A guerra no Irã tem imposto uma série de desafios à economia chinesa, com o conflito pesando sobre a demanda global, o que pode sufocar o crescimento puxado por exportações da China. Há também problema internos pela crise de energia e das cadeias de suprimentos e até o os investimentos de longo prazo da China no Oriente Médio podem estancar.Mas a potência asiática está em melhor posição que muitos de seus vizinhos para enfrentar alguns desses desafios no curto prazo, segundo especialistas.Uma análise do China Power Project, parceiro do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), cita que podem até existir alguns potenciais benefícios para o país no longo prazo.“Sua relativa segurança energética pode ajudar os fabricantes chineses a superar concorrentes em outros países no médio prazo, e uma demanda global mais intensa por energia renovável pode favorecer ainda mais a China”, diz o relatório.Leia também: Crescimento da China deve ter acelerado no 1º tri, mas guerra piora perspectivasO estudo começa listando os principais impactos da guerra no Irã sobre a China:Demanda menor por exportações chinesasA guerra no Irã está prejudicando quase todas as economias, muitas das quais estão entre os principais mercados de exportação da China. Dada a forte e crescente dependência da China em relação ao crescimento econômico puxado por exportações, a demanda deprimida por produtos chineses pode comprometer as perspectivas macroeconômicas do país em 2026.O FMI reduziu recentemente suas projeções para o crescimento das importações globais, especialmente entre economias em desenvolvimento. Entre os 20 principais mercados de exportação da China, oito viram suas projeções de crescimento de importações serem reduzidas de forma significativa, incluindo Índia, Malásia, Tailândia, Indonésia, Singapura, Emirados Árabes Unidos, Filipinas e Arábia Saudita. Alguns desses países sofreram quedas dramáticas.Isso pode representar um grande desafio para a China, já que seu crescimento econômico passou a depender cada vez mais de exportações em expansão constante para o mercado global. Em 2025, quase um terço do crescimento do PIB da China veio de exportações líquidas — o maior nível desde 1997.A queda da demanda global por produtos chineses pode reduzir ainda mais o crescimento do PIB da China. O país já havia suavizado sua meta de crescimento do PIB para uma faixa de 4,5% a 5% durante a reunião “Duas Sessões” realizada em março — a menor meta desde 1991. A turbulência decorrente da guerra no Irã pode criar um ambiente internacional particularmente difícil para a China alcançar seus objetivos.Leia também: Exportações da China desaceleram em março após guerra do Irã afetar demanda globalDisrupções na energiaA China enfrenta disrupções significativas de energia decorrentes da guerra no Irã, já que mais de um terço de seu suprimento de petróleo bruto passa pelo Estreito de Ormuz todos os anos. No entanto, a China está mais protegida do que a maioria das economias devido às suas reservas estratégicas de energia, à diversificação das fontes externas, às alternativas domésticas e à sua maior taxa de adoção de veículos elétricos.A guerra no Irã desencadeou uma das maiores disrupções energéticas da história, com efeitos em cascata abalando a economia global. Os preços do petróleo Brent subiram de uma média de US$ 71 por barril em fevereiro para uma média superior a US$ 100.Os preços do gás natural liquefeito (GNL) também dispararam, chegando a quase US$ 21 por milhão de unidades térmicas britânicas (Btu) nos mercados asiáticos em março de 2026 — acima dos US$ 13 por Btu em março de 2025. Dezenas de países responderam com medidas emergenciais para racionar o uso de energia e proteger seus cidadãos dos choques de preços.Essa turbulência tem implicações diretas para a segurança energética da China, mas o desafio mais assustador para o gigante asiático China provavelmente virá da redução na demanda por produtos chineses em razão do impacto mais amplo da crise sobre a economia global.Choque nas cadeias de suprimentosA alta dos custos de energia e de outros insumos críticos está pressionando o imenso setor industrial da China. Choques de preços estão corroendo os lucros dos produtores e deprimindo uma demanda doméstica, que já era fraca. Porém, outros países também estão sentindo o impacto, e os fabricantes chineses podem aproveitar suas vantagens relativas para superar outros concorrentes globais no longo prazo.A China é, de longe, a maior fabricante do mundo, respondendo por cerca de 28% do valor agregado da manufatura global. Produzir esses bens exige quantidades massivas de energia. Em 2023, o setor manufatureiro da China sozinho consumiu mais de 95 exajoules (EJ) de energia — um volume comparável ao consumo total de energia de toda a economia dos Estados Unidos.Os preços mais altos de energia têm impactos diretos sobre indústrias intensivas em energia. As indústrias de refino de combustíveis da China registraram um aumento de 8,5% nos preços ao produtor entre janeiro e março de 2026, e os produtores químicos viram um aumento de aproximadamente 3% nos preços no mesmo período. Desde março, a China reduziu as exportações de derivados de energia na tentativa de proteger o abastecimento doméstico e conter as altas de preços ao produtor.O estudo cita como mais prejudiciais as possíveis quebras na manufatura de semicondutores – por conta de falta de hélio e de nafta petroquímica –, no setor agrícola e em plásticos.Leia também: China: Indústria cresce a ritmo mais rápido em 1 ano, enquanto riscos da guerra sobemRiscos para investimentosO Oriente Médio foi o principal destino global dos investimentos chineses em 2025 — especialmente em meio ao aumento de investimentos em tecnologia em países ricos do Golfo. A guerra representa ameaças diretas aos investimentos já existentes da China na região e pode minar a confiança geral em futuros investimentos ali.Em resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, o Irã retaliou não apenas contra forças norte-americanas e israelenses, mas também contra infraestrutura energética, áreas civis e instalações militares dos EUA no Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita e EAU. A escalada iraniana colocou em risco bilhões de dólares em investimentos na região, incluindo investimentos chineses.Infraestruturas ligadas à China também foram afetadas. Em 2025, a estatal China Communications Construction Company assinou um contrato de US$ 4 bilhões com o Kuwait para serviços de engenharia, suprimentos e construção na primeira fase do Porto Mubarak Al-Kabeer. Meses depois, em março de 2026, o Irã atacou o porto com drones e mísseis de cruzeiro, causando danos às instalações.A China está entre os maiores investidores estrangeiros na região, respondendo por cerca de 17% do investimento estrangeiro direto (IED) total nas economias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) em 2024. E a região é importante para a China: em 2025, o Oriente Médio se tornou o principal destino regional de investimentos chineses no mundo, com pelo menos US$ 26 bilhões em projetos de IED e construção firmados pela China naquele ano.Entre 2013 — primeiro ano de Xi Jinping como líder da China — e 2025, a China assinou US$ 221 bilhões em contratos de investimento e construção com países envolvidos no conflito. Arábia Saudita, Emirados Árabes e Iraque atraíram o maior valor total de projetos chineses entre as economias afetadas. A maior parte (54%) dos contratos chineses com esses países foi no setor de energia, mas nos últimos anos surgiu um novo foco em investimentos em tecnologia.Diversificação e resiliênciaMas, apesar da dor econômica, há várias razões pelas quais a China está em melhor posição do que muitas economias para suportar os choques da guerra, dizem os autores do estudo. Os reguladores de preços do governo chinês têm mantido os preços domésticos artificialmente mais baixos, com algum suporte das empresas estatais de energia, que absorveram parte dos custos.No fim de abril, os reguladores chineses chegaram a reduzir os preços da gasolina e do diesel pela primeira vez desde o início da guerra, mesmo com a alta dos preços futuros de petróleo bruto no mercado global.O elemento central da capacidade da China de impor um teto aos aumentos de preço são suas reservas estratégicas de petróleo, as maiores do mundo, em torno de 1,4 bilhão de barris em dezembro de 2025. Isso é suficiente para cobrir aproximadamente quatro meses da demanda líquida de importação de petróleo bruto da China.Além disso, a China já vinha adotando uma estratégia de redução de dependências do Oriente Médio, diversificando seus fornecedores de petróleo. Segundo estimativas do ChinaPower, cerca de 36% do suprimento total de petróleo bruto da China passou pelo Estreito em 2024. Comparativamente, o Japão dependeu do estreito para cerca de 93% de suas importações de petróleo bruto em 2025, e os vizinhos Coreia do Sul (70%) e Taiwan (58%) também foram fortemente dependentes da região.No que diz respeito ao gás natural, a China dependeu do estreito para cerca de 30% de suas importações de gás natural em 2025. Os dados sobre o consumo total de gás natural da China ainda não estão disponíveis para 2025, mas, em 2024, cerca de 7% do suprimento total de gás do país passou pelo Estreito.Em 2024, a China produziu cerca de 60% de seu suprimento de gás natural domesticamente e obteve boa parte do seu GNL por via marítima de outros fornecedores, incluindo Austrália, Malásia, Rússia, Estados Unidos, entre outros.Outras economias asiáticas são mais vulneráveis. A Índia dependeu do Estreito para 59% de suas importações de gás natural em 2025 e não tem acesso a gasodutos terrestres. Há um volume considerável de produção de gás natural dentro da própria Índia, mas o estreito ainda responde pela passagem de mais de um quarto do suprimento de gás natural indiano. A Coreia do Sul também depende do estreito para cerca de um quinto de seu suprimento de gás natural, mas está relativamente protegida contra choques por ter capacidade de armazenamento de, no mínimo, 52 dias de gás.Pequim também diversificou os tipos de fontes energéticas que alimentam sua economia. Cerca de 56% do suprimento total de energia primária da China veio da queima de carvão em 2024, enquanto o petróleo e o gás responderam por apenas 18% e 9%, respectivamente. A diferença é ainda mais marcante quando se trata de geração de eletricidade: em 2024, a China gerou 58% de sua eletricidade a partir do carvão e apenas 3% a partir de gás e petróleo.Os avanços recentes da China na expansão de energias renováveis e da energia nuclear têm sido particularmente importantes para substituir petróleo e gás. Em 2024, a China instalou quase metade da capacidade mundial de energia solar e eólica. O país também está ampliando sua capacidade de energia nuclear em ritmo acelerado e caminha para gerar 10% de sua eletricidade por meio de energia nuclear em 2035, ante 4,5% em 2024. No total, vento, solar e nuclear contribuíram com mais de 22% da geração de eletricidade da China em 2024.E a adoção relativamente ampla de veículos elétricos (VE) na China reduz o impacto direto dos picos do preço do petróleo sobre muitos consumidores chineses. Em 2024, cerca de 11% dos veículos de passageiros na China eram elétricos. Embora fique atrás de alguns líderes em adoção de VEs, como Noruega (32%), Islândia (18%), Dinamarca (17%) e Suécia (13%), a China está bem à frente de outros países. A penetração de VEs é de apenas 3% na Coreia do Sul e nos Estados Unidos, e de apenas 1% no Japão.Essa vantagem chinesa em segurança energética pode oferecer ganhos de custo na manufatura em relação a concorrentes como Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Como alguns especialistas chineses observaram, mesmo que a China enfrente aumentos absolutos de custos, sua relação custo-benefício pode torná-la mais competitiva. Ainda assim, no momento, os choques de curto prazo decorrentes da guerra superam quaisquer possíveis benefícios para a China.The post Economia da China sofre com a guerra, mas país pode colher frutos no futuro appeared first on InfoMoney.