegavam de charrete, com seus vestidos colantes, suas pinturas fortes e de sombrinhas. Ficavam num canto, riam alto, davam gargalhadas, chamavam a atenção de todos.As mulheres de “bem” olhavam de rabo de olho, erguiam o queixo e murmuravam: o que elas querem aqui? Devia ser proibido certas pessoas frequentarem lugares públicos. Algumas destas mulheres eram aquelas que não viam a hora do marido ir para o carteado no Clube e poderem receber seu amante em casa.Os homens, muito sérios, arriscavam a dar uma piscada ou disfarçadamente cutucar o amigo. Logo mais a noite deixariam a “patroa” em casa, ouvindo a radionovela “o direito de nascer”, com Vida Alves, e com a desculpa que ficou serviço para fazer ou a de que tinham uma reunião política, desciam para a zona do meretrício, para a casa da dona Neguinha, onde tinha as melhores mulheres, tinha até uma japonesa.A molecada corria de um lado para o outro. O chefe da estação batia um sino, sinal que o trem já havia partido de Lavínia ou Machado de Melo. Corríamos para ver o trem lá longe, as mães preocupadas diziam: fica perto de mim, vai cair debaixo do trem. O trem chega, a locomotiva resfolegando, soltando fumaça. Abraços, sorrisos, amores que se encontram, amores que irão partir.A molecada correndo, as mães preocupadas, os vendedores atendendo os passageiros e gritando: pastel, olha o pastellll, quem vai querer?!Mãe eu quero pastel. Que pastel, que nada, vai comer em casa. Em casa não tem comida. Não fala isto moleque que te quebro os dentes, em casa a gente conversa.O chefe da Estação assopra um apito, a locomotiva solta um silvo. O trem vai partir. É hora das últimas despedidas. Boa viagem, vai com Deus, não esqueça de escrever, uma lágrima rola. A alegria da chegada dá lugar à tristeza da partida. Saudades que vão, saudades que ficam.Acabou a festa. O pessoal desce para suas casas, para seus afazeres. A cidade volta ao normal.E lá vai o trem:-cafécompão… cafécom pão…cafécompãomanteiganão…cafécompão.*Ademar Bispo da Silva, nasceu em 1945, em Mirandópolis. Suas lembranças da infância são das brincadeiras na rua São João, já na juventude as recordações são voltadas ao futebol. Em Mirandópolis trabalhou como professor e depois bancário, profissão em que se aposentou em Araçatuba.O post Artigo: a estação de trem, por Ademar Bispo apareceu primeiro em AGORA NA REGIÃO.