Centros de dados entram na mira por agravar ilhas de calor

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Um estudo inicial conduzido por um grupo de cientistas identificou uma correlação entre o desenvolvimento de centros de dados e a intensificação do fenômeno das ilhas de calor ao redor do mundo. A pesquisa sugere uma relação direta entre essas estruturas e um aumento relevante de temperatura nas regiões próximas, destacando a “notável influência do calor nas comunidades e na qualidade de vida local”. Ainda não revisado por pares, o artigo foi elaborado por nove pesquisadores ligados a instituições como a Universidade de Cambridge e a Universidade Tecnológica de Nanyang. As conclusões se baseiam em duas décadas de dados de temperatura obtidos por sensores remotos da superfície terrestre e foram disponibilizadas na plataforma pública arXiv.Batizado de Efeito de Ilha de Calor de Dados, o estudo indica que áreas próximas aos chamados “principais centros de hiperescala de IA” registram aumento médio de 3,6 graus Fahrenheit (2 graus Celsius), podendo chegar, em situações extremas, a 16,4 graus Fahrenheit (9,1 graus Celsius). A análise também dimensiona o alcance desse impacto térmico: mais de 340 milhões de pessoas podem ser afetadas globalmente. “Avaliamos o impacto nas comunidades, quantificando que mais de 340 milhões de pessoas podem ser afetadas por esse aumento de temperatura”, afirmou o grupo de pesquisadores. “Nossos resultados mostram que o efeito da ilha de calor de dados pode ter uma influência notável nas comunidades e no bem estar regional no futuro, tornando-se, portanto, parte da discussão sobre IA ambientalmente sustentável em todo o mundo.”Foto: Boliviainteligente | UnsplashA pesquisa considerou 6.733 centros de dados, todos situados fora de áreas metropolitanas densamente povoadas. Mesmo assim, os cientistas apontam que o efeito térmico pode se propagar por até 10 quilômetros (6 milhas) a partir dessas instalações, ampliando seu alcance para além das zonas industriais onde estão localizadas. O estudo surge em um momento estratégico para o setor de Arquitetura, Engenharia e Construção (AEC) nos Estados Unidos, que busca aproveitar a expansão dos investimentos em Inteligência Artificial diante de um cenário econômico ainda instável. Esse contexto reforça preocupações já existentes sobre o crescimento acelerado dessas infraestruturas.“A lógica predominante tem sido a da aceleração, o infame ‘agir rápido e quebrar coisas’, o que se traduz em construir capacidade primeiro e talvez mitigar depois”, disse Marina Otero Verzier, pesquisadora e arquiteta de Harvard. “Se o desenvolvimento continuar nesse ritmo, veremos um aumento significativo nas emissões e a intensificação do efeito térmico“. A especialista ressalta que os impactos ultrapassam os limites físicos dos centros de dados. “Esses impactos vão muito além dos próprios centros de dados, moldando territórios inteiros, embora aqueles que vivem perto deles geralmente suportem o fardo.” Diante disso, ela defende medidas mais rigorosas: “Em um contexto de fragilidade ecológica e instabilidade energética, é necessária uma moratória, seguida de um quadro regulatório muito mais rigoroso que envolva a supervisão pública.” Leia também: 1.Inteligência Artificial vai criar cosméticos mais sustentáveis 2.Inteligência Artificial otimiza trabalho de transportadoras de veículos Otero, que estuda os efeitos ambientais dessas estruturas, aponta que embora existam iniciativas voltadas a projetos mais sustentáveis, elas ainda não são predominantes no setor. “De fato, existem projetos ecossociais mais avançados sendo desenvolvidos em todo o mundo, mas o comprometimento da indústria com sua implementação não está acompanhando a velocidade, a escala e a ambição territorial do crescimento em hiperescala”, afirmou. Ela também observa que os resultados do estudo estão em sintonia com outras pesquisas recentes. “As conclusões do estudo estão alinhadas com um crescente corpo de pesquisas sobre os impactos da expansão de data centers. Embora eu não tenha tido a oportunidade de examinar os números em profundidade, as afirmações gerais são consistentes com o que estamos vendo em todo o mundo e, mais importante, com o que as comunidades vivenciam diariamente ao viverem perto de instalações hiperescaláveis”, continuou Otero. “Eles realmente conseguem perceber que o ambiente ao seu redor está mudando.”O avanço desses empreendimentos ocorre em um cenário de forte crescimento econômico do setor. A expectativa é que os centros de dados ultrapassem US$ 150 bilhões em taxas de projeto e construção nos Estados Unidos até o fim da década. Paralelamente, há preocupações sobre o aumento da pegada de carbono da construção civil, que pode dobrar até 2050. Globalmente, o mercado de centros de dados quase dobrou desde o período pré-pandemia, alcançando US$ 350 bilhões no último ano. Ao mesmo tempo, projetos inovadores continuam surgindo, como novos centros anunciados em Pequim e na Suécia. The post Centros de dados entram na mira por agravar ilhas de calor appeared first on CicloVivo.