Os Estados Unidos não precisam do petróleo venezuelano porque hoje é um país autossuficiente e o interesse americano na região está mais relacionado a potências disputando influência do que a justificativa declarada de facilitar o retorno da grandes companhias petrolíferas estrangeiras na Venezuela. A opinião é do especialista em energia David Zylbersztajn, pesquisador e professor da PUC-RJ.Zylbersztajn, que foi o primeiro presidente da Agência Nacional do Petróleo, foi convidado do InfoMoney Entrevista. Na conversa, ele relativizou o impacto de um (ainda incerto) retorno da Venezuela ao jogo global do petróleo e lembrou que o mercado hoje está sobreofertado, com a oferta crescendo mais que a evolução da demanda, o que reflete em preços amenos.Ele também analisou possíveis impactos nos preços internacionais e nos negócios da Petrobras, não só por conta da crise na Venezuela, mas também pela repressão no Irã contra manifestantes – que tem gerado ameaças de Trump sobre algum tipo de intervenção militar.Leia também: 57,7% dos venezuelanos aprovam ação militar de Trump no país, aponta AtlasIntelE comentou ainda sobre como essas novas disputas por combustíveis fósseis podem atrasar o processo de transição energética.Veja abaixo alguns destaques do InfoMoney Entrevista com David Zylbersztajn:É o petróleo mesmo?Ao avaliar a operação militar dos EUA na Venezuela e a constante ameaça de algum tipo de intervenção americana no Irã, o professor observou que o setor de petróleo é uma questão agregada a um interesse maior, que é a disputa por zonas de influência pelas grandes potências.“Primeiro, era a questão do narcotráfico, e depois da captura do presidente da Venezuela, foi explicitada a questão do petróleo. Eu entendo que nesse movimento dos Estados Unidos de retirada do Maduro, ele formalmente focou no petróleo, mas na prática teve um impacto em termos de dominância e de influência”, destacou Zylbersztajn.Um dos motivos é os EUA são autossuficientes e não precisam hoje ir buscar petróleo fora do seu território, uma situação que ele considerou até atípica em relação à história.Nesse ponto, o ex-diretor da ANP também destacou o mundo hoje está sobreofertado em petróleo. “Nós temos hoje um crescimento de oferta maior que o crescimento da demanda, o que se reflete, por exemplo, na queda dos preços petróleo — que no ano passado chegou a quase 20%”, explicou.“Hoje, se você pegar nos últimos 15 anos e atualizar pela inflação em dólar, tem um petróleo que é quase praticamente a metade do preço em termos reais. É uma situação em relação a um mercado muito confortável”, comparou.Assim, um retorno ainda que lento da produção tanto na Venezuela como no Irã, caso as sanções econômicas sejam retiradas ou suavizadas, pode não trazer tanto impacto no curto prazo, exatamente pela demanda global. “O mercado não está sedento, não tem sede de petróleo. Pelo contrário, os preços da commodity estão demonstrando isso. Então, o Irã entrando, vai entrar numa situação que não é das melhores do mercado”, reforçou.Leia também: Trump publica montagem em que aparece como ‘presidente interino’ da VenezuelaReservas gigantes, mas custo altoSobre o fato de a Venezuela ter as maiores reservas de petróleo do planeta, o que em tese explicaria o maior interesse externo, Zylbersztajn fez algumas ponderações. “A gente fala que as reservas da Venezuela são as maiores do mundo. Provavelmente sim, mas primeiro a gente tem um problema de qualidade, que faz com que o preço do petróleo da Venezuela seja mais caro do que a média mundial. E dentro do conceito econômico de reservas, a gente tem que reavaliar o volume efetivo dessas reservas, ao preço do petróleo atual”, disse.O professor da PUC-RJ explicou ainda que reserva de petróleo é conceito mais econômico mais do que físico. “Se a gente encontrar petróleo na praia de Ipanema e se for um petróleo a 500 dólares o barril, a gente não tem petróleo na praia de Ipanema”, explicou.Outros interessesPor esses motivos, o especialista reforçou na entrevista ver um movimento dos EUA para tentar espalhar seus concorrentes para fora da região. Ele disse ver, por exemplo a China com um interesse muito mais estratégico do que econômico na Venezuela. “As empresas chinesas não necessariamente transacionam petróleo, elas buscam petróleo para a economia chinesa.”“Tem o lado estratégico também de ter uma reserva por muito tempo, mesmo a um petróleo mais caro. Os chineses fazem conta diferente do que a gente: eles usam petróleo mais como insumo do que como uma commodity. Se você pensar nas reservas [da Venezuela] como uma commodity, boa parte delas talvez sejam inviáveis. Se você pensar como insumo estratégico, elas ganham outros valores”, explicou.No geral, ele também destacou que a China tem uma estratégia de dominância econômica e não militar na América Latina, o que pode ser claramente observado em países como Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Peru, por exemplo.Já russos, cubanos e iranianos exploram outros tipos de influência, conforme lembrou Zylbersztajn, que citou o fornecimento de armas produzida na Rússia para a Venezuela, a grande presença militar de Cuba desde a época de Hugo Chávez no país – explicitada agora, com as mortes de vários militares cubanos no ataque americano. Sobre o Irã, o professor citou as denúncias sobre o país sul-americano ter se tornado praticamente uma base de proteção a grupos terroristas do Oriente Médio, como o Hezbollah.The post Interesse de EUA na Venezuela é mais por influência do que petróleo, diz Zylbersztajn appeared first on InfoMoney.