Do Zero ao Negócio: «Não esperem pelo momento perfeito para empreender»

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À Líder fala sobre o salto para o empreendedorismo, os desafios de começar do zero, o papel da liderança consciente e como é possível construir um negócio com propósito num mercado competitivo.Esta é a primeira entrevista da série de artigos Do Zero ao Negócio, que pretende explorar as histórias por trás de marcas e startups: das decisões iniciais aos momentos de ruptura, revelando tudo o que está na origem de um negócio.Depois de mais de 30 anos numa carreira corporativa, o que a levou a dar o salto para o empreendedorismo e porque escolheu o café?Na verdade, não foi uma decisão planeada, foi consequência de uma porta que se fechou. Após 31 anos na mesma empresa, no período pós-pandemia, houve uma reestruturação e o meu cargo foi extinto. Foi um momento de grande surpresa, sobretudo depois de 3 décadas de entrega e construção profissional na mesma organização.Senti um impacto muito forte, como se o chão me tivesse sido retirado dos pés. Mas foi também nesse momento que percebi algo essencial: quando um ciclo termina, outro começa. E que era tempo de me reinventar, com rapidez, mas também com confiança.Foi aí que tudo o que tinha vivido ganhou um novo sentido, desde os valores da infância, à minha experiência profissional, ao percurso como estrangeira em Portugal, ao facto de ser mãe e também à minha experiência como voluntária em missões de ajuda a pessoas em situações de grande vulnerabilidade, em diferentes países e contextos de extrema necessidade. Tudo isso se alinhou e ganhou forma.O nome Nena surgiu de forma muito natural. É como a minha família e amigos mais próximos me chamam e significa ‘menina pequenina’ em castelhano. Quando o escolhi, senti que fazia todo o sentido: era como dar espaço à minha criança interior para finalmente crescer, abrir asas e viver com liberdade, com valores, missão e propósito.A fé tem um papel muito importante na minha vida. Costumo lembrar um versículo que me acompanha em muitas decisões: «sem fé é impossível agradar a Deus». E gosto de acrescentar, com leveza mas com verdade: sem fé é impossível agradar a Deus… e sem café muito menos!Foi exatamente isso que senti neste percurso: um chamamento. O café deixou de ser apenas algo de que sempre gostei e passou a ser propósito. Tornou-se uma descoberta profunda, uma ligação à terra, às origens e às pessoas.Ao conhecer mais de perto a realidade dos produtores, percebi não só os desafios, mas também a enorme dignidade, resiliência e paixão que existem na origem. Foi esse universo que me fez mergulhar por completo no mundo do café e dar vida à Nena.Que competências da sua experiência anterior foram mais decisivas na criação da Nena?Destacaria quatro fundamentais: gestão, liderança, inteligência emocional e visão estratégica. Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de gerir equipas multinacionais, em diferentes contextos culturais e linguísticos, o que me obrigou não só a liderar, mas também a aprender, inclusive novos idiomas, para comunicar melhor e criar ligações reais.Essa experiência ensinou-me algo muito importante: liderar não é apenas dirigir, é compreender, adaptar e conectar.Mas talvez a competência mais determinante tenha sido, sem dúvida, a capacidade de adaptação. E essa não vem apenas do percurso profissional, vem também da minha experiência como estrangeira em Portugal, de recomeçar, de me integrar, de construir um caminho num contexto diferente.Hoje, acredito profundamente que um dos maiores sinais de força num ser humano não é aquilo que sabe, mas a sua capacidade de se adaptar às mudanças, às culturas, às oportunidades e até aos momentos mais desafiantes da vida.Foi essa capacidade que me permitiu transformar uma fase de incerteza na criação da minha empresa: Nena Selected Coffee. Quais foram os maiores desafios deste processo? Que erros evitava hoje, se estivesse a começar novamente?O maior desafio foi, sem dúvida, a incerteza. De repente, passei a ter de tomar decisões constantes, muitas vezes sem o apoio de uma equipa, o que tornou o processo exigente e, por vezes, solitário.No inicio, foi um período difícil, e continua desafiante, mas também muito transformador. É nesses momentos que entram em ação os pilares mais importantes: os amigos, a família, a confiança em nós próprios. Até coisas simples, como voltar a livros que estavam na prateleira, ganham um novo significado. A fé, a resiliência e a capacidade de continuar tornam-se essenciais. Ao mesmo tempo, vive-se a construção da empresa de forma muito intensa, praticamente 24 horas por dia.Se pudesse identificar um erro, diria que foi não pedir ajuda às pessoas certas no momento certo. Por vezes por receio, outras por insegurança, acabei por tentar resolver tudo sozinha. Hoje faria diferente: procuraria apoio mais cedo, de forma mais estratégica e consciente. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza é, muitas vezes, o que permite crescer de forma mais sólida e sustentável.Como se constrói uma marca diferenciadora num mercado tão competitivo como o do café?Constrói-se com verdade. Num mercado competitivo, o consumidor percebe rapidamente quando há autenticidade e qualidade.No caso da Nena, a diferenciação vem da ligação real à origem, do respeito pelos produtores e da forma como contamos essas histórias. Cada café tem um rosto, uma família, uma história e fazemos questão de manter essa ligação viva.Mais do que vender café, criamos uma experiência consciente. E essa consistência entre propósito, produto e comunicação é o que constrói uma marca sólida. Hoje fala-se muito de negócios com impacto e responsabilidade. Acredita que é possível crescer sem comprometer esse propósito?Acredito que é possível e necessário. Para mim, o propósito não é um complemento, é a base do negócio e da minha realização como ser humano.Quando as decisões são tomadas com base em valores claros e propósito, o crescimento acontece de forma mais equilibrada. Pode não ser o caminho mais rápido nem o mais fácil, mas é certamente mais sustentável e consistente a longo prazo.Em tudo o que fazemos podemos gerar impacto social, ambiental e até na herança que queremos deixar. E isso traz também uma grande responsabilidade perante o olhar dos outros, que muitas vezes não estão atentos às vitórias, mas sobretudo aos momentos de falha.Por isso, ter a coragem de criar um negócio com impacto social é de elevadíssima responsabilidade. Esse compromisso não pode ser comprometido, porque quando ele falha, tudo o resto perde a sua base. O consumidor português já está disposto a pagar mais por um produto com origem e impacto claros?Vejo uma mudança clara, embora ainda em evolução. O consumidor está mais informado, mais curioso e mais atento à qualidade e à origem.Existe uma crescente valorização de produtos com história e transparência, mas continua a ser essencial educar e comunicar bem. Quando o consumidor entende o valor e vive uma experiencia, não só do produto, mas de toda a cadeia, está mais disponível para fazer essa escolha. Como descreve o seu estilo de liderança enquanto fundadora?Cada dia descubro que liderar é um ato diário, e não apenas uma consequência do papel de fundadora.Diria que é uma liderança próxima, consciente e muito orientada por valores. A minha própria experiência ensinou-me a importância de reconhecer as pessoas e de criar um ambiente onde cada um sente que contribui para algo maior, incluindo o consumidor final.Liderar é, para mim, um ato de amor constante, mas também de firmeza. Só assim é possível criar impacto positivo e gerar verdadeira ligação e confiança.Gosto de dar autonomia, mas com direção clara. E valorizo muito a transparência e o respeito, fundamentais para construir equipas fortes, coesas e comprometidas. Que dicas deixa a todos os empreendedores que estão a começar ou ainda não deram o primeiro passo?Diria, antes de tudo, que não esperem pelo momento perfeito, ele não existe. Muitas vezes, é precisamente nos momentos mais desafiantes que surgem as maiores oportunidades.Depois, é importante confiar no próprio percurso. Tudo o que vivemos, pessoal e profissionalmente, pode ser transformado em valor.E, por fim, ter um propósito claro. Porque empreender não é um caminho linear, e é esse propósito que nos mantém firmes quando surgem as dificuldades.O conteúdo Do Zero ao Negócio: «Não esperem pelo momento perfeito para empreender» aparece primeiro em Revista Líder.