Ator e autor, nascido e criado na era do analógico, o seu percurso é feito de experiências diversas, nem sempre lineares e de uma relação contínua com a imaginação e o desconhecido. Há uma ‘inquietação positiva’ na forma como se revê na sua condição humana e com o mundo, logo à partida quando diz que «a vida nunca será fácil». Sobretudo no desafio que é «ninguém saber o que anda aqui a fazer», e acrescenta: «É como se a tecnologia insinuasse que é possível a vida ser fácil quando não é! Isso pode ser perigoso, porque quanto mais a pessoa se debruça e se alimenta do virtual, quando encontrar o real, menos preparação vai ter.» Nunca lhe passou pela cabeça ser ator, «há pessoas que nascem com a sorte de, aos quatro anos, saber que queriam ser atores». A sorte é um outro elemento que aponta como impossível de replicar através da tecnologia, é algo que ninguém consegue explicar, uma «coisa distribuída com misteriosa parcimónia». Das limpezas em Paris até aos palcosA infância decorreu num contexto distante do atual, cresceu num meio pobre, onde a rua ocupava um lugar central. «Tenho memória de não haver tempos mortos, o tempo era todo passado na rua, com qualquer coisa física», recorda. As brincadeiras, os jogos improvisados e incursões por terrenos desconhecidos faziam parte do quotidiano. Encontrar uma vocação, fazer o que mais se gosta nem sempre é fácil, e no caso de Virgílio Castelo apareceu com alguma dor. «Sempre gostei, desde criança, da ideia do desconhecido. Tudo o que eu não conhecia era uma coisa que me interessava e não tinha medo.»Quando não estava a brincar ou a explorar, estava a ler. «Eu tinha uma vaga ideia de que a minha vida não poderia passar por coisas que não me deixassem em liberdade, não me deixassem com tempo para imaginar e sonhar. Eu passo a vida a imaginar, o meu processo diário é um processo de imaginação, às vezes até pouco realista.» No início do seu caminho profissional, os seis meses de «tortura» em que trabalhou como funcionário público no Ministério das Finanças, revelaram um lado «cinzento» que sabia não ter capacidade de aguentar. Sai de Portugal, o apelo do «lá fora» leva-o até Paris. Trabalha nas obras de limpeza finais da nova gare do aeroporto de Orly e depois no restaurante Le Petit Victor Hugo no seizième, onde festeja a sua maioridade. Regressa, trabalha em publicidade, desfiles de moda e sessões fotográficas. Até que em 1974 a atriz Helena Isabel convida-o para secretário de um grupo de Teatro recém-formado; três semanas depois perguntam-lhe se quer experimentar ser ator. Sorte.A vida é sempre mais sábia do que nós, acaba por nos empurrar para aquilo para o qual temos mais capacidades.Teve as suas primeiras férias ao fim de três anos de trabalho ininterrupto no Teatro: duas sessões diárias, três sessões aos domingos, para além de peças infantis. Essa experiência serve de contraponto ao presente. Sobre as gerações mais novas, observa o impacto das tecnologias no modo como se relacionam com a realidade. «A inteligência artificial tem contribuído para alimentar o lado mais leve e despreocupado da existência», afirma, acrescentando uma reserva: «Tenho a sensação de que este lado virtual está a afastar as pessoas dos reais problemas da vida.» A questão não está na quantidade da informação, mas na forma como é apreendida. «Estão a adquirir informação que existe, mas não é real.» A arte como salvação Sobre o papel da tecnologia na criação artística, reconhece a sua utilidade. «A tecnologia sempre ajudou a arte», refere. A IA surge, no seu entendimento, como uma ferramenta relevante. «É fantástica do ponto de vista da pesquisa, não pode é substituir a arte.» A arte como forma de permanência acompanha-o desde cedo. Refere uma frase de Camões, de Os Lusíadas, que marca o seu percurso: «E aqueles, que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando.» A explicação recebida na adolescência, pelo professor de Português do antigo 5º ano, mantém-se atual. A ‘lei da morte’ é o esquecimento. Criar, nesse sentido, corresponde a produzir algo que possa ser partilhado e que permaneça para além da experiência individual. «Criar qualquer coisa que fique, que seja dada aos outros é uma maneira de se salvar; porque é inevitável, é inexorável que vai haver o esquecimento, o desaparecimento de tudo isso.» Refere ainda uma dimensão mais ampla da arte, ligada à contribuição: «Todos temos a obrigação de tentar melhorar um bocadinho o mundo no qual nos calhou viver.» Ter tempo para falhar Quanto às novas gerações, destaca a complexidade do contexto atual. «A exigência da sociedade é muito maior do que era no meu tempo.» A possibilidade de falhar, que considera importante no seu percurso, parece hoje mais limitada. «No meu tempo dava-se tempo à vida para se falhar, atualmente os miúdos estão proibidos de falhar.» A pressão e a competitividade são fatores que identifica como condicionantes. Sobre o futuro, considera existir um momento em que cada percurso se define. «Há um momento da nossa vida em que as coisas acontecem.» A capacidade de reconhecer esse momento e de agir sobre ele assume importância central. Mesmo quando as escolhas não são as mais acertadas, refere ser possível o recomeço, algo que associa à sua própria experiência. «É preciso que os jovens tenham paciência no sentido de intuírem, que mais cedo ou mais tarde, aquilo que é a razão da sua existência vai aparecer. Tenho a certeza de que, para todos nós, há um momento da nossa vida em que é preciso tomar uma decisão. E mesmo assim, quando tomamos a decisão errada, há tempo, ou pelo menos no meu tempo havia tempo para se voltar a tentar outra coisa.» Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo Virgílio Castelo: «A vida nunca será fácil». E ainda bem. aparece primeiro em Revista Líder.