Dia Mundial da Obesidade: por que reconhecer como doença muda o cuidado

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Durante muito tempo, o excesso de peso foi reduzido a uma questão de disciplina. Frases como “falta deforça de vontade” ou “é só fechar a boca” ainda circulam com facilidade. No entanto, a ciência já deixou claro que a obesidade é uma doença crônica complexa, influenciada por múltiplos fatores biológicos, ambientais e emocionais. Mudar essa percepção é um passo decisivo para enfrentar o problema com seriedade e humanidade.A Organização Mundial da Saúde classifica a obesidade como doença há décadas. Ainda assim, o estigma persiste, atrasando diagnósticos, dificultando tratamentos e afastando pacientes do acompanhamento médico adequado.Obesidade não é falha de caráterA obesidade resulta da interação entre genética, metabolismo, ambiente alimentar, sedentarismo, qualidade do sono, estresse e fatores psicológicos. Algumas pessoas têm maior predisposição biológica ao ganho de peso, com alterações hormonais e mecanismos de regulação do apetite que favorecem o acúmulo de gordura.Além disso, vivemos em um ambiente que estimula o consumo de alimentos ultraprocessados, com alta densidade calórica e baixo valor nutricional. A rotina acelerada, o estresse crônico e o sono inadequado também interferem nos hormônios que controlam a fome e a saciedade.Isso não significa que as escolhas individuais não tenham importância, mas reforça que a obesidade não pode ser explicada por simplificações. Quando tratamos o problema como doença, saímos do julgamento moral e entramos no campo da saúde.Muito além da balançaOs impactos da obesidade ultrapassam a estética ou o número mostrado na balança. O excesso de gordura corporal está associado ao aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia, apneia do sono, doença cardiovascular e alguns tipos de câncer.Estudos mostram que a obesidade é um dos principais fatores de risco para infarto e AVC. Além disso, a inflamação crônica associada ao tecido adiposo em excesso contribui para alterações metabólicas complexas.A saúde mental também é profundamente afetada. O estigma social, a discriminação e a frustração com tentativas repetidas de emagrecimento sem sucesso podem levar à ansiedade, à depressão e ao isolamento social.Tratamento moderno e individualizadoReconhecer a obesidade como doença abre espaço para um tratamento estruturado e acompanhamento contínuo. A base continua sendo a mudança de estilo de vida, com reeducação alimentar, prática regular de atividade física e melhora da qualidade do sono. No entanto, essas estratégias devem ser adaptadas à realidade de cada paciente, respeitando limitações e o contexto social.O acompanhamento multiprofissional – com médico, nutricionista, psicólogo e educador físico – aumenta significativamente as chances de sucesso a longo prazo. Em alguns casos, medicamentos específicos podem ser indicados para auxiliar no controle do apetite e do metabolismo, sempre sob supervisão médica.Quando há obesidade grave ou presença de comorbidades importantes, a cirurgia bariátrica pode ser considerada, com critérios bem definidos e avaliação cuidadosa. Trata-se de uma ferramenta terapêutica, não de solução estética.O Dia Mundial da Obesidade é um convite à mudança de olhar. Ao tratarmos o excesso de peso como doença crônica, substituímos culpa por cuidado, preconceito por ciência e improviso por estratégia. E isso muda tudo – para o paciente, para a família e para o sistema de saúde como um todo.Dr. Maurício Yagui Hirata – CRM/SP 59813 | RQE 088604EndocrinologistaMembro do corpo clínico do Hospital Albert Einstein e Sírio Libanês.Membro da Endocrine Society, European Society of Endocrinology e American Association of ClinicalEndocrinology.Head Nacional de Endrocrinologia da Brazil Health