Comentaristas chineses têm falado muito nos últimos tempos sobre a pobreza nos Estados Unidos, reivindicando a superioridade da China ao se apropriar de uma expressão evocativa da cultura dos videogames.A expressão “linha fatal” (kill line, em inglês) é usada nos games para marcar o ponto em que a condição dos jogadores adversários se deteriorou tanto que eles podem ser mortos com um único disparo. Agora, ela se tornou uma metáfora recorrente na propaganda do Partido Comunista.Leia também: China apresenta sua ilha sem impostos como ‘maior porto livre de comércio do mundo’“Linha fatal” tem sido usada repetidamente nas redes sociais e em sites de comentários, assim como em veículos de notícias ligados ao Estado. Ganhou força na China para retratar o horror da pobreza americana — um limiar fatal além do qual a recuperação para uma vida melhor se torna impossível. A expressão é usada como metáfora para englobar falta de moradia, endividamento, vício e insegurança econômica. Em seu uso oficial, a “linha fatal” paira sobre a cabeça dos americanos, mas é algo que os chineses não precisam temer.A representação dos Estados Unidos como um lugar onde as dificuldades econômicas são profundas e disseminadas é um recurso recorrente da comunicação oficial chinesa há anos. Mas o uso da expressão e da imagem da “linha fatal” é novo. A força está na simplicidade do que ela descreve: um limiar abrupto em que a miséria começa e uma vida feliz é perdida de forma irreversível. A narrativa busca oferecer alívio emocional ao povo chinês ao mesmo tempo em que tenta desviar críticas aos seus líderes.Quanto piores as coisas parecem do outro lado do Pacífico, diz a lógica da propaganda, mais toleráveis se tornam as dificuldades presentes.Não é coincidência que haja uma enxurrada dessas mensagens agora. O crescimento econômico da China é metade do que já foi. O desemprego entre os jovens é elevado. Caminhos antes familiares para a segurança — empregos estáveis, valorização imobiliária, mobilidade ascendente constante — tornaram-se menos previsíveis. Para muitas famílias, a margem de erro parece mais estreita do que antes.Em um ensaio publicado online no fim de dezembro, o blogueiro jurídico Li Yuchen argumentou que o apelo da ideia da “linha fatal” estava em sua conveniência. Ela permitia que os chineses condenassem um sistema distante enquanto evitavam perguntas incômodas sobre a própria vida, escreveu.O termo “funciona menos como uma ferramenta analítica do que como um intérprete emocional”, escreveu ele. Seu ensaio foi removido pelos censores, juntando-se a uma longa lista de conteúdos apagados por questionarem narrativas econômicas oficiais.O fato é que a desigualdade social é um problema tanto na China quanto nos Estados Unidos. E a economia americana, sem dúvida, deixa muitas pessoas em posições frágeis. As causas são complexas.Ainda assim, na China a pobreza é vivida e percebida de forma diferente. Na maioria das cidades chinesas, a mendicância de rua e a falta de moradia visível são rigidamente controladas, tornando-as muito menos presentes no cotidiano. Muitos moradores urbanos entram em contato com essas cenas apenas por meio de reportagens estrangeiras, retransmitidas pela mídia estatal chinesa, sobre os Estados Unidos e outros lugares.A insegurança econômica continua generalizada na China. Cerca de 600 milhões de pessoas, ou aproximadamente 40% da população, ganham algo em torno de US$ 1.700 por ano. As aposentadorias rurais muitas vezes somam apenas US$ 20 ou US$ 30 por mês, e uma doença grave pode lançar famílias em uma crise financeira. Esse medo de ficar sem dinheiro é uma das razões pelas quais a China tem algumas das maiores taxas de poupança doméstica do mundo. Mas essas pressões são retratadas como parte de uma cultura de resistência e responsabilidade que deixa as famílias preparadas para superar eventos imprevisíveis da vida.Para os chineses mais velhos, o uso da pobreza americana a serviço da política interna é algo familiar. Durante a Revolução Cultural, um slogan famoso proclamava que “os chineses felizes se preocupavam profundamente com o povo americano vivendo na miséria”, mesmo quando a maioria dos próprios chineses vivia na pobreza.Quando eu estava crescendo na China, no início dos anos 1980, minha família assinava o China Children’s News, que publicava uma coluna semanal com um slogan simples: “O socialismo é bom; o capitalismo é ruim”. Ela descrevia idosos em cidades americanas revirando lixo em busca de comida e pessoas em situação de rua morrendo de frio. Essas histórias não eram inventadas, mas careciam de contexto e eram apresentadas como as experiências dominantes da sociedade americana. Grande parte da sociedade chinesa ainda estava fechada ao mundo, e informações confiáveis eram escassas.Que muitas pessoas aceitassem tais narrativas não é surpreendente. O que chama a atenção é que retratos semelhantes continuem a ressoar hoje, quando o acesso à informação é relativamente muito maior, apesar do controle estatal.A fórmula é simples: ampliar o sofrimento estrangeiro para desviar a atenção dos problemas domésticos. Essa abordagem está ganhando forma hoje em torno da metáfora da “linha fatal”.Acredita-se que a expressão tenha sido popularizada pela primeira vez nesse novo contexto na plataforma de vídeos Bilibili, no início de novembro, por um usuário conhecido como Squid King. Em um vídeo de cinco horas, ele costurou o que afirmou serem relatos em primeira mão de pobreza a partir do tempo que passou nos Estados Unidos. Seu vídeo usou cenas de crianças batendo de porta em porta numa noite fria de Halloween pedindo comida, entregadores passando fome por causa de salários irrisórios e trabalhadores feridos dispensados de hospitais por não conseguirem pagar.As cenas foram apresentadas não como casos isolados, mas como evidência de um sistema: acima da “linha fatal”, a vida continua; abaixo dela, a sociedade deixa de tratar as pessoas como humanas.A narrativa se espalhou para além do vídeo do Squid King, e muitas pessoas online repetiram seus relatos. Ensaios no site nacionalista de notícias Guancha e na maior plataforma de redes sociais da China, o WeChat, descreveram a “linha fatal” como a “lógica real de funcionamento” do capitalismo americano.Outros citaram exemplos do jornalismo ocidental que, na visão deles, apresentavam os contrastes entre Estados Unidos e China. Um artigo do Financial Times publicado em 24 de dezembro sobre a disparidade de riqueza em Connecticut — a próspera Greenwich e a combalida Bridgeport — foi republicado na mídia chinesa. Mesmo um choque financeiro modesto, como um salário não pago, a perda de benefícios de saúde ou uma despesa inesperada, pode desencadear uma rápida espiral descendente.Outro exemplo amplamente divulgado recorreu a “Hillbilly Elegy”, o livro de memórias de 2016 do vice-presidente JD Vance. Pessoas online destacaram seu relato de vender plasma enquanto lutava contra dívidas estudantis. Se até um futuro líder nacional teve de drenar o próprio corpo para se manter à tona, perguntavam comentaristas chineses, que chance tem um americano comum?No fim de dezembro, a estrutura da “linha fatal” havia ganhado impulso oficial. Beijing Daily e Southern Daily, ambos veículos estatais, lançaram vários “temas quentes” na plataforma Weibo, que normalmente ajudam a atrair atenção mais ampla. O Guancha publicou mais de uma dúzia de comentários em menos de duas semanas aplicando a metáfora à pobreza, à saúde e às condições de trabalho nos Estados Unidos. O site depois incluiu a “linha fatal” em sua retrospectiva das principais notícias do ano, vinculando-a a críticas ao primeiro ano do presidente Donald Trump de volta ao cargo.No início de janeiro, a Qiushi, principal revista teórica do Partido Comunista Chinês, publicou um comentário abordando a “linha fatal” como uma característica estrutural do capitalismo dos Estados Unidos. Um termo emprestado da cultura dos games havia entrado na linguagem política sancionada.Em muitos dos comentários, relatos de americanos vivendo crises financeiras abruptas são seguidos por comparações com a China. Assistência médica básica universal, garantias mínimas de subsistência e campanhas de erradicação da pobreza são citadas como evidências de que a China não permite que ninguém caia em sofrimento repentino.“O sistema da China não permitirá que uma pessoa seja ‘morta’ por um único infortúnio”, afirma um comentário de um departamento provincial de propaganda.Muitos leitores expressaram choque com a pobreza americana e gratidão pelo sistema chinês. “Pelo menos temos uma rede de proteção”, disse um comentarista.Nem todos aceitaram a narrativa. Alguns comentaristas chegaram a aplicar a linguagem da “linha fatal” a políticas domésticas, incluindo ações locais no norte da província de Hebei que elevaram drasticamente os custos de combustível de inverno para famílias rurais.“Um tema não ganha tração simplesmente porque as pessoas são tolas”, escreveu alguém no WeChat. “Muitas vezes, ele se espalha porque encarar a realidade é mais difícil.”O título do artigo: “A linha fatal americana não é sobre a América”c.2026 The New York Times CompanyThe post Por que a China ficou subitamente obcecada com a pobreza americana appeared first on InfoMoney.