Um artigo publicado na revista científica Earth Science, Systems and Society relata a descoberta de antigas rochas vulcânicas sob o Reino Unido que podem funcionar como reservatórios naturais de dióxido de carbono (CO₂).Segundo os pesquisadores, essas formações têm potencial para armazenar entre 42 milhões e 38 bilhões de toneladas do gás, transformando-o em minerais sólidos estáveis no subsolo.Caso confirmada na prática, essa capacidade pode redefinir o papel geológico do país, que passaria a contar com um grande sumidouro de carbono. Isso significa uma alternativa para lidar com emissões industriais que ainda não podem ser completamente eliminadas por tecnologias atuais.Região tem condições ideais para funcionamento do processoAs áreas mais promissoras estão localizadas na Irlanda do Norte, no noroeste da Inglaterra e no oeste da Escócia. Nessas regiões, espessas camadas de rochas vulcânicas estão enterradas em profundidades adequadas para armazenar e reagir com fluidos ricos em carbono. Essas condições são essenciais para que o processo funcione de forma segura e eficiente.O estudo foi conduzido a partir da análise de mapas geológicos e da composição química dessas rochas. O pesquisador Angus W. Montgomery, da Universidade de Edimburgo, demonstrou que determinados tipos de rocha têm capacidade de reagir com o CO₂ injetado, convertendo-o em minerais sólidos. Esse processo reduz significativamente o risco de vazamentos.Mapa das formações máficas e ultramáficas identificadas (rotuladas de A a U) por meio da filtragem da geologia do substrato rochoso do British Geological Survey (BGS) na Fase I do processo de triagem. As legendas em roxo e verde indicam locais com geologia de substrato rochoso máfica e ultramáfica, respectivamente – Crédito: BGS/UKRI © 2007. Tradução e adaptação por IA/GeminiAlém da composição química favorável, algumas dessas formações apresentam grande extensão contínua. Isso aumenta o volume disponível para armazenamento e amplia o potencial de uso em larga escala. A combinação entre tamanho e reatividade química é um dos principais pontos destacados pelos cientistas.Como ocorre a mineralização do carbonoDe acordo com um comunicado, o método envolve capturar o CO₂ emitido por indústrias, dissolvê-lo em água e injetá-lo no subsolo. Esse fluido percorre fissuras e poros das rochas até entrar em contato com minerais ricos em ferro e magnésio. É nesse momento que ocorre a chamada mineralização de carbono.Esse processo transforma o CO₂ dissolvido em minerais sólidos, como carbonatos, que permanecem presos na estrutura da rocha. Diferentemente de outras formas de armazenamento, essa técnica reduz drasticamente o risco de o gás retornar à atmosfera, tornando-se uma solução mais permanente.Rochas máficas, comuns em ambientes vulcânicos, são especialmente adequadas para esse tipo de reação. Elas são escuras e ricas em elementos que facilitam a formação de minerais estáveis. Rochas ultramáficas, ainda mais ricas em magnésio, também podem contribuir, desde que haja circulação de fluidos em seu interior.Entre as áreas analisadas, o destaque é o Antrim Lava Group, na Irlanda do Norte. Esse conjunto de antigos fluxos de lava apresenta a maior capacidade estimada de armazenamento. No cenário intermediário do estudo, ele poderia reter cerca de 1,4 bilhão de toneladas de CO₂, com potencial máximo de até 17 bilhões.Diagrama esquemático indicando como as análises volumétricas foram conduzidas – Crédito: Adaptado de Monaghan et al. (2024). The Geological Society of LondonOutras duas regiões também se destacam: formações vulcânicas no noroeste da Inglaterra e no oeste da Escócia. Elas apresentam capacidades estimadas de aproximadamente 700 milhões e 600 milhões de toneladas, respectivamente. Esses números reforçam o potencial distribuído do território.Leia mais:Conheça o reator brasileiro sustentável que produz hidrogênio verdeMadeira diferente de qualquer outra pode armazenar carbono de forma mais eficienteProjeto quer sugar carbono do oceano para frear aquecimentoReservas geológicas podem conter 45 anos de emissões totais No total, oito formações geológicas foram avaliadas pelos pesquisadores. No cenário intermediário, elas poderiam absorver cerca de 45 anos de emissões industriais do país. O cálculo considera dados de 2017, quando o Reino Unido emitiu aproximadamente 72 milhões de toneladas de CO₂ industrial.Apesar do potencial, os cientistas destacam que essa solução não substitui a necessidade de reduzir emissões. O armazenamento geológico serviria como complemento, especialmente para setores difíceis de descarbonizar, como produção de cimento, aço e produtos químicos.Outro ponto importante é que os valores apresentados ainda são teóricos. Com o tempo, reações químicas podem preencher fissuras e reduzir o espaço disponível nas rochas. Além disso, o envelhecimento natural dessas formações pode afetar sua eficiência ao longo das décadas.Por isso, fatores como viabilidade econômica, regulamentação e aceitação pública ainda precisam ser avaliados. Mesmo que uma formação seja adequada do ponto de vista técnico, isso não garante sua utilização prática sem estudos complementares e planejamento adequado.Antes de qualquer projeto ser implementado, serão necessários testes detalhados em campo. Isso inclui perfurações, análise do fluxo de fluidos e mapeamento preciso das fraturas subterrâneas. Esses estudos vão indicar se o CO₂ pode se deslocar de forma eficiente dentro das rochas.Os engenheiros também precisarão determinar qual parte dessas formações é realmente acessível para uso. Nem todo o volume identificado pode ser explorado, o que reduz a capacidade prática em relação às estimativas iniciais.Os pesquisadores afirmam que rochas vulcânicas não são uma solução única para as mudanças climáticas. No entanto, podem se tornar uma ferramenta importante dentro de um conjunto mais amplo de estratégias de mitigação.Se os testes confirmarem os resultados iniciais, essas formações geológicas poderão ajudar o Reino Unido a lidar com emissões industriais persistentes. Assim, rochas formadas há milhões de anos podem desempenhar um papel relevante em um dos desafios mais atuais da sociedade.O post Reino Unido tem rochas vulcânicas que podem de armazenar carbono industrial por décadas apareceu primeiro em Olhar Digital.