Morte, impostos e… Ford?Quando se fala em constantes da vida, é quase certo que a Ford, após 122 anos de existência, estará envolvida no automobilismo de forma relevante.Afinal, a Ford surgiu em 1903, em parte por causa das corridas: Henry Ford havia vencido uma prova dois anos antes, com seu carro “Sweepstakes”, e o prêmio em dinheiro (somado à publicidade e aos investidores que vieram em seguida) o ajudou a fundar sua segunda empresa de automóveis — aquela que permanece querida por muitos americanos até hoje.Agora, a Ford está voltando à Fórmula 1.A Ford pode ser a terceira fabricante de motores mais vitoriosa da F1, com 176 triunfos em grandes prêmios — atrás de Ferrari e Mercedes —, mas está ausente do grid desde 2004, quando fornecia motores para a equipe Jaguar Racing.A Jaguar foi comprada pela Red Bull ao fim daquela temporada. Agora, a Ford retorna às corridas de grande prêmio por meio de uma parceria com a Red Bull, enquanto as duas se preparam juntas para o novo regulamento de motores da F1.Mas Will Ford, gerente-geral da Ford Performance, acredita que a empresa da família tem uma mensagem diferente a levar à F1.LEIA MAIS: Quais são as marcas de carros mais lembradas pelos consumidores?Ford anuncia US$ 19,5 bi em encargos por reestruturação no setor de carros elétricosA corrida secreta da Ford para tentar salvar a indústria automotiva dos EUAAo comentar sobre as outras montadoras presentes na categoria, ele afirmou: “Elas são, de fato, marcas de luxo. Muitas têm, obviamente, grandes históricos em desempenho e esportes a motor, mas a Ford é uma marca americana icônica — uma de apenas duas agora no grid. Só que nós somos a marca do homem comum.”A revista Time entrevistou recentemente 10 mil pessoas para tentar determinar quais são as empresas mais icônicas dos Estados Unidos, em homenagem aos 250 anos do país. O primeiro lugar não foi Nike, Walt Disney Co. ou Apple. Target e Starbucks nem sequer entraram no Top 20. A vencedora foi a Ford Motor Co.“Somos uma equipe e uma marca com a qual o torcedor médio de F1, em qualquer lugar do mundo, consegue se identificar”, disse Will Ford. “E acho que a Red Bull é a parceira perfeita para voltarmos ao grid com essa mensagem. A Red Bull tem uma mentalidade desafiadora.”A Ford fez sua estreia na F1 em 1967, no mesmo papel com que retorna agora: o de fornecedora de motores.Na época, apresentou um motor de dupla árvore de comando com quatro válvulas por cilindro, desenvolvido em parceria com a Cosworth. O propulsor é considerado um dos maiores da história da F1: com ele, as equipes somaram 155 vitórias em grandes prêmios, 12 títulos de pilotos e 10 campeonatos de construtores entre 1967 e 1983.Embora a popularidade desses motores tenha diminuído com o tempo, a empresa permaneceu na F1 nos anos seguintes. O motor usado por Michael Schumacher em seu primeiro título mundial, em 1994? Um Ford.A partir de 1995, no entanto, o sucesso dos motores da marca começou a rarear, e a última vitória de um carro equipado com propulsor Ford na F1 veio em abril de 2003 — com Giancarlo Fisichella, pela Jordan, no Grande Prêmio do Brasil.Depois de um hiato de 22 anos na Fórmula 1, a empresa foi seduzida a voltar.O regulamento técnico da F1 foi reformulado para 2026. Os carros ficarão menores e mais leves. Os motores dependerão de mais energia elétrica e utilizarão combustíveis sustentáveis. Essas mudanças chegam em um momento em que veículos elétricos e híbridos de alto desempenho ganham espaço entre o público, e a Ford enxerga uma oportunidade de transferir tecnologia em desenvolvimento nas pistas para seus automóveis de rua.“Estamos comprometidos com V8 de alto desempenho e vamos produzi-los pelo maior tempo que for legalmente possível”, disse Will Ford. “Mas a tecnologia híbrida ficou tão avançada e tão boa que podemos oferecer conjuntos híbridos de alto desempenho aos clientes daqui para frente sem sacrificar nada em termos de performance.“E, para nós, entrar no laboratório máximo, no teste de resistência máximo para híbridos de alta performance — não há forma melhor de ampliar nossas capacidades e comprová-las do que no ambiente competitivo da F1. Em última instância, tudo o que fizermos e aprendermos nessa parceria com a Red Bull acabará chegando aos nossos veículos de produção, para nossos clientes.”Bill Ford, presidente do conselho e bisneto do fundador Henry Ford — além de pai de Will —, diz que a transferência de tecnologia é especialmente relevante em motores e aerodinâmica.“Sempre que corremos, e em qualquer categoria em que corremos, há algo que podemos levar de volta para os nossos veículos de produção”, explicou. “Um ótimo exemplo disso é tudo o que estamos fazendo hoje em competições off-road, o que aprendemos no fora de estrada. Não apenas sobre o motor, mas sobre o veículo como um todo. E isso, no fim, chega ao cliente. Ainda não fizemos isso na F1, mas essa é a expectativa.”A capacidade de transferência, porém, é mais limitada entre categorias distintas. O portfólio esportivo da Ford é amplo, indo de campeonatos de drift e rali às corridas de stock car na Nascar. Como resumiu Bill Ford: “Às vezes, as lições se aplicam ao restante do nosso portfólio de corridas, e às vezes não.”A aliança Red Bull/Ford vem sendo escrutinada, já que a equipe de enorme sucesso na F1 passará a construir os motores que ela própria — e sua equipe irmã, a Racing Bulls — usarão a partir do início da temporada 2026, em março.A Cadillac, marca da General Motors, estreará na F1 no mesmo período em que a Ford retorna, e a rivalidade entre as duas empresas americanas, historicamente intensa no mercado de automóveis, começa a esquentar também em torno da futura disputa nas pistas.Dan Towriss, CEO da equipe Cadillac de F1, classificou recentemente a parceria entre Ford e Red Bull como “um acordo de marketing com impacto muito limitado”. Os Ford rebatem essa visão.Bill Ford respondeu: “Eu diria, na verdade, que é o contrário. Eles estão correndo com motor Ferrari. Não estão correndo com motor Cadillac. Não sei se há algum funcionário da GM na equipe de corridas.”A General Motors foi aprovada pela federação internacional de automobilismo como fornecedora de motores de F1 a partir da temporada de 2029.O envolvimento da Ford no projeto de motor liderado pela Red Bull vai muito além de estampar logotipos nos carros e nos uniformes da equipe.Engenheiros da Ford trabalham no campus de construção de motores da Red Bull, em Milton Keynes, na Inglaterra, e outros profissionais da montadora prestam suporte adicional a partir dos Estados Unidos. Eles colaboram no desenvolvimento de ferramentas e softwares específicos, e, segundo Will Ford, as capacidades de impressão 3D da empresa ajudaram a reduzir o tempo de produção de componentes do novo motor durante a fase de desenvolvimento.c.2026 The New York Times CompanyThe post A Ford está voltando à Fórmula 1 (e é questão pessoal para a família) appeared first on InfoMoney.