SXSW e a pergunta que não quer calar: o que a tecnologia está fazendo com a gente?

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Eu não fui ao SXSW deste ano, mas sei que já faz um bom tempo que o evento não está mais lá essas coisas quando o assunto é inovação. O antropólogo Michel Alcoforado, autor do excelente Coisa de Rico, que foi convidado a participar, comentou no Instagram: “A expectativa sobre a apresentação de uma ideia grande, acachapante e revolucionária é coisa do passado. Ela mora no coração dos nostálgicos e nos livros de história”.Pois é. O mesmo evento que já lançou Uber, Twitter e Airbnb hoje virou um espaço de gente tentando entender o que já aconteceu. Pelo que deu pra acompanhar mesmo de longe, uma pergunta começou a aparecer com mais força do que qualquer novidade tecnológica: o que a tecnologia está fazendo com a gente?Eu olhei pra essa pergunta a partir do trabalho, pois esse é, curiosamente, o meu trabalho. E, claro, também porque acredito que no trabalho a tecnologia se instala com muita força: reorganizando rotinas, redefinindo expectativas e passanod a mediar boa parte da nossa experiência cotidiana.Durante anos, a incorporação da tecnologia no trabalho foi guiada por uma lógica clara: mais produtividade, mais escala, mais eficiência. As perguntas em cima dessa intersecção eram operacionais: como fazer mais com menos? (que atire uma pedra quem nunca ouviu ou disse essa frase). Mas agora começa a aparecer uma outra camada, mais difícil de medir e de lidar: quais as consequências dessa forma de trabalhar?Porque tem um ponto que ainda incomoda muita gente quando aparece, mas a gente tem que lembrar constantemente: não existe essa separação clara entre vida pessoal e vida profissional. A pessoa não chega no trabalho como uma versão editada de si mesma, à lá Ruptura. Ela chega com tudo junto: cansaço, filho, boleto, desejo, dúvida, falta…Freud, no livro O Mal-Estar na Civilização, já apontava que não há vida em sociedade sem renúncia pulsional (leia-se: uma espécie de motor energético psíquico). Para que o coletivo exista, algo do sujeito precisa ser contido e organizado. E o trabalho é um dos principais operadores disso. Ele organiza o tempo, dá direção à energia psíquica e oferece, quando tudo vai bem, um lugar de reconhecimento e pertencimento. Mas essa equação nunca foi estável. Há sempre um resto de mal-estar que precisa ser elaborado. (É por isso que é bom fazer análise).Só que aí a gente resolveu colocar tecnologia no meio dessa equação já complexa da vida psíquica. E tudo ficou mais complicado ainda, porque a tecnologia acelera tudo, aumenta acesso e atravessa fronteiras. Junta tudo no mesmo lugar: cobrança, alegria, satisfação, medo e ainda tira algumas coisas importantes do caminho também, tipo aquelas tarefas que, curiosamente, eram onde muita gente aprendia a trabalhar - algo muito importante para o desenvolvimento de carreira. Lembram que eu falei disso na minha última coluna?O resultado é que sim, ganhamos eficiência em certa medida, mas agora temos outra experiência de trabalho. E aí aparece um ponto que o SXSW, talvez sem querer, ajudou a escancarar: a tecnologia avançou mais rápido do que a nossa capacidade de reorganizar o trabalho a partir dela.A gente mudou muita coisa no dia a dia, mas não mexeu direito no resto. O limite continua confuso, pausa virou luxo, reconhecimento virou métrica meio vazia e a sensação geral é de que a gente nunca vai dar conta. Vamos lembrar alguns dados? O Brasil já figura entre os países com maior índice de ansiedade no mundo segundo a Organização Mundial da Saúde. Levantamentos da Associação Nacional de Medicina do Trabalho indicam que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com burnout, enquanto pesquisas recentes mostram que a maioria relata sintomas frequentes de exaustão, mesmo sem diagnóstico formal.Ou seja: tá todo mundo cansado pra caramba e talvez por isso a pergunta que reverberou do SXSW não tenha sido: “qual é a próxima grande coisa?”, mas “onde vai parar a nossa Saúde Mental com tantas grandes coisas?". Está mais que na hora de nos aprofundarmos nas respostas e, obviamente, pensarmos em soluções.