Direto e afiado, Megadeth se despede (?) dos palcos brasileiros onde já viveu de tudo

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O Megadeth trouxe sua turnê de despedida ao Espaço Unimed, em São Paulo, no último sábado (2). É difícil dizer se essa realmente foi a última vez de Dave Mustaine e seus comandados em terras brasileiras — o próprio tem dado declarações mais “flexíveis” quanto a isso recentemente —, mas se for, encerramos a “parceria” em nota alta.Tendo chegado à sua 16ª visita ao Brasil, a banda já viveu de tudo por aqui: da boa estreia no Rock in Rio 1991, passando por dois Monsters of Rock nos anos 1990, até abandono de palco e tretas com o responsável pelo som em 2008. O Megadeth, também, foi o único headliner a ter se apresentado no infame festival Metal Open Air, em 2012, e ainda colaborou no que foi possível para a quase inexistnete infraestrutura sonora do evento.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosOutras experiências por aqui incluem a abertura para o Black Sabbath reunido com Ozzy Osbourne, em 2013, e participação no festival SWU, em 2011, realizado em Paulínia, no interior de São Paulo. Tudo isso nos leva à “This Was Our Life”, turnê de despedida dos palcos, que promove ao mesmo tempo o novo álbum, homônimo, lançado no início deste ano.Direto e retoNão dá para sequer chamar de atraso uma demora de 3 minutos, tempo a mais do que o Megadeth demorou para entrar no palco do Espaço Unimed. O público, que lotou a casa ao máximo, já ensaiava os primeiros gritos que dariam o tom da noite, iniciada de modo direto: sem introdução, sem vídeos, cortinas caindo ou qualquer efeito. A banda apenas aparece e toca.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosO palco em si também era enxuto: nada de telões de LED ou elementos cenográficos, apenas um pano com o logo da banda no fundo do palco. A iluminação era o recurso visual mais caprichado, mas o som veio para compensar qualquer simplicidade estética. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Sem muito tempo para respirar, Mustaine (voz e guitarra), Teemu Mäntysaari (guitarra), James LoMenzo (baixo) e Dirk Verbeuren (bateria) entregaram um início avassalador. “The Conjuring”, faixa adorada pelos fãs que ficou de fora dos shows da América Latina até aqui, veio logo depois da abertura com a nova “Tipping Point”.Em noite de Shakira na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, o Megadeth também serviu sua “She-Wolf” ao público, depois da sempre eficiente “Hangar 18”. “Sweating Bullets” e sua letra cheia de nuances fecharam a primeira parte da apresentação.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosBanda afiadaAs interações de Dave Mustaine com o público não foram tantas, mas tiveram qualidade e bom humor. O patrão parecia genuinamente alegre em estar ali, o que compensa o esforço e possíveis dores que transparecem em sua fisionomia ao cantar e tocar. Felizmente, o artista de 64 anos ainda entrega performance de alto nível na guitarra — e fica difícil discordar do homem em seus momentos mais “convencidos”, quando afirma ter influenciado praticamente todas as bandas de thrash metal. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Teemu Mäntysaari ganhou desenvoltura e parece estar se descolando da imagem do “sósia de Kiko Loureiro”. Indicado e treinado pelo brasileiro para assumir seu lugar, o finlandês até segue um pouco mais contido em termos de presença de palco, mas a habilidade compensa e os sorrisos e movimentos estão mais comuns do que no início.É LoMenzo quem preenche a lacuna da presença de palco. Dono de timbre forte no instrumento, o baixista é certamente o que mais agita — e é também o único a falar rapidamente com o público, além de Mustaine. Tudo isso é sustentado pelo extremamente competente Dirk Verbeuren, que faz a complexidade do Megadeth parecer fácil do alto de sua bateria.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosSurpreendendo os incautosO set seguiu com boas escolhas, variando entre momentos clássicos para quem conhece os shows do Megadeth — como a dobradinha “Wake Up Dead” / “In My Darkest Hour” —, até faixas menos conhecidas, porém efetivas, como “Dread and the Fugitive Mind” e “Hook in Mouth”. Do disco novo, apenas três: a abertura “Tipping Point”, a quase punk “I Don’t Care” e a exibicionista “Let There Be Shred”, onde Mäntysaari brilha.Quer dizer: foram quatro. A América Latina tem sido agraciada pelo Megadeth com sua versão de “Ride the Lightning”, do Metallica, regravada pelo grupo no trabalho final. Dave Mustaine tem créditos pela composição, datada dos tempos em que tocava com Lars Ulrich e James Hetfield na “banda ao lado”. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Embora a releitura tenha saído no início do ano, foi interessante notar a surpresa de alguns fãs mais alheios às notícias, principalmente os mais velhos. Houve quem criticasse online a regravação por conta dos vocais de Mustaine (a essa altura?!) e a falta de novidades no cover — o que não faz muito sentido, já que o objetivo de Dave é remontar à composição original.De qualquer forma, é histórico ver o Megadeth tocar uma música do Metallica, e em termos de som, há de se admitir que a “cozinha” de Verbeuren e LoMenzo ataca com mais potência do que Lars e Robert Trujillo na atualidade. Isso fica evidente também em “Mechanix”, faixa irmã de “The Four Horsemen”, que sempre soou mais vigorosa na versão “oficina automotiva” do que quando cantada sobre o Apocalipse.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosAté mais e obrigado pelos riffsO encerramento se mostrou protocolar, com os hinos “Peace Sells” e “Holy Wars… the Punishment Due”, antes de Dave Mustaine agradecer e dizer que o público de São Paulo foi ótimo e eles “foram o Megadeth”. Na primeira, duas versões do mascote Vic Rattlehead subiram ao palco e interagiram com público e banda, um de terno preto e outro de terno branco, em referência à capa do novo disco.Com o intervalo um pouco mais longo que algumas músicas tiveram entre si ao longo do show, fica até difícil dizer que houve um bis antes de “Holy Wars… the Punishment Due”. Na prática, não.Assim como também não dá para afirmar que esse foi o último show do Megadeth no Brasil. A apresentação única se esgotou muito rápido, não só pelo apelo da despedida, mas pela popularidade da banda por aqui, que é grande. Em entrevista a Igor Miranda para a Rolling Stone Brasil, o chefe já abre espaço para um possível retorno, com a mesma turnê: “Acho que talvez a gente toque mais uma vez no Brasil depois dessa”.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosNa mesma entrevista, Dave demonstrou vontade de retornar a outras cidades brasileiras:“Gostaria que fizéssemos uma turnê brasileira de verdade, porque tocamos em tantas cidades no Brasil ao longo dos anos. Ir aí e tocar apenas em São Paulo e não no Rio, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, Brasília ou qualquer outro lugar que já visitamos ao longo dos anos… faz parecer que não estamos tocando em lugares suficientes antes de dizer ‘adeus’.”Por outro lado, a situação real não é tão favorável ao líder do Megadeth. Mustaine enfrenta alguns problemas de saúde, incluindo artrite nos dedos, Contratura de Dupuytren (fibras musculares “travadas”) na mão esquerda; paralisia do nervo radial do lado esquerdo; e problemas no ombro devido ao peso da guitarra. O músico também se recuperou recentemente de um câncer na garganta, que provavelmente tem tornado o esforço em cantar ainda maior.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosAinda assim, não há pressa para terminar a turnê de despedida. Mustaine já brincou em cair na estrada por cerca de 5 anos, até completar 70 de idade. Se continuar por esse tempo, é muito provável que o Brasil apareça na agenda de novo, já que a ligação com o país – e com a América Latina como um todo – é grande.O chefão acabou de conquistar a faixa preta de jiu-jitsu brasileiro (o que ele jura ter contribuído para que se tornasse uma pessoa mais pacífica) e teve por 8 anos a companhia de Kiko Loureiro nas seis cordas. A parceria foi marcante, a ponto de lhe render o sonhado Grammy com a música “Dystopia” e deixado boas impressões internamente — o que nem sempre acontece com quem passa pelo Megadeth.Dave Mustaine é o corpo e a alma do Megadeth. Isso fica claro ao se presenciar um show da banda. E se o corpo já dá sinais mais avançados de um cansaço natural do estilo de vida, a alma segue intacta. No fim das contas, o que se viu na noite de 2 de maio em São Paulo soa mais como “até logo” do que como “adeus”, embora seja inegável que o veículo já opera na reserva.Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramosMegadeth – ao vivo em São PauloData: 2 de maio de 2026Local: Espaço UnimedTurnê: This Was Our LifeProdução: Mercury ConcertsSetlist:Tipping PointThe ConjuringHangar 18She-WolfSweating BulletsI Don’t CareDread and the Fugitive MindWake Up DeadIn My Darkest HourHook in MouthLet There Be ShredSymphony of DestructionTornado of SoulsMechanixRide the Lightning (Metallica)Peace SellsHoly Wars… The Punishment DueQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? Clique aqui!Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Bluesky | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.O post Direto e afiado, Megadeth se despede (?) dos palcos brasileiros onde já viveu de tudo apareceu primeiro em Igor Miranda.