Um adolescente australiano tornou-se a primeira vítima fatal confirmada no país (e a segunda no mundo) de uma condição rara: a alergia a carne decorrente da picada de carrapato. O caso de Jeremy Webb, que faleceu após comer salsichas de carne bovina, acendeu um alerta global sobre como um pequeno parasita pode “reprogramar” o sistema imunológico humano de forma drástica. O estudo detalhando o fenômeno foi divulgado recentemente por especialistas no portal The Conversation.Como uma picada “reprograma” o sistema imunológicoImagine que seu corpo é uma fortaleza. Normalmente, ele ignora o açúcar presente na carne vermelha. No entanto, quando o carrapato-da-paralisia australiano (Ixodes holocyclus) pica um humano, ele injeta uma molécula de açúcar chamada alpha-gal.Como essa substância não existe naturalmente no nosso organismo, o sistema de defesa a interpreta como um invasor perigoso e cria anticorpos IgE contra ela. O problema é que, meses depois, ao comer um bife ou um doce com gelatina, o corpo reconhece o açúcar da comida como aquele antigo inimigo da picada e inicia um ataque total.Diferente de outras alergias, a reação aqui é uma “bomba-relógio”: os sintomas costumam aparecer apenas horas após a ingestão, o que dificulta o diagnóstico imediato.Casos estão em ascensão: quem corre mais risco?A análise de dados coletados até 2025 mostra que os casos de sensibilidade ao alpha-gal cresceram 22% ao ano desde 2020. Embora o caso fatal recente tenha envolvido um jovem, os pesquisadores apontam que o grupo de maior risco está na faixa dos 45 aos 75 anos.As mulheres representam cerca de 60% dos diagnósticos, embora a ciência ainda não saiba explicar o porquê. O aumento nas estatísticas é atribuído a dois fatores:Mais médicos estão solicitando o teste específico.Invernos mais úmidos e verões amenos estão expandindo o habitat dos carrapatos para áreas urbanas.A descoberta vai além do choque anafilático. Cientistas estão investigando uma conexão sombria entre a exposição ao alpha-gal e doenças cardiovasculares. A hipótese levantada por pesquisadores é que a presença desses anticorpos no sangue pode causar uma inflamação silenciosa nas placas das artérias, aumentando o risco de infarto mesmo em quem não apresenta sintomas alérgicos visíveis após comer carne.Como se proteger e o que evitarNão existe cura para a alergia à carne mamífera. Por isso, a prevenção contra picadas é a única defesa real. Especialistas recomendam:Usar roupas claras (para enxergar o parasita) e calças compridas dentro das meias em áreas de mata.Aplicar repelentes que contenham DEET.Nunca use pinças domésticas para “puxar” o carrapato, pois isso pode espremer mais saliva (e alpha-gal) para dentro do seu sangue. O ideal é usar técnicas de congelamento ou pinças cirúrgicas apropriadas.O post Picada de carrapato causa alergia à carne e primeira morte na Austrália apareceu primeiro em Olhar Digital.