O crescimento global dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista tem transformado não apenas o acesso ao cuidado, mas também a forma como o autismo é compreendido por famílias, profissionais de saúde e pela sociedade. Com mais pessoas identificadas dentro do espectro, aumenta também a procura por especialistas, terapias e informações, ao mesmo tempo em que se intensifica o debate sobre os limites e a precisão do próprio diagnóstico.Mais diagnósticos, novas demandasNos últimos anos, a ampliação dos critérios diagnósticos e o maior acesso à informação têm contribuído para que sinais antes negligenciados sejam reconhecidos mais cedo. Esse movimento é um avanço, especialmente por possibilitar intervenções precoces e maior inclusão. Por outro lado, ele também levanta questionamentos importantes dentro da comunidade científica.A discussão ganhou tração recentemente após declarações da psicóloga britânica Uta Frith, uma das principais referências no tema. Em entrevista recente ao jornal The Times, ela afirmou que o conceito de espectro pode ter sido ampliado além do que é clinicamente útil, reacendendo um debate que acompanha o campo há anos.Na prática, o aumento dos diagnósticos tem impacto direto no sistema de saúde e na rotina das famílias. O mais recente Censo do IBGE aponta que mais de 2,4 milhões de brasileiros estão no espectro autista. No entanto, sabemos que há subnotificação, e esse número tende a ser maior. Com mais crianças, adolescentes e adultos sendo identificados dentro do espectro, cresce a demanda por avaliações especializadas, acompanhamento terapêutico e orientação profissional.Esse cenário também evidencia um ponto central: o diagnóstico, por si só, não dá conta da complexidade do autismo. Não é possível tratar o espectro como um bloco único. Pessoas com perfis diferentes precisam de estratégias completamente diferentes, tanto na abordagem quanto na intensidade e nos objetivos.A maior conscientização tem levado famílias a buscar ajuda mais cedo, o que estimula o diagnóstico precoce, importantíssimo no TEA, mas também tem ampliado a heterogeneidade dos casos diagnosticados, reunindo sob o mesmo rótulo perfis bastante distintos.O desafio da precisão em um espectro amploÉ preciso entender como essa amplitude pode ser organizada de forma mais adequada, tanto para quem pesquisa quanto para quem está na ponta, atendendo pacientes. Quando perfis cognitivos e comportamentais muito diferentes são agrupados, os dados científicos podem se tornar mais difíceis de interpretar, o que impacta diretamente o desenvolvimento de intervenções mais eficazes.Com o aumento da demanda por atendimento, cresce também a necessidade de modelos mais precisos e personalizados. Isso envolve ir além do diagnóstico e considerar aspectos cognitivos, sensoriais e comportamentais específicos de cada paciente. Durante muito tempo, o setor se organizou em torno da quantidade de horas de terapia. Mas a pergunta mais importante é: quais habilidades estamos desenvolvendo e como medimos esse avanço?Quando o foco sai das horas e vai para os resultadosNa prática, isso significa estruturar planos terapêuticos mais direcionados, sem excesso de horas, com objetivos claros e acompanhamento contínuo. Além disso, o uso de tecnologia tem permitido acompanhar a evolução das crianças de forma mais contínua, ampliando o envolvimento das famílias no processo terapêutico. Com mais visibilidade sobre o progresso, os responsáveis passam a lidar melhor com as incertezas que costumam marcar esse tipo de acompanhamento.O aumento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista tem sido, sobretudo, um avanço. Ao identificar mais pessoas dentro do espectro, amplia-se a possibilidade de compreender melhor suas características, acessar acompanhamento adequado e construir caminhos mais consistentes para qualidade de vida e desenvolvimento.Ao mesmo tempo, esse movimento tem impulsionado uma transformação importante no debate sobre o autismo. O desafio agora é fazer com que o diagnóstico não seja apenas um ponto de chegada, mas um ponto de partida capaz de orientar intervenções mais precisas e alinhadas às necessidades de cada indivíduo.Thalita Possmoser – CRP 06/131704Psicóloga e Vice-Presidente Clínica da Genial Care