Telescópio de raios X da Nasa flagra anã branca vampirizando outra estrela

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No que pode ser considerado um marco na história da astrofísica de alta energia, a Nasa anunciou recentemente que seu IXPE — um observatório espacial que orbita a 600 km de altitude sobre a linha do Equador — conseguiu registrar, pela primeira vez, a polarização da luz de raios X proveniente de uma anã branca.Até agora, o estudo de anãs brancas — o estágio final da vida de estrelas de massa baixa a média (como o nosso Sol) — dependia quase exclusivamente da análise do brilho e da energia da luz emitida. Mas essas medições ofereciam uma visão limitada, pois quantificavam apenas a intensidade e a distribuição energética da radiação. Leia mais Nasa divulga imagem do maior iceberg do mundo à beira do colapso; veja Tubarões da Groenlândia vivem 400 anos e enxergam bem; estudo descobre como Somos poeira de estrelas? Estudo revê como a vida chegou aqui Ao limitar a observação apenas ao brilho e à cor da luz, os cientistas obtinham dados sobre a temperatura e a potência da estrela, mas perdiam os registros físicos que revelam sua forma e sua estrutura. Por estarem a distâncias imensas da Terra, essas estrelas mortas aparecem nos telescópios comuns como pontos de luz sem dimensão ou forma.Segundo o estudo, publicado recentemente na revista científica The Astrophysical Journal, a estrela-alvo foi a EX Hydrae, classificada como uma “polar intermediária” — que é um tipo de sistema estelar binário a cerca de 200 anos-luz da Terra, no qual uma anã branca com campo magnético intenso rouba matéria de uma estrela companheira próxima.O material “vampirizado” não cai diretamente sobre toda a superfície da anã branca: o campo magnético funciona como um funil, desviando o gás para regiões específicas perto dos polos da estrela, onde ele se choca, aquece violentamente e emite raios X. Essa radiação é captada pelos detectores ultrassensíveis do IXPE.Um novo parâmetro para observar anãs brancasO IXPE consegue detectar como a estrela vibra (polarização) para moldar sua origem pelo espaço • Nasa/DivulgaçãoAo medir a polarização da luz de raios X, os autores não só validam décadas de teorias sobre o comportamento magnético estelar, mas também oferecem uma nova “régua” para medir estruturas cósmicas que antes passavam despercebidas pelos telescópios convencionais.“Esta é a primeira vez que usamos o IXPE para observar uma anã branca não como um mero ponto de luz, mas como um sistema estruturado com profundidade e geometria definidas,” escrevem os pesquisadores no estudo liderado pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).Em termos simples, isso significa que, enquanto os telescópios comuns captam apenas a quantidade de luz que chega da fonte, o IXPE consegue detectar como ela vibra. Essa polarização permite identificar não só de onde a luz veio, mas o ambiente físico que moldou sua viagem pelo espaço.Ou seja, a luz sozinha é uma onda eletromagnética que se propaga para a frente, mas os seus campos elétrico e magnético oscilam lateralmente. Essa vibração — que é a polarização — revela se a luz foi emitida ou desviada por campos magnéticos, superfícies ou fluxos de matéria, permitindo reconstruir a geometria e os processos físicos de sua origem.Embora o IXPE registre esses raios X polarizados desde o seu lançamento em 2021 — estudando principalmente supernovas, buracos negros e estrelas de nêutrons —, a equipe do MIT foi a primeira a direcionar seu foco para um sistema polar intermediário que, embora menor, é conhecido por ser um forte emissor de raios X.“Cachoeiras” de plasma de 3,2 mil quilômetrosDiagrama da coluna de acreção e da geometria de dispersão em EX Hydrae • Sean J. Gunderson et al., The Astrophysical Journal, 2025Nos sistemas polares intermediários, a anã branca exerce uma gravidade tão forte que puxa gás ؅— principalmente hidrogênio e hélio — da estrela vizinha, mas esse material não cai imediatamente na “vampira”. Primeiro, ele forma um disco de acreção ao redor dela que, quando se aproxima, é capturado pelo forte campo magnético.A partir desse ponto, o gás passa a viajar ao longo das linhas do campo magnético, e forma uma espécie de coluna ou funil de plasma. Essa matéria, composta de gás superaquecido cujos átomos perderam seus elétrons, é levada a regiões próximas aos polos da anã branca, mas desacelera antes de se chocar com a superfície da estrela.A coluna de plasma que, segundo os autores, se estende por cerca de 3,2 mil quilômetros acima da camada externa da estrela, desacelera bruscamente, como uma cachoeira em que a água não cai livremente até o chão. Ao se aproximar da base, ela bate em rochas, forma redemoinhos e respinga para todos os lados.O “respingamento” corresponde ao choque de acreção. No entanto, essa desaceleração violenta e os desvios bruscos de matéria superaquecida formam um espalhamento organizado — e não aleatório — que deixa uma marca na polarização dos raios X. Essa “assinatura” permite que os cientistas reconstruam o que está acontecendo ali.Em um comunicado, o primeiro autor do estudo, Sean Gunderson, afirma: “Isso abre caminho para a possibilidade de fazer medições semelhantes em outros tipos de anãs brancas em acreção que também nunca apresentaram sinais de polarização de raios X previstos”. Em outras palavras, mesmo estrelas “mortas” têm muitas histórias vitais para contar sobre o Universo.Imagens da Nasa mostram nuvem de gás poluente se movendo sobre a Terra