A Síndrome da Impostora (que às vezes tem razão)

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A narrativa mais comum sobre o tema procura tranquilizar: “É só uma ilusão. És mais do que suficiente.” Mas e se, por momentos, essa síndrome estiver a dizer algo que merece ser ouvido? Nem sempre a dúvida é sinal de fragilidade. Às vezes, é apenas lucidez.Há contextos profissionais onde a pressão para estar sempre à altura é tão constante que qualquer falha mínima – uma hesitação numa reunião, um email esquecido, um comentário menos certeiro – se transforma numa prova interior de incompetência. A síndrome da impostora instala-se precisamente aí: no espaço entre a exigência desumana do papel e a humanidade real da pessoa que o ocupa.E a verdade é que nenhuma mulher nasce preparada para liderar sistemas que não foram desenhados com ela em mente. A construção da confiança feminina não é espontânea – é quase sempre conquistada à força, remando contra décadas de mensagens contraditórias: «Sejas forte, mas não fria. Sejas firme, mas gentil. Cresce, mas não incomodes.»Neste cenário, o desconforto não é patológico. É consequência. Consequência de ambientes que ainda confundem competência com masculinidade. Consequência de lideranças que elogiam a assertividade… até ela vir de uma mulher.É aqui que a chamada síndrome ganha outra leitura: não como inimiga a combater, mas como um reflexo de uma cultura profissional onde a dúvida feminina foi, durante demasiado tempo, normalizada – e onde a confiança plena, quando surge, ainda levanta sobrancelhas.É preciso distinguir duas coisas: a dúvida crónica que mina e paralisa – e deve ser desafiada – da dúvida inteligente que leva à reflexão, à escuta e à melhoria contínua. Nem toda a insegurança é disfuncional. Algumas inseguranças são avisos. São alertas de que se pode fazer melhor. De que ainda há espaço para crescer. E reconhecer isso é maturidade, não fraqueza.Aliás, um dos maiores perigos não é ter síndrome da impostora. É não ter nenhum tipo de síndrome. É a certeza da própria infalibilidade. A convicção cega de que já se chegou ao topo e que nada mais há para aprender. Essa sim, é perigosa.Mulheres que sentem, que questionam, que se cobram… podem, sim, sentir-se impostoras. Mas são, quase sempre, também as que mais se preparam, mais estudam, mais cuidam do impacto que têm. E por isso, são também, frequentemente, as mais aptas para liderar.O que falta à síndrome da impostora não é negação. É contexto. É compreensão. E, sobretudo, é tempo: tempo para que a competência amadureça em confiança legítima – não fabricada, não gritante, mas sólida e tranquila.Porque não é preciso sentir-se dona de tudo para ocupar um lugar. É preciso apenas ter a coragem de estar – mesmo quando a voz interior diz que não se está pronta. Porque ninguém está sempre pronta. Mas algumas fazem mesmo assim. E isso, no fim, é o que faz toda a diferença.O conteúdo A Síndrome da Impostora (que às vezes tem razão) aparece primeiro em Revista Líder.