As garantias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para assegurar o fluxo de energia pelo Golfo Pérsico, com seguros e até escolta naval, são vistas pela indústria marítima, no máximo, como uma solução parcial para uma crise histórica.Os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã no fim de semana desencadearam um conflito regional em rápida escalada, e vários ataques a embarcações acabaram fechando, na prática, o Estreito de Ormuz. Sem a passagem por essa rota estratégica, o comércio marítimo entre alguns dos maiores produtores de petróleo e gás do mundo e o restante do planeta fica praticamente interrompido.“Nada é certo e precisamos de clareza imediata”, disse Khalid Hashim, diretor-gerente da Precious Shipping, empresa tailandesa que opera navios graneleiros. “Vidas estão em risco, cargas estão em risco, navios estão em risco. Precisamos de cobertura imediata que nos proteja de tudo isso.”Leia tambémGuarda Revolucionária do Irã diz ter “controle total” sobre o Estreito de OrmuzEstreito por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial enfrenta interrupções no tráfego em meio à guerra entre Irã, EUA e IsraelPetróleo sobe 4%, com fechamento do Estreito de Ormuz e guerra amplificada na regiãoPreços desaceleram após saltarem 9% sob promessa de Trump de escolta naval e seguros subsidiados; analistas alertam para choque energético superior ao início da guerra na UcrâniaSegundo ele, a companhia ainda tem embarcações no Golfo Pérsico e enfrenta dificuldades para obter seguro contra risco de guerra antes de permitir que os navios deixem a região.Com embarcações incapazes ou relutantes em atravessar o estreito, produtores não conseguem exportar, o custo de superpetroleiros dispara e a capacidade de armazenamento em refinarias do Golfo Pérsico se enche rapidamente. Grandes associações de seguros marítimos já retiraram a cobertura contra risco de guerra para navios que operam na área.“A principal preocupação dos armadores é o risco real de perda”, disse Karnan Thirupathy, sócio do escritório Kennedys Law, especializado nos setores de commodities, transporte marítimo e seguros. “Ninguém entra nesse comércio se o risco de perda for simplesmente alto demais.”Os efeitos já aparecem na oferta de petróleo. O Iraque, segundo maior produtor do Oriente Médio depois da Arábia Saudita, já começou a fazer cortes significativos na produção e pode enfrentar reduções ainda maiores — um dos sinais mais claros até agora da pressão sobre os fornecedores da região.A proposta de Trump envolve mobilizar a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (DFC, na sigla em inglês), instituição que normalmente apoia o setor privado no financiamento de projetos em países em desenvolvimento. A ideia é que a entidade dê suporte a afretadores, armadores e seguradoras marítimas.“Embora os comentários do presidente Trump sobre seguros e escolta de petroleiros tenham provocado uma queda momentânea nos preços do petróleo, questionamos quanto planejamento foi feito até agora sobre essa garantia de seguro e acreditamos que pode haver diversos desafios para implementar esse plano rapidamente”, escreveram analistas da RBC Capital Markets em relatório.Há alguns precedentes internacionais. Em novembro de 2023, foi criado um mecanismo com parceiros como seguradoras do Lloyd’s e o governo da Ucrânia para oferecer seguro acessível contra risco de guerra a navios que sustentavam as exportações marítimas ucranianas, especialmente de grãos. A própria DFC também já forneceu apoio em resseguros contra risco de guerra.Leia tambémFuturos de NY ampliam perdas com risco de conflito prolongado no IrãSem perspectiva clara de encerramento, cresce o temor de efeitos econômicos prolongadosAinda assim, uma versão organizada pelos EUA para cobrir petróleo, gás e combustíveis em todo o Golfo Pérsico teria escala muito maior e seria mais complexa, dada a quantidade de produtores e consumidores envolvidos. Alguns armadores disseram também que hesitam em vincular seus negócios a uma administração americana considerada volátil.Os preços do petróleo chegaram a recuar após o anúncio de Trump na terça-feira, embora o mercado tenha retomado a tendência de alta. Com poucos detalhes disponíveis, armadores afirmaram que permanecem cautelosos tanto sobre o modelo de seguro quanto sobre os custos envolvidos. Eles pediram anonimato por não terem autorização para falar com a imprensa.Alguns executivos também disseram que o problema de confiança não será resolvido facilmente apenas com a presença da Marinha dos EUA, diante da continuidade dos ataques iranianos e da capacidade limitada de fornecer escoltas em larga escala — especialmente porque muitos petroleiros não pertencem nem navegam sob bandeira americana. Ataques houthis no Mar Vermelho continuaram mesmo após intervenção militar, lembraram.“Os EUA estão liderando a campanha contra o Irã, e uma questão central será se haverá ativos navais suficientes para escoltar navios e ao mesmo tempo manter operações militares contra o Irã”, escreveram analistas da RBC.Mesmo uma solução limitada para permitir a retomada parcial do tráfego levaria tempo para ser implementada — algo que produtores e consumidores podem não ter.“É uma notícia bem-vinda, mas claramente não acontecerá da noite para o dia”, disse Warren Patterson, chefe de estratégia de commodities do ING Groep NV. “Escoltas navais ajudariam, mas esse esforço também levará tempo. E essas escoltas podem se tornar alvos fáceis de ataques iranianos.”©️2026 Bloomberg L.P.The post Indústria naval vê limites em plano de Trump para liberar Ormuz appeared first on InfoMoney.