Gigantes da tecnologia e investidores do mercado acionário estão cada vez mais alinhados na previsão de que a inteligência artificial eliminará permanentemente milhões de empregos de escritório e tornará obsoleto o trabalho tradicional.As ações de software e serviços vêm sofrendo forte queda, com os múltiplos de software recuando cerca de 33% desde o fim de 2025, à medida que investidores se preocupam com o potencial da IA de automatizar vastas áreas do trabalho intelectual. No início deste ano, Elon Musk previu que a IA e robôs humanoides tornarão o trabalho completamente “opcional” nos próximos 10 a 20 anos, inaugurando uma economia pós-escassez na qual o próprio dinheiro se tornaria irrelevante.Leia também: Banco Central Europeu ainda não vê onda de demissões motivadas pela IAEle se junta a um coro crescente de executivos de tecnologia que fazem alertas contundentes sobre a obsolescência humana; o CEO da OpenAI, Sam Altman, alertou recentemente que a superinteligência poderá em breve superar até mesmo os principais executivos corporativos, enquanto o chefe de IA da Microsoft, Mustafa Suleyman, e o CEO da Anthropic, Dario Amodei, projetaram que uma ampla automação dos empregos de escritório pode chegar em um a cinco anos.Economistas permanecem céticos quanto ao prazo, observando que a narrativa apocalíptica pode ser tanto uma ferramenta para justificar avaliações astronômicas de empresas de tecnologia quanto uma realidade econômica iminente.Mas um novo relatório de pesquisa transversal sobre diferentes classes de ativos do Morgan Stanley oferece uma mensagem surpreendentemente pé no chão para funcionários ansiosos e mercados nervosos: a maioria de vocês não ficará permanentemente desempregada; vocês apenas encontrarão novos empregos, muitos — ou a maioria — dos quais ainda nem existem.Ao abordar a preocupação generalizada de que a IA vai “substituir milhões de empregos e aumentar o desemprego em montante equivalente”, uma grande equipe de analistas do Morgan Stanley apontou diretamente para a história. Nos últimos 150 anos, mudanças tecnológicas profundas — da eletrificação e do trator ao computador e à internet — transformaram fundamentalmente a força de trabalho, mas “não substituíram o trabalho humano”.Quando a planilha eletrônica se popularizou nos anos 1980, por exemplo, ela automatizou tarefas repetitivas de modelagem financeira e reduziu a necessidade de certos auxiliares de contabilidade. Ao mesmo tempo, porém, liberou tempo dos analistas para atividades mais complexas e deu origem a profissões financeiras inteiramente novas. Da mesma forma, argumenta o banco, a IA apenas mudará “tipos de emprego, ocupações e habilidades necessárias”.“Embora algumas funções possam ser automatizadas, outras serão aprimoradas com o uso complementar da IA, e outras, totalmente novas, serão criadas”, afirma o relatório. Em vez de um evento de extinção em massa para os trabalhadores de escritório, o banco vê o ambiente corporativo apenas se preparando para uma evolução.Quais empregos virão?Então, como serão esses novos empregos? O Morgan Stanley descreve várias profissões emergentes que prevê que em breve se tornarão presença comum nas empresas.À medida que a IA se torna central na estratégia de negócios, espera-se que as companhias contratem executivos de alto nível, como “chief AI officers”, para orientar a adoção da tecnologia em todos os departamentos. Também haverá um forte aumento em funções de governança de IA, focadas em conformidade de dados, supervisão de políticas e segurança da informação, especialmente em setores sensíveis como o de saúde.O setor de tecnologia pode assistir ao surgimento de funções híbridas, como a combinação de gerente de produto e engenheiro. Impulsionados por ferramentas de programação em linguagem natural, gerentes de produto passarão cada vez mais a praticar o chamado “vibe coding” — criando protótipos e aprimorando conceitos por conta própria antes de entregá-los aos engenheiros para implementação.Funções altamente especializadas também podem surgir em diversos setores. No segmento de consumo, “estrategistas de personalização com IA” e “analistas de cadeia de suprimentos com IA” combinarão ciência de dados e experiência do cliente. Na indústria, veremos “engenheiros de manutenção preditiva” e “analistas de redes elétricas inteligentes”, enquanto a área da saúde demandará “geneticistas computacionais” e especialistas dedicados à supervisão de diagnósticos por IA.Para os mercados financeiros, o pânico atual em relação à disrupção provocada pela IA parece prematuro, se não totalmente equivocado, na avaliação do banco. O Morgan Stanley observa que os setores de serviços e os segmentos cíclicos que recentemente tiveram desempenho muito abaixo da média devido a temores de disrupção representam apenas cerca de 13% do valor de mercado do S&P 500.A Fortune já havia reportado uma constatação semelhante de outros economistas de Wall Street: o mercado parece estar entrando em pânico por conta própria, sem que os fundamentos justifiquem, uma tendência provavelmente agravada pelo número crescente de investidores de varejo no mercado de ações. O economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok, alertou que “todo o mercado [está] exposto a um grande movimento”, argumentando que a fatia de empresas do S&P 500 que se movem mais de 10% em um único dia aumentou, enquanto a atividade com opções permanece “extremamente elevada, consistente com forte especulação de investidores de varejo e exposição semelhante à alavancagem”. Isso torna a estrutura do mercado “mais frágil e mais vulnerável a um movimento abrupto e desproporcional”.Mas e se desta vez for diferente?O relatório do Morgan Stanley oferece um alívio bem-vindo — mas pode estar contando uma história reconfortante que não se encaixa nas realidades tecnológicas e econômicas de 2026. Embora seja verdade que ondas anteriores de automação criaram tantos empregos quanto destruíram, a IA pode representar uma mudança qualitativamente diferente, ao atingir tarefas cognitivas, criativas e de tomada de decisão antes consideradas imunes à automação.Em um novo artigo divulgado no mesmo dia, dois economistas vencedores do Nobel (Daron Acemoglu e Simon Johnson) e outro extremamente influente (David Autor, conhecido por seu trabalho sobre o “Choque da China”) argumentaram que desta vez pode realmente ser diferente. Em “Building Pro-Worker Artificial Intelligence”, publicado pelo Hamilton Project, eles alertaram que “tecnologias de automação pura” fazem o oposto de colaborar com trabalhadores: “Elas transformam a expertise humana em commodity, tornando-a menos valiosa e potencialmente supérflua”. O estoque específico de conhecimento humano especializado pode se tornar “obsoleto” com a ampla adoção dessa tecnologia.Embora a tese do Morgan Stanley reflita o otimismo histórico, as lições do passado podem não se aplicar de forma direta em um contexto de transição de ferramentas que ampliam o trabalho humano para sistemas que substituem a cognição. Conforme alertado no ensaio especulativo da Citrini Research, a IA pode gerar ganhos de produtividade que desvinculem ainda mais os lucros corporativos do emprego do que ocorreu na era da computação. Se as empresas puderem expandir a produção com forças de trabalho amplamente automatizadas, terão pouco incentivo para recontratar nos níveis históricos.O Morgan Stanley cita evidências de que as empresas americanas já estão colhendo benefícios concretos com a adoção da IA. No quarto trimestre de 2025, 30% das companhias identificadas como “adotantes” de IA relataram benefícios financeiros ou de produtividade quantificáveis decorrentes da tecnologia, ante apenas 16% um ano antes. Como resultado, as expectativas para as margens de lucro futuras estão se acelerando de forma ativa nas empresas que utilizam a IA com sucesso. A continuidade do aumento dessas margens, e o número de novos empregos criados por essas empresas como consequência, indicarão se a previsão do Morgan Stanley está correta.Para esta reportagem, jornalistas da Fortune utilizaram IA generativa como ferramenta de pesquisa. Um editor verificou a precisão das informações antes da publicação.2026 Fortune Media IP LimitedThe post Morgan Stanley diz que IA exigirá preparo para empregos que nem existem ainda appeared first on InfoMoney.