Diretor da fabricante do Ozempic fala sobre comprimido no Brasil e negociação com SUS

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Há poucos dias, a patente do princípio ativo do Ozempic, Wegovy e Rybelsus, medicamentos indicados para o tratamento de diabetes e obesidade, chegou ao fim no Brasil. Com a medida, abre-se a possibilidade da produção de genéricos para as mesmas drogas, revolucionárias no tratamento das duas doenças. Em meio a essa mudança de cenário, o diretor-geral da empresa no Brasil, Allan Finkel, afirma que “a patente da semaglutida não significa o futuro da empresa” e que a multinacional manterá seus planos no país. Há, por exemplo, o plano de investir R$ 6 milhões na planta fabril em Montes Claros (MG) e a expectativa para a chegada de versões em maior dosagem e em comprimidos para o Wegovy. Leia tambémObesidade: entidade atualiza diretriz com indicação inédita de canetas emagrecedorasAté então, orientações referentes ao uso de remédios apareciam apenas como um capítulo dentro de outros documentos que orientam o tratamento da obesidadeEm entrevista exclusiva ao GLOBO, a primeira desde a queda da patente, o executivo falou sobre novas pesquisas para medicamentos de obesidade, da segunda tentativa de que a droga seja incorporada ao SUS e do uso a longo prazo do medicamento, uma vez que a obesidade é uma doença crônica.O Brasil é um dos principais mercados da Novo Nordisk. A queda da patente muda a presença aqui?Os investimentos vão continuar fortes no Brasil. Vamos investir na nossa fábrica de Montes Claros (MG) cerca de R$ 6 bilhões. Esse é o maior exemplo em que estamos no Brasil para ficar. Estamos falando de uma empresa dinamarquesa que completou mais de 100 anos de existência. No Brasil, nós já estamos há mais de 30 anos. Ou seja, passamos por várias situações onde tinha patente, onde não tinha. Investimos em pesquisa e desenvolvimento, com alto risco. Nós estamos falando de 10, 5, 10 mil moléculas para apenas uma ir ao mercado (e depois) podemos usufruir desse momento de patente,para poder retornar esses investimentos. Esse é o processo natural.Quais novos medicamentos para obesidade vocês estão desenvolvendo?Temos vários estudos. Por exemplo, com a Cagrisema, temos Amicretina, temos versões orais do próprio Wegovy (solução da semaglutida para obesidade), que recentemente lançamos nos Estados Unidos.Tem muita coisa, é um mercado muito grande com uma parcela da população pouco tratada. Esperamos trazer mais inovação e acesso. É importante qualificar um pouco a obesidade. No Brasil, mais de 65% da população tem sobrepeso ou obesidade. É uma doença crônica, uma epidemia. Sabemos as consequências disso, com efeito em outras doenças (complicações) cardiovasculares, diabetes, câncer. A quantidade de pacientes que são tratados (com obesidade e sobrepeso) é de cerca de 1%.Ou seja, a oportunidade e o trabalho são grandes.É um futuro de drogas melhores que as já existentes?O objetivo de todos que estão pesquisando e da Novo é trazer moléculas que sejam mais efetivas, com menos efeitos colaterais, com uma posologia mais agradável. Então, a gente tinha (uso) diário. Hoje nós temos semanal. Já melhorou muito. E queremos que tenha outros benefícios que não sejam somente a perda de peso. Porque acho que é importante o paciente entender que uma parte é a perda de peso, mas há muita coisa por trás. Esse paciente tem maior incidência de doenças cardiovasculares. Diabetes, câncer. Enfim, está ligado a muitas outras coisas. Então, acho que tem que olhar isso de uma maneira um pouco mais holística do que só aqueles 1 ou 2 ou 3 pontos percentuais na perda de peso (que diferenciam os medicamentos). São 200 doenças associadas.O FDA (agência reguladora dos Estados Unidos) aprovou a dose máxima de 7,2 mg de Wegovy, além da versão em comprimido dessa droga. Já pediram aval da Anvisa para essas soluções?Para ambos. A da dose maior deve sair antes do que o comprimido, por conta da maneira que é feita a submissão. O comprimido submetemos recentemente, após a aprovação dos EUA (em dezembro de 2025). Tem pacientes que preferem o injetável,tem pacientes que preferem o comprimido. Ao dar mais uma opção, você amplia para que mais pacientes busquem o tratamento. A eficácia (da versão oral) foi exatamente a mesma, foi comprovada nos estudos. E o lançamento nos EUA ampliou o mercado, então há pacientes que preferem a versão oral. Abre-se mais uma oportunidade. A Anvisa, inclusive, tem cumprido prazos. Tudo dentro do cronograma esperado e os técnicos precisam de tempo.Qual o horizonte para que cheguem?O Wegovy com 7,2 mg acreditamos que ainda esse ano e o comprimido imaginamos para o ano que vem. Mas é importante salientar que a Anvisa tem sido séria e rápida, fazendo as avaliações necessárias.É possível que o tratamento de obesidade ocorra em um “ataque” dos injetáveis e depois o controle crônico com pílulas?Acho que primeiro você tocou num ponto em que a obesidade é uma doença crônica. Ela precisa ser tratada como uma doença crônica. A forma de utilização, acredito, fica na mão do médico. É o médico que entenderá o paciente e verá qual sua necessidade. Os estudos mostram segurança do tratamento a longo prazo. Sabemos que o tratamento a longo prazo da semaglutida se mostra eficaz. Mas como administrá-lo? É injetável? Oral? Enfim. Aí é uma decisão do médico entendendo a necessidade do paciente.Há planos de uma nova submissão ao Conitec, a comissão que decide o que será incorporado ao SUS?Fizemos uma primeira submissão ao Conitec que não foi aceita. Há uma preparação para uma nova submissão, porque acreditamos que o Brasil pode se beneficiar tendo esses produtos incorporados. Estamos desenhando o pedido para uma população específica, não temos ainda o desenho final. É uma solução que precisa ser mutisetorial e multifatorial. O medicamento é parte da jornada do tratamento.Houve uma mudança no modelo de submissão para o SUS ou os humores do país que se alteraram?Acho que é tudo. Desde que enviamos o documento até agora tornou-se mais conhecida a necessidade de se tratar a doença. Ajustamos também algumas questões de população (que receberia o medicamento), mas ainda não está fechada essa informação. Nos beneficiamos do fato de que a obesidade se tornou mais conhecida como doença crônica e há uma intenção de se tratar.É considerada uma revisão de preço, já que o parecer anterior do Conitec indicou o custo como componente decisivo?Estamos dispostos a trabalhar em parceria para contribuir com a ampliação do acesso às nossas inovações.E sobre outras soluções de acesso…Ano passado tivemos uma redução de preço do Wegovy e em 2026, esse mês, estamos com outro programa no qual o paciente na compra de uma caneta de Wegovy ganha uma caneta de 0,25 mg (normalmente usada para começar o uso do medicamento ou retomar em caso de interrupção das dosagens). Essa caneta precisa ser prescrita, não é uma amostra grátis. Estamos cada vez mais olhando como oferecer esse medicamento ao paciente. Tem também a parceria com a Eurofarma, lançando duas marcas, Poviztra e Extensior. Eles vão a lugares onde não vamos. Eles têm uma penetração muito maior. Então é pra que a gente tenha esse medicamento disponível em mais lugares, para o maior número da população.Como funciona a parceria com a Eurofarma?Hoje eu tenho um limite de número de médicos que eu visito, de número de farmácias em que eu consigo estar presente. A Eurofarma é muito maior. Então a semaglutida biológica está presente em 100% das farmácias no Brasil. Seja através do Ozempic ou do Wegovy, seja através do Poviztra ou Extensior. Então esse é o objetivo da negociação.A impressão que dá é que todas as peças desse tabuleiro, do uso desses medicamentos, estão mudando de lugar.A partir do momento em que eu tenho 1% da população utilizando, tem espaço pra muita gente beneficiar-se nas diferentes classes sociais do Brasil. Seja no reembolso público, seja em pacientes que pagam.Então eu acredito muito na expansão do processo.Como vai ocorrer, acho que é uma dinâmica de mercado.Acha que essa mudança de patente muda o mercado como um todo?Difícil eu falar pelos outros. A patente da semaglutida não significa o futuro da empresa. Estamos falando de uma empresa de 100 anos. Tem muito o que vir, muito estudo para acontecer, vamos aprender a navegar nos preparando para o futuro.The post Diretor da fabricante do Ozempic fala sobre comprimido no Brasil e negociação com SUS appeared first on InfoMoney.