Desistir ou deixar de insistir

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Ao longo da vida profissional fomos ouvindo que insistir era virtude. Que a resiliência se media em resistência prolongada, em capacidade de aguentar mais uma reunião inútil, mais um processo desalinhado, mais uma tentativa de convencer quem já decidiu que não quer ser convencido. Insistir era sinal de carácter. De compromisso. De “vestir a camisola”, mesmo quando a camisola já cheirava a mofo e ninguém parecia interessado em lavá-la.Mas há um momento, aquele que que não vem com manual nem notificação no Outlook, em que insistir deixa de ser coragem e passa a ser teimosia. Não aquela teimosia romântica, quase poética, de quem acredita contra todas as probabilidades, mas a outra, a teimosia cansada, que consome energia, tempo e lucidez. A que nos prende mais ao ego do que ao propósito.Deixar de insistir não é abdicar de valores, nem de ambição, nem de acreditar em caminhos. É perceber que nem todos os caminhos se fazem no mesmo lugar, com as mesmas pessoas ou dentro da mesma estrutura. É reconhecer que há contextos que não estão disponíveis para a mudança, por mais bem-intencionada que ela seja. E que continuar a empurrar não torna a parede uma porta.Em ambientes empresariais complexos, cheios de camadas, interesses, egos e processos que existem mais por tradição do que por utilidade, esta aprendizagem é particularmente dura. Trabalhar com muitas pessoas exige não levar tudo para o lado pessoal, mesmo quando tudo parece pessoal. Exige perceber que nem todas as recusas são rejeições e que nem todas as resistências são ataques. Muitas vezes são apenas limites do sistema. E o sistema, como sabemos, raramente pede desculpa.Há também um lado silencioso desta aprendizagem: o cansaço. Aquele que não se confessa em reuniões de alinhamento nem aparece nos relatórios de desempenho. O cansaço de acreditar sempre. De tentar sempre mais uma abordagem, mais uma explicação, mais uma esperança. A resiliência é uma qualidade admirável, mas não é inesgotável. E fingir que é só leva a um desgaste lento, elegante por fora, devastador por dentro.Aprender a deixar de insistir é, muitas vezes, aprender a largar para continuar a ver. Ver de outra forma. Ver de fora. Ver com menos ruído emocional. É aceitar que algumas batalhas não são nossas para ganhar, e que isso não invalida tudo o que acreditamos ou defendemos. Pelo contrário. Preserva-nos.Não se trata de desistir do propósito. Trata-se de não o confundir com um único cenário possível. Quem acredita verdadeiramente nas coisas, nas ideias, nas pessoas, no impacto, percebe, mais cedo ou mais tarde, que o propósito é maior do que o contexto que o limita. E que insistir no lugar errado pode ser a forma mais eficaz de adiar aquilo que realmente importa.Hoje, deixar de insistir já não dói como doía. Não porque tenha deixado de custar, mas porque deixou de significar fracasso. Tornou-se uma escolha consciente, profissional, adulta. Uma forma de seguir sem ressentimento, sem dramatização, sem necessidade de provar nada a ninguém.Nas organizações, talvez precisemos de normalizar isto. Aceitar que parar também é uma competência. Que mudar de abordagem não é incoerência. Que largar não é perder. Às vezes, é a única forma de continuar inteiro, lúcido e disponível para aquilo que ainda vale a pena construir.Desistir e deixar de insistir não são a mesma coisa. E está tudo bem em saber a diferença.O conteúdo Desistir ou deixar de insistir aparece primeiro em Revista Líder.